ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

Esta última semana foi nada tediosa na taba caeté, desta terra chamada Pindorama. Viu-se tudo e ouviu-se de tudo, principalmente ao redor da taba do Cacique, com muitos pajés cantando manitôs contra o chefe, e tecendo canitares coloridos, com pena de tudo quanto é ave: de pena de tucano, a pena de carcará, de pena de ema a pena de urubu. Enquanto isso, algumas cunhãs esmagam o urucum para fazer a pintura para a guerra contra o cacique. A carnificina ainda não começou. Estão apenas iguais a cachorros, latindo uns para outros e mostrando os dentes. O corolário dessa guerra anunciada é o extermínio de toda a taba.

Hoje, em Pindorama, nós, caetés mais magruços e desimportantes, vivendo na periferia da oca central, estamos vivendo de pequenas escaramuças. Em uma alegoria titaniquista (daquele navio, o Titanic), estamos furando o fundo de todos os botes salva-vidas, enquanto o mastodonte da época vai à pique. Estamos sabotando nossa capacidade de sair ileso desse naufrágio, tudo porque achamos que o nosso oposto é negacionista, terraplanista, lockdownista, isolacionista. Na paz dos mortos que virá após esse naufrágio, nada disso importará. Na paz do cemitério que se aproxima, todos estamos fazendo furos nos botes. Só que, ao contrário daquele naufrágio que foi em água gelada, nossa água está fervendo!

Na guerra de cuspes, palavrões, chamando a mãe do outro de quenga, riscando uma linha no chão e gritando “se tu é homem, passa dessa linha”, a última fronteira não ultrapassável que está implícita nas regras da taba, que procura dar estabilidade para a convivência equilibrada, sem que um caeté mais forte, vá até a taba do caeté vizinho, pegue o seu filho e o asse em um jantar, foi pisoteada esta semana. Aliás, as diversas linhas de conduta da taba, desde o ano de 453 d. S. (depois de Sardiha) – 2019 no calendário ocidental -, vinham apontando para o momento em que chegamos. Diga-se de passagem, não é um momento de radicalização. Essa fase já passou. Chegamos ao que, na linguagem do meio se chama “ponto sem volta”. Explico!

Desde janeiro de 2019, com a inauguração do governo Jair Bolsonaro, produziu-se um antagonismo naquele latifúndio improdutivo chamado “Praça dos Três Poderes”. No entanto, as escaramuças sempre aconteciam em algum canto do Executivo que, em tese, não atrapalhavam as diretrizes macro do governo, mas causava aborrecimento, dor de cabeça e amolação. Nesse mesmo tempo, a massa pedia o “impicha” de diversos ministros do Supremo Tribunal Federal. Uma atitude tola à época, mas fazendo parte do jogo democrático.

Do outro lado, os ministros se movimentando parados, mas com um intuito certeiro: livrar Lula da cadeia, anular as condenações dele e reabilitá-lo para o jogo político. Com a pandemia, o supremo arvorou-se no dever de “administrar” o país, segundo entrevista de Gilmar Mendes, também conhecido como “boca de tabaca”. A tentativa de esvaziar o poder do chefe do executivo daria certo, se esse chefe fosse como dizia minha mãe, “filho de pai assustado”. Mas encontraram algo diferente que eles não sabiam e não sabem como lidar. Um presidente que não tinha nenhum processo nas gavetas supremas, para servir de ponto de pressão e tornar dócil o chefe do executivo.

Frustrada essa estratégia, partiu-se para a construção de um inquérito que é ilegal, abjeto, imoral e sem qualquer base criminal. Não existe no código penal brasileiro, o crime de “fake news” (na verdade, o termo caeté é mentira, mas os demais pajés acham bonito esse anglicismo). Além do crime de fake news, criou-se os ditos “atentados contra a democracia”. Ora, meu senhor! A democracia é tão magna em si mesma que permite até conspiradores contra ela mesma. O PT (aquela quadrilha travestida de partido político, comandado por um cangaceiro de nove dedos) conspira diariamente contra o Brasil e contra a democracia, e ninguém vai preso por isso.

Essa estratégica que envolveu a prisão do jornalista Evaldo Eustáquio, o deputado Daniel Silveira e culminou com a prisão do ex-deputado Roberto Jefferson, o famoso “Bob Jeff” foi um viés de radicalização que o meio jornalístico chamava de esticar a corda. Essa alegoria é equivocada quando se trata de analisar o sistema de governo concebido por Montesquieu. Uma corda pressupõe um sistema quase que inamovível de seu lugar, pouco flexível, e pouco distenso.

Uma alegoria que melhor cabe ao sistema democrático que foi tão bem elogiado por Tocqueville,é a do elástico. O sistema republicano se comporta como um elástico que pode ser esticado e encolhido dentro de um limite, de maneira que a tensão do puxão e da retração provoque um equilíbrio, sem que ocorra o esgarçamento desse elástico. Nesse modelo, a Constituição serve como um cobertor que consegue cobrir os pés e a cabeça do gigante, de maneira alternada. No meio espaço entre a cabeça e os pés, o corpo fica protegido. Em outras palavras, um dos três poderes pode tomar uma medida radical (o esticamento), e os demais retraem no seu movimento oposto (a distensão do elástico) e tudo volta ao normal.

Nessa ação de esticar e encolher o elástico, o meio fica protegido sob o manto constitucional. Mas, o que aconteceu nessa semana que passou – a prisão de Roberto Jefferson e a censura prévia de suas redes sociais – esgarçou esse elástico republicano, de maneira que o cobertor das leis já não cobre o meio constitucional, deixando a descoberto o cidadão que fica inseguro em relação aos ditames jurídicos e à confiabilidade de seus magistrados na esfera máxima de justiça.

O esgarçamento desse elástico republicano chegou a tal ponto, ou seja, o dito ponto sem volta, que qualquer tentativa de retorno a uma serenidade institucional e a busca de uma solução negociada para o impasse entre Executivo e Judiciário, será visto como covardia e capitulação. Qualquer lado que buscar essa via, em um país cindido pelo radicalismo político, será visto como covarde e frouxo. Quem quer se busque a conciliação será visto como frouxo e indigno. Esgarçou-se o elástico e o manto constitucional deixou de existir. Na prática estamos vivendo um regime de exceção comandado pela instituição que, em tese, na letra da constituição deveria ser um último bastião da legalidade, o último espaço de cidadania e proteção a princípios basilares das sociedades civilizadas.

A chegada a esse ponto sem retorno só deixou uma saída, para qualquer lado: partir para a ignorância, atropelando o que resta da Constituição de 1988. Não há como voltar atrás. Não há clima, não há intenção e não há condições. O Congresso Nacional que deveria ser o fiador da cidadania pela representação do voto acovardou-se refém de seus inúmeros processos e encrencas na justiça. A mesma justiça que ataca a cidadania, prende os rebeldes e quer calar a voz discordante.

Com essa “partida para a ignorância”, pouco resta da Carta de 1988. O seu artigo quinto, que se dizia cláusula pétrea, virou pó. O Supremo tribunal, cheio de ministros supremos de si mesmos pisoteou a lei e prende as ovelhas rebeldes. Depois que essas ovelhas acabarem, irão para cima das obedientes? A saída será partir para a ignorância. Resta saber se, nesse faroeste caeté, quem sacará a pistola mais rápida do coldre. Enquanto isso, os demais membros da tribo riem banguelos esperando a chuva cair do céu!

9 pensou em “PARTIR PARA A IGNORÂNCIA

  1. O último parágrafo fechou sua coluna com chave de ouro.
    Mormente pela frase “o Supremo tribunal, cheio de ministros supremos de si mesmos pisoteou a lei e prende as ovelhas rebeldes.”
    Parabéns!

  2. Como sempre, Roque pôs o dedo na ferida, enfiou o dedo no buraco catingoso, socou a mão na cara, chutou os ovos dos vagabundos! Parabéns.

    • Eu sou covarde Adônis…. cagão, borra-botas, tremelique, mofino.

      Mas, parece que você está profetizando algo que vai acontecer, mais cedo, ou mais tarde a gente vai ter que partir para a porrada se quisermos conservar nossa liberdade.

  3. Parabéns, prezado Roque, pela perfeição do texto, bonito e verdadeiro!
    O brasileiro, mesmo sofrendo com as humilhações dos “supremos”, não reage à altura e espera o circo pegar fogo.
    O povo continua “Esperando Godot” (Peça de teatro de Samuel Beckett – 1953)

    Parabéns, também, por esta importante data, em que você completa 50 anos de idade e 30 anos de serviço, prestado ao povo do seu Estado, Mato Grosso do Sul!

    Que esta data se repita por muitos e muitos anos, com muita saúde, alegria e Paz!

    Grande abraço!

    • Minha querida Violante.

      Suas sábias palavras são um lenitivo para este caeté cansado. Obrigado pela lembrança do dia de hoje. E continuemos torcendo para não partirmos para a ignorância nesta terra de Pindorama.

  4. Magnifica crônica, mestre Roque.

    Primoroso texto, que bem retrata nossa perigosa atualidade politica..

    Expusesse todo drama e toda trama vivida pela nação. Tudo ardilosamente armada nos bastidores da oposição macabra junto com o protagonismo da nossa suprema corte.

    Ficou bem claro o pacto firmado entre congressistas, ministros do supremo e imprensa marrom que, ganhar eleição é uma coisa, deixar governar é outra. Já que, nem a mutreta das urnas eletrônicas foram capazes de mudar o resultado final das eleições presidenciais.

    Tiveram que engolir a seco. Não sem cobrar um alto preço por isso. Mesmo que implique em foder o decantado varonil povo brasileiro. Pois a imprensa, (des)comprada, se encarrega de mentir mil vezes para que prevaleça a “verdade” deles.

    A insatisfação e a revolta pela provocação, está cada vez mais perto. Como cantou o pernambucano Alceu Valença na musica Anunciação “tu vens, tu vens, eu já escuto teus sinais”

    Sigo com o relator.

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