DEU NO JORNAL

Guilherme Fiuza

– Tá acompanhando a CPI?

– Tô.

– Muito legal, né?

– Muito. Adoro CPI.

– Eu também. Tava com saudade.

– Não sei por que deixaram a gente tanto tempo sem CPI.

– Absurdo. A gente vota nos caras pra ter distração e os caras não cumprem.

– Agora você falou tudo.

– Só repeti o que todo mundo sabe. Político não cumpre promessa.

– Não, falei da distração. Nunca tinha pensado nisso.

– O que?

– Que a gente vota pra se distrair. Não tem nada a ver com política.

– Aí você já radicalizou. Um pouquinho às vezes tem.

– É. Às vezes tem. Mas é raro. Lembra o governo Lula?

– Mais ou menos.

– Pois é. Eu lembro bem.

– Prova de que você não é tão distraído.

– Verdade. Mas estou me curando.

– Que bom. O importante é se distrair. Mas o que tem o governo Lula?

– Foi um fenômeno interessante. Começou com uma política macroeconômica responsável, consolidando o Plano Real. Ou seja, um tédio.

– Foi chato mesmo esse período. Tanto que eu nem lembrava.

– Aí veio o mensalão e animou. Nunca mais o Lula saiu das manchetes.

– Bem observado. Se não fosse o mensalão talvez ele nem tivesse sido reeleito.

– Com certeza não. Seria esquecido.

– Engolido pelo tédio.

– Exatamente.

– Por isso hoje a gente deve muito à dupla R & R.

– R & R?

– Renan e Randolfe. Eles vieram salvar o país do marasmo com essa CPI.

– Aí vou ter que discordar. Marasmo? No meio de uma pandemia?

– É. Já estavam vindo com esse papo no Congresso de retomar reformas. Imagina o tédio?

– Ah, entendi. Verdade. Basta começarem a falar na TV de reforma administrativa que eu pego no sono.

– E a tributária? IVA, ISS, agregado… Quando chega no imposto em cascata eu já estou sonhando com o Ciro Gomes.

– Faz sentido. Cascata por cascata, pelo menos o Ciro Gomes grita.

– Esses burocratas falando baixinho de cumulatividade e incidência em cadeia deviam ser proibidos no horário nobre.

– Falam em cadeia sem o menor conhecimento de causa. Por isso é bom ouvir o Lula.

– Exato. Fala do que sabe, do que viveu.

– Ciro Gomes também.

– Conhece cadeia?

– Não. Mas contratou o João Santana, que não só foi preso como é o autor da estratégia que empoderou o maior ladrão do país.

– Aí sim o voto vale a pena. Senão a gente ia ficar falando de que? Reformas?!

– Ninguém merece. Falando em reformas, temos que tirar o chapéu pro STF.

– Por quê?

– Colocou o Lula na eleição do ano que vem. Vamos poder voltar a falar das reformas do triplex do Guarujá e do sítio de Atibaia.

– Ufa. E a gente achando que nunca mais ia poder discutir reforma boa nesse país… Ponto pro STF.

– E ponto pro Renan Calheiros, pro Randolfe Rodrigues e demais guerreiros da nova CPI. Ninguém pode negar: era claríssimo o risco de afundarmos de novo naquelas reformas entediantes e tecnocráticas que ficam discutindo custo Brasil e não divertem ninguém.

– Graças a eles vamos voltar a ver show do Mandetta.

– Será que ele vai sambar no pé de novo?

– Se o Renan pedir ele samba.

– Mas não vai ter aquele baixo astral de covidão e desvio de verbas emergenciais não, né?

– Nada. Só alegria.

– Então viva a CPI!

– Viva!

Deixe uma resposta