A PALAVRA DO EDITOR

Para montar narrativas de heróis e personagens históricos não faltam biógrafos; exaltar a vida de pessoas simples do povo é outra conversa. Falar de indivíduos que sem pretensão representaram papeis modestos, porém marcantes, no teatro da vida de cada comunidade é algo gratificante.

Daria uma enciclopédia nomear todos os protagonistas notáveis do dia a dia de Natal de antigamente. Cito aqui, outra leva de figuras peculiares que fizeram parte da história de nossa capital, os quais eu tive o prazer de conhecer.

Zé Menininho – José Ildefonso Freire de Souza, nascido no Ceará. Em Natal trabalhou como barbeiro de crianças, daí o apelido que o popularizou. Largou a profissão e enveredou pela música tocando sanfona. Caixão de Gás foi sua composição famosa e legado maior para o forró nordestino. É nome de rua em Natal.

Restinho – Frequentador assíduo das soirées do Aeroclube da capital. Não parava sentado, pois convidava para dançar todas as moças desacompanhadas da festa. De mansinho, se aproximava da vítima e tascava um Vamos dançar esse restinho? O restinho aludido era o da música em andamento no momento. Não o incomodava ser o recordista em levar foras, porque sempre surgia uma alma piedosa para ser-lhe o par.

Caju – Desequilibrado mental que mendigava pelas ruas da cidade sem incomodar ninguém. Porém, se algum moleque gritasse Caju, cadê a castanha? Ele, em desespero, segurando os órgãos genitais, gritava: Tá aqui. Venha segurar seu filho da p…! Quanto mais ele reclamava, mais ouvia a pergunta.

Maria Mula Manca – Esmoler com defeito físico que a fazia mancar. Andava apoiada num cajado. Passava o dia inteiro no Grande Ponte onde alardeava sua admiração por Dinarte Mariz. Chamada de Mula Manca destilava um festival de impropérios impublicáveis. Dizem que saiu de Natal depois da derrota de Dinarte para Aluizio Alves, no pleito para governador do Estado, em 1960.

Cícero Enfermeiro – Vestimenta branca, cigarro na piteira, aplicava injeções numa clientela variada e cativa, no tempo em que enfermeiro era uma raridade em Natal. Todo adolescente portador de doença sexualmente transmissível sabia o endereço certo para encontrar a cura: o consultório de Ciço na Rua Princesa Isabel.

Cuíca – Pedinte amalucado que fazia ponto no Alecrim. Quando agraciado com uma esmola batia forte com a cabeça numa parede, no chão ou em qualquer outro local para externar a sua gratidão. Aquela atitude grotesca e surreal deixava o piedoso doador além de pasmo, apavorado.

Bernardão – Lutador de Vale Tudo nos anos 60 e 70. Fuzileiro naval, 110 kg de músculos, impunha respeito pelo porte avantajado. Trabalhou como leão de chácara em clubes e boates da cidade sem nunca usar de violência. Possuía um passe para circular sem pagar nos ônibus da capital. Na época, a estudantada divulgava esta pérola de diálogo: “O seu passo por favor!” – pedia o cobrador do ônibus ao lutador. “O nome não é passo, é passe! Passo são os bichos que avoam! – respondia Bernardão.

Geraldo – Sabia-se dele apenas ser originário de Lagoa Salgada. Era portador de defeito congênito na coluna vertebral, que o fazia locomover-se como um quadrúpede. Nas mãos, calosidades idênticas às dos pés sempre descalços. Naquela posição atípica apostava e vencia corridas disputadas com indivíduos em postura normal. Parava atritando as mãos no chão como se fossem os pneus de um carro.

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