MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

Em 1977 eu trabalhava na nova fábrica da General Motors em São José dos Campos, SP, e o lançamento do Chevette foi uma das sensações do mercado automobilístico brasileiro naquele ano.

Todos nós tínhamos grande satisfação em trabalhar na fabricação do Chevette. O ambiente de trabalho era gratificante, novas amizades eram feitas e consolidadas, todos se sentiam parte de uma grande empresa, os salários eram justos e havia grandes oportunidades de progresso profissional.

O Diretor Geral da fábrica, sr. Adalberto B., era admirado e respeitado pelas suas atitudes, e uma das suas decisões, amplamente divulgada na comunidade, foi a contratação de dois operários cegos, uma atividade meritória e que promovia o conceito de dar oportunidades de trabalho a deficientes numa época em que isso era uma raridade no mundo industrial brasileiro. Em todas as visitas de gente importante o sr. Adalberto fazia questão de enfatizar tal atitude, levando os visitantes e verem “in loco” a política humana da empresa.

Um dos operários cegos era encarregado de montar as molas das válvulas de admissão e escape dos cabeçotes dos motores. Essas molas são muito parecidas em seus tamanhos e cores, mas diferem ligeiramente no diâmetro e no material de suas espirais, o que acarreta que as tensões delas, quando comprimidas, sejam diferentes. Pois é exatamente aí que o trabalho de uma pessoa cega é imbatível, já que o tato nessas pessoas é muito superior ao de uma pessoa com visão. O cego não presta atenção às dimensões ou à cor das válvulas, já que não as vê, mas as tensões diferentes entre uma e outra são facilmente perceptíveis ao seu tato.

De vez em quando um colega brincalhão trocava, só de sacanagem, os magazines onde estavam as válvulas para ver se o ceguinho se atrapalhava, mas esse engano era sempre percebido. Isso, claro, fazia com que ele comumente perdesse a paciência, e a correção era sempre feita com o acompanhamento de uma série de impropérios muito similares às piedosas manifestações artísticas da Dercy Gonçalves.

Em uma ocasião a fábrica recebeu a visita dos Conselheiros do CREAA (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia) do Estado de São Paulo, sendo que os distintos cavalheiros estavam acompanhados de suas respectivas esposas, muitas delas respeitáveis matronas orgulhosas de suas elevadas extrações e das posições sociais de seus maridos.

O grupo dos Conselheiros foi acompanhado por Engenheiros, entre os quais este servidor que escreve a vossuncê, para esclarecer eventuais questões técnicas, enquanto o grupo das esposas foi agraciado com uma caminhada pela fábrica tendo como cicerone o próprio sr. Adalberto.

Claro, não poderia nosso Diretor Geral deixar de dar uma passada pela seção montagem de válvulas para mostrar às damas a benemérita política humana da G.M.

Aproximando-se da estação de montagem, enfatizou o sr. Adalberto a qualidade do trabalho de uma pessoa com um sentido de tato tão desenvolvido e importante para a função. Sorrateiramente, em silêncio, trocou duas molas de posição para mostrar às refinadas damas que a qualidade do trabalho do cego era perfeita.

Deu merda.

Nosso personagem pegou as molas, percebeu que estavam trocadas e, já de saco cheio com as constantes brincadeiras de seus colegas, achou que era apenas mais uma delas e soltou os cachorros com indizíveis gesticulações e um sonoro desabafo:

– Puta que pariu, quem foi o veado cornudo filho de uma puta que trocou a porra dessas válvulas?

Olhos arregalados e gestos de horror das respeitáveis matronas.

O sr. Adalberto pediu desculpas, enfiou o rabo no meio das pernas, baixou as orelhas e foi levar suas convidadas a navegar em águas menos agitadas.

8 pensou em “OS OPERÁRIOS CEGOS

  1. Caro Magnovaldo, eu já vi situações semelhantes a esta, só que não envolvendo cegos e sim telefones, mais precisamente ramais telefônicos, com colegas ligando para outro imitando a voz do dono ou do diretor. Depois de várias vezes, o outro lado percebe e quando aparece a voz do diretor, já começa a xingar. Só que um dia o diretor de verdade liga. Isso já deu muito B.O.

    • Oi João:
      Também presenciei algo parecido, mas quando, nos anos 70, houve a moda dos “viva-voz” ligados aos aparelhos telefônicos. O funcionário recebeu uma ligação de um colega informando que o pirocão maior queria falar com ele, e respondeu: “o que esse f.d.p. quer comigo?”, sem saber que o viva-voz dele já estava instalado e ligado. Imediatamente apareceu a voz do pirulão dizendo: “venha aqui, que este f.d.p. quer comer teu rabo!”
      Imagino a conversa tete-a-tete dos dois.
      Tenha um bom final de semana.

  2. Sou de São José dos Campos e na Ericsson – onde trabalhei por mais de 30 anos – tínhamos cegos que exerciam funções nas linhas de montagem . Eram excepcionalmente competentes e admirados. Ri muito com a história. Um abraço.

    • Grande José Alves: é um prazer receber seu comentário.
      Tenho muita saudade de São José dos Campos, cidade onde passei 8 anos de minha vida e onde nasceram três dos meus quatro filhos.
      Um grande abraço, bom final de semana.

  3. Impossível não rir ao imaginar a cara dos presentes com os marimbondos que o ceguinho verbalmente soltou no recinto.

    Ganho meus dias ao chegar, cansado da entrega das encomendas de cocos, durante a madrugada e me deparar com os colunistas maravilhosos desta bertiana gazeta escrota.

    Um grande abraço, MAGNífico Valdo e ótimo final de semana.

    • Prezado Sancho:
      Muito obrigado pelos seus elogios, que só me fazem encher o bestunto de alegria,
      Tenho o mesmo sentimento que você, mormente quando leio seus escritos.
      Tenha um ótimo e proveitoso final de semana.
      Abração.

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