MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

Dona Rita era a Supervisora do restaurante da Vicsa, uma divisão da Villares em São Bernardo do Campo, nos idos da década de 80, uma época em que a Dilma ainda não estocava mandioca (ou só fazia uso dela ao vento, sei lá). Tinha seus quarenta e tantos anos então.

Era uma fêmea sui generis, apesar de não pertencer a nenhum grupo LGBTDSPQPXF?+. Tinha orgulho em apregoar que o único homem com quem teve algum contato físico foi seu irmão, em um abraço arrochado no Natal de um ano já perdido no passado. Ninguém mais. Tenho minhas dúvidas sobre se tudo isso aconteceu por uma firme decisão em manter sua preciosa virgindade para oferecer ao Senhor quando desencarnasse ou se a sua estampa física não incentivava nenhum cavalheiro a tentar alguma aproximação menos protocolar.

Dona Rita fazia uma sopa e um feijão com sabores inigualáveis, e a tradição de oferecer essas suas preciosidades culinárias aos dirigentes da empresa começou com o antigo Diretor que a contratou. A comida “convencional” era feita pelos cozinheiros, mas a sopa e o feijão eram feitos somente por ela, pessoalmente, agora para todos os mensalistas, uma tradição que ela começou quinze anos antes e da qual tinha muito orgulho.

Com o crescimento da empresa também aumentou o número de funcionários mensalistas, e agora já estavam em um número tal que obrigava Dona Rita a repetir a receita três vezes, utilizando as mesmas panelas, situação essa que consumia muito tempo e não permitia que ela gerenciasse de maneira correta seus funcionários, sendo isso uma causa frequente de atrasos no serviço do restaurante. Dona Rita não era capaz de multiplicar por três a receita. Assegurava que não era a mesma coisa.

A Diretoria resolveu, então, modernizar a cozinha do restaurante e impor uma gerência mais profissional, determinando a compra de duas panelas de pressão industriais para agilizar o processo de produção. Bem que gostariam de trocar a nossa Supervisora também, mas seu tempo de casa era um obstáculo, já que sua indenização seria elevada.

Coube a este escrivinhador que fuxica com vosmecê a tarefa de especificar os equipamentos.

Lógico, o primeiro parâmetro seria determinar a necessária capacidade das panelas. E aí entrou a infalível – será? – geometria. Foram medidos os volumes de uma terrina de sopa, o volume médio de uma porção de feijão com seu respectivo caldo, a quantidade de água que é necessária para cozinhar arroz, etc. Calculando a quantidade de refeições servidas, à qual foi adicionado um extra para os esganados de plantão, perdas por evaporação e uma previsão de aumento futuro de 20%, além da aplicação do “coeficiente de cagaço”, cheguei à conclusão que duas autoclaves de 100 litros cada uma eram suficientes. Mas, por via das dúvidas, mostrei os cálculos, as fotos e as especificações dos equipamentos para Dona Rita. Recebi sua aprovação. Assinou comigo a requisição de compra.

Duas semanas depois chegaram as duas unidades.

Dona Rita nem deixou descarregar o caminhão. Bateu o pé: as panelas eram muito pequenas.

Impasse arretado. Chamem o Engenheiro, esse infeliz que não sabe fazer conta de contas contadeiras.

– Que aconteceu, Dona Rita?

– Essas panelas são muito pequenas.

– Mas a capacidade é de 100 litros. Olhe aqui: p x diametro2 ÷ 4 x blá, blá, blá…

– Esse seu cálculo não serve pra nada. Quero aquelas panelas de 100 litros grandes, esses 100 litros de suas contas são muito pequenos.

E não houve aritmética capaz de mudar os conceitos geométricos de Dona Rita.

A empresa fornecedora aceitou de volta as duas panelas de 100 litros e vendeu duas de 200 litros cada, cobrando, claro, um precinho extra além da tabela para cobrir gastos administrativos.

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