JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

Hoje eu plagiei o folclorista Câmara Cascudo, na sua criativa exaltação ao nosso povo, quando afirmou que “o melhor do Brasil é o brasileiro”. Apropriei-me, também, de ditado do jornalista Nelson Rodrigues para montar o meu próprio axioma: “O melhor para o Brasil é o brasileiro, desde que liberto do seu complexo de vira-lata”.

Vejam se não procede tal linha de raciocínio. Alguém já parou para analisar a versatilidade que um povo resultante da miscigenação de índios, portugueses e africanos, teve de lançar mão para desbravar e conservar um território continental de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, e se tornar a quinta maior nação do planeta.

Como ao longo de 500 anos, esse mesmo povo conseguiu manter o país unido e falando o mesmo idioma, embora sendo dilapidado de suas riquezas naturais pela cobiça de nações poderosas; ou, ainda manter a soberania de um território inóspito como o da Amazônia, sem possuir poderio bélico condizente para tanto.

Ah, quanto ganho teríamos obtido se abandonado fosse o complexo de inferioridade estagnado na nossa índole, e vermos exaltado o verdadeiro orgulho de ser brasileiro! Como teria sido diferente se, séculos atrás, tivéssemos nos livrado do câncer do colonialismo.

Em qual patamar de desenvolvimento estaríamos hoje se, desde o início do Brasil-república, houvéssemos investido numa educação de qualidade para pavimentar o futuro desse povo alegre por natureza e criativo por vocação.

Deixei-me invadir por essa onda de nacionalismo em decorrência do clima de pátria amada Brasil, que aflora no mês de setembro. É difícil para o brasileiro incutir na cachola a excepcionalidade da qual é portador para extrair resultados positivos em benefício próprio. Citemos apenas duas iniciativas de engajamento da nação num processo de criatividade, que serviram de exemplos para o mundo.

O primeiro deles foi na luta contra a Aids. Em junho de 1981, ano do descobrimento do vírus HIV, o grau de letalidade da doença detinha expectativa de vida de apenas 5,8 meses, o que a transformou no mal do planeta. Em 1996, enquanto o mundo, ainda perplexo, não sabia como controlar a então “doença dos gays”, o Brasil tomou a iniciativa de oferecer tratamento público para todas as pessoas infectadas.

Para tanto, peitou poderosas companhias farmacêuticas multinacionais, quebrando patentes brasileiras de remédios antiAids para atender a população portadora do vírus. O modelo brasileiro virou referência mundial por adotar, precocemente, uma ação integrada de prevenção e tratamento da doença.
O outro exemplo foi no combate ao fumo. Relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), divulgado em julho último, no Rio de Janeiro, sobre a Epidemia Mundial do Tabaco, aponta o Brasil como referência mundial no combate ao tabagismo.

Esse resultado é constatado no cotidiano de cada brasileiro. Um país tomado pela epidemia viciante do fumo, conseguir sobressair-se das demais nações do planeta no controle do mal, é motivo, sim, de orgulho e esperança para nós brasileiros.

Apontam o Brasil como um país protegido pelos deuses do universo. Enquanto na maioria das nações do planeta ocorrem desastres naturais de toda ordem; aqui, desastres de verdade, somente os produzidos por nossa política devastadora.

Entrementes, acredito que apelando para a nossa criatividade no enfrentamento dessa problemática, também encontraremos a solucionática adequada.

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