ADONIS OLIVEIRA - LÍNGUA FERINA

Durante toda a semana que passou, de 20 a 28 de novembro, estive em viagem por uma cidadezinha de Goiás, quase na divisa com o Mato Grosso. O nome do lugar? Mineiros-GO.

Fui lá a convite de um leitor do JBF que, atraído por aquela propaganda de sistemas de energias renováveis, que fiz no JBF há já alguns meses, convidou-me para implantar um sistema desses em sua fazenda.

A distância de Recife até Mineiros é cerca de 2.800 Km. Só para chegar em Goiânia, capital do estado de Goiás, foram mais de dois dias e meio chacoalhando em um ônibus desgraçado, e que parava em qualquer bodega da beira da estrada. De lá, seriam mais quase 500 Km até o destino final. Alugamos um carro e seguimos viagem.

Logo ao sair de Brasília, indo em direção a Anápolis e depois Goiânia, já pudemos constatar que aquela é uma terra diferenciada: campinas infinitas e extremamente verdes, entremeadas em pequenas serras. As pastagens extremamente bonitas, juntamente com o gado gordo e bonito, já nos preparavam para o que veríamos ao longo de todo o trajeto após passarmos por Goiânia.

Foram cerca de mais 500 Km até Mineiros, sempre em direção ao Oeste, distância esta que representa o trajeto de Recife a Salgueiro. Ou seja: quase que todo o comprimento do estado de Pernambuco. Só que, no caso de Pernambuco, é uma terra agreste e seca, sempre esturricada pelo sol escaldante e onde as condições de sobrevivência são precaríssimas. Lá, era uma sucessão de campos imensos e verdejantes, todos eles plantados por soja, milho ou pastagens. A terra roxa dava a impressão de ser poderosíssima na aceleração da germinação daquelas culturas e os plantadores não desperdiçavam nada. As plantações cobriam tudo, inclusive o recuo da lateral das estradas, o que fazia com que as plantações começassem bem ao lado das pistas de asfalto.

O gado que pastava naquelas planícies dava a impressão de que, por não ter de realizar muito esforço na busca do alimento ou da água, até o seu mocotó seria composto de filet mignon.

Periodicamente passávamos por algum conglomerado industrial da BR Foods, Perdigão, Cargill, Bunge, e outras empresas gigantes da área agrícola menos cotadas. A característica comum era uma monotonia só! Ninguém nas ruas, ninguém nos campos, todos envolvidos com os seus afazeres, sabe Deus lá onde. Raramente víamos alguma pessoa caminhando e se dirigindo a algum lugar.

Outra característica comum era a total ausência de cenas de miséria ou de sujeira. Nada que lembrasse a intensa catinga de fezes que nos invade as narinas ao nos aproximarmos a menos de 5 Km de qualquer grupamento humano do Nordeste, ou mesmo as montanhas de lixo e resíduos espalhados ao Deus dará ao longo das estradas nordestinas. Nada! Nem uma única embalagem plástica jogada nas ruas. Nem um único barraco miserável ou mesmo algum pedinte a exibir as suas misérias e em busca da piedade alheia. NADA!

Chegamos na entrada da fazenda, alguns poucos quilômetros antes da cidade propriamente dita, já próximo do anoitecer. Foi lá que nos encontramos e esta foi a primeira ocasião na qual nos vimos pessoalmente. A impressão que tive foi indelével! Teria a mesma idade que eu, mas a aparência era bem mais jovem e denotava uma condição física disparadamente melhor que a minha. Bastante alto (bem mais alto que eu, com meus 1,84m), um jeito cativante e uma simplicidade absolutamente inaudita. Seu nome? Sérgio Marchió.

Seguimos para a sede da fazenda e lá, este nos deixou imediatamente à vontade.

Durante nossas conversas preliminares, o mesmo havia me informado que me daria de presente um livro contando a história da saga da sua família, vindo da Itália no pós-guerra, e se estabelecendo naquela terra que, à época, pertencia unicamente aos índios. Era um verdadeiro “Far West”.

A saga do pai dele, juntamente com um irmão, ao abandonar a família, e vir se aventurar em um fim de mundo como aquele no início da década de 50 do século passado, é uma epopeia digna de ser relatada por um Sérgio Leone, com trilha sonora de Ênio Morricone e tudo. Não fica a dever em nada aos velhos filmes épicos de Hollywood.

Culminou com seu pai, já estabelecido e com uma bela família, e com os negócios começando a se encaminharem, sendo assassinado com alguns tiros devido a uma discussão besta que, até hoje, ninguém sabe explicar direito.

Ao final de cada um dos dias de trabalho, fui brindado com um tratamento digno de um convidado de honra. Bons vinhos, comida deliciosa e, o que é mais importante, conversas absolutamente raras.

Sérgio convidou seu irmão Cláudio para nossos diálogos de fim de tarde. Foi ele que presenciou o assassinato de seu pai. O trauma imenso, ao invés de torná-lo uma pessoa amarga, fez com que enveredasse por uma busca contínua a fim de entender os meandros obscuros da mente e da psique humana. Hoje, é um profundo conhecedor da obra e das ideias de C.G.Jung.

Durante estas nossas longas conversas, que se estendiam das 19:00 até próximo à meia noite, tive a oportunidade de relembrar coisas que, para mim, são extremamente valiosas, mas que é dificílimo de encontra quem compartilhe da mesma paixão. Coisas como:

• Ouvir a parte “Die Moldau”, na obra “Ma Vlast” (Minha terra), de Smetana, com a orquestra sinfônica de Berlim conduzida por Karajan;

• Falar sobre as obras de Mark Twain e as aventuras de Huck Finn no rio Mississipe;

• Discutir as ideias de Jung, ao mesmo tempo em que ouvíamos a “Slavonic Dance No 2” de Dvorak e falamos do Tarot de Marselha;

• Ouvir “Where have all the flowers gone”, de Peter Seger, na voz de Marlene Dietrich, em inglês, em francês e em alemão, quando ela cantou diante dos representantes das grandes potências, na ocasião de formação do Mercado Comum Europeu; e comparar com a poética circular de “ Massolini dei fiori”, onde Peter Seger foi se inspirar.

• Ouvir uma série de adágios que nos marcaram, como o do concerto 21 para piano, de Mozart; o de Albignoni, o da 3ª Sinfonia de Beethoven, ou a Sarabanda, de Haydn.

• Ouvir a Sinfonia 40, de Mozart, e procurar entender o contexto de profundo desencanto em que o mesmo se encontrava ao compor o seu belíssimo “testamento” sinfônico.

E mais. Muito mais…Momentos maravilhosos que muito dificilmente serão esquecidos.

Procurarei com afinco para arrumar uma desculpa que me leve a encontrar com estas figuras luminosas mais uma vez, de modo que possamos dar continuidade a estas nossas conversas piradíssimas.

P.S. O Sérgio tem estórias engraçadíssimas para serem contadas na nossa gazeta. Sugiro ao nosso mestre e guru que entre em contato com ele e veja se ele tem interesse em compartilhá-las conosco.

12 pensou em “PARAISO PERDIDO

  1. Grande mestre Adônis. Que história maravilhosa essa. Melhor ainda que esta reunião inusitada foi proporcionada pelo nosso JBF.

    Fiquei mais feliz hoje. Um bom domingo.

  2. Caro Adônis,
    Fiquei emocionado com seu relato. Acho que dessa vez deixou de lado a língua ferina, e não percebendo todas essas maravilhas que viu, só posso torcer para que tenhamos novas oportunidades de confabular.
    Grande abraço

    • Caro Sérgio,

      Também estou torcendo para que surjam mais oportunidades de usufruirmos mais uma vez das conversas maravilhosas que tivemos.

      Dê um grande abraço no Cláudio e diga-lhe que sentirei muita falta da sua companhia maravilhosa.

      Vocês conseguiram a incrível proeza de fazer com que eu aposentasse (temporariamente) a língua ferina.

  3. Grande Adonis (variação da palavra semita Adonai)
    Grande também na altura. (Batendo com o lindão do Bolsonaro. Aliás não sei se você sabe que Berto vive com a testa coçando pois Aline, a irmã dela Elen e eu somos apaixonadas por ele Hehe).
    Fiquei braba comigo mesma pois meus olhos não acompanhavam meu cérebro tamanha avidez para continuar lendo a coluna. Perfeita.
    Muito chão percorreu você. Descrevendo Goiás como realmente é. Meu sogro nasceu em Anápolis e já tive oportunidade de estar por lá algumas vezes. O lado materno de meu marido veio da Itália. Como eu gostaria de poder ter participado das conversas e do acolhimento que você teve por lá. A italianada é assim mesmo. Trabalha muito e não se queixa de nada. E a saga das famílias é quase sempre a mesma.
    Uma mistura que não poderia nunca dar errada. Italianos em terras goianas.
    Amei cada palavra e cada uma das pessoas envolvidas. Aproveito ( sem ser inadequada espero) mandar um abraço curitibano para o grandão Sérgio Marchió e todos os envolvidos nesse projeto. Faço votos que muito em breve você os reencontre.
    Encontrei apenas uma falha na coluna . Você não falou no pequi. Uma semente usada na culinária que você ou ama ou odeia. Não tem meio termo. Eu AMO.
    Tenha um ótimo domingo.
    Abraçação ( como diz Sancho)

    • Querida Schirley,

      Só Deus sabe o tamanho da admiração que eu tenho por essa italianada danada. Pena que vieram tão poucos para o Brasil. Deveriam ter vindo muitos mais. Estaríamos numa situação bem melhor.

      Os caras são paradoxais, ao pensar de um nordestino. Mesmo já tendo amealhado um patrimônio simplesmente admirável, trabalham todo santo dia, das 7 da manhã até ao anoitecer. E não é por serem sovinas, não! Ao contrário: são extremamente generosos. É apenas uma questão que lhes está entranhada na alma. O amor ao trabalho. E tudo o que inventam fazer, o fazem com invejável competência.

      Quanto ao pequi, já o conhecia. Os piauienses, com quem convivi durante uns quinze anos, são simplesmente fascinados pelo bicho. Para mim, causam uma profunda aversão. Fiquei com uma vergonha desgraçada pois, quando os goianos me ofereceram para experimentar a “iguaria” que tanto prezam, falei sem pensar que tinha “Catinga de bunda mal lavada”. A cara de consternação que fizeram deixou-me altamente arrependido da incontinência verbal. Deu para sentir o quanto amam esta “iguaria”.

      • Não posso deixar de rir-se-me (como diria Berto)toda. Imagine se morde o pequi então. Com todos aqueles espinhos que não há o que tire da boca toda

    • Um encontro entre gigantes (por qualquer prisma) Sérgio Marchió y Adônis é um regalo inolvidável, pois são dois cabras de muita prosa, história e estrada. Que um próximo encontro tenhamos áudio dos “causos e acausos” da charla entre os dois…

      Abraçação à Schirley, Marchio e Oliveira.

  4. Talvez, o próprio Berto não tenha noção do alcance da sua cria.

    O Adonis pode perceber a força que o JBF possui.

    Belo relato, Adonis.
    Sucesso.

  5. Pingback: A FORÇA DO JBF | JORNAL DA BESTA FUBANA

Deixe uma resposta