VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

Há colecionadores de borboletas, selos, discos etc. Também há colecionadores de heterônimos, com personalidades variadas, estilo literário próprio, e inúmeros intuitos.

O heterônimo é um conceito literário utilizado por um autor, para criar um personagem completamente diferente da sua própria pessoa e se esconder atrás dele.

É uma construção completa de uma personalidade, com características próprias.

Foi o poeta Fernando Pessoa, um dos maiores expoentes da literatura em língua portuguesa, quem criou o heterônimo.

É usado, quando o autor quer se esconder de si mesmo ou de outras pessoas.

Heterônimos e pseudônimo se confundem. Alceu de Amoroso Lima (1893 – 1983) usava o pseudônimo de Tristão de Ataíde. Mas não representava outro personagem.

Enquanto os pseudônimos são apenas a criação e utilização de um nome falso para assinar um trabalho ou obra artística, os chamados heterônimos são criações de nomes e personalidades inteiras.

Um grande compositor brasileiro, perseguido pela censura nos “anos de chumbo”, para não perder o direito de compor, usou o pseudônimo de Julinho de Adelaide, e a censura o deixou em paz.

Fernando António Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa, no dia 13 de junho de 1888 e faleceu na mesma cidade, aos 47 anos, em 30 de novembro de 1935, vítima de complicações hepáticas. Pessoa foi um poeta, filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, publicitário, astrólogo, inventor, empresário, correspondente comercial, crítico literário e comentarista político português. Fernando Pessoa é o mais universal poeta português.

Criou mais de setenta heterônimos, ou seja, autores fictícios, com características próprias.

Os heterônimos mais conhecidos de Fernando Pessoa são: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares. Cada heterônimo desses tem um estilo próprio e uma ideologia diferente, que refletem o projeto artístico e a personalidade rara de Pessoa, poeta inigualável.

Cada heterônimo possui uma voz própria, com suas próprias ideias, opiniões e visão de mundo. Essa diferenciação é fundamental para que o autor possa explorar diferentes perspectivas e estilos literários em suas obras.

Além dos heterônimos criados por Fernando Pessoa, existem diversos outros exemplos de autores que utilizaram esse conceito em suas obras. Um dos mais conhecidos é o escritor argentino Jorge Luis Borges, que criou diversos heterônimos ao longo de sua carreira. Outro exemplo é o poeta brasileiro Manuel Bandeira, que utilizou o heterônimo de “Mário de Andrade” para assinar algumas de suas obras.

Os heterônimos desempenham um papel fundamental na literatura, pois permitem que os autores explorem diferentes perspectivas e estilos literários.

Ao criar um personagem completamente diferente do seu próprio, o autor pode experimentar novas formas de expressão e abordar temas de maneira diferente. Além disso, os heterônimos também podem ser utilizados como uma forma de escapismo, permitindo que o autor se distancie de sua própria identidade e explore outros aspectos de sua personalidade.

A criação de um heterônimo envolve um processo complexo, no qual o autor precisa desenvolver uma personalidade completa, com características próprias, e estilo de escrita. Para criar um heterônimo, o autor precisa pensar em todos os aspectos da personalidade do personagem, como sua história de vida, suas opiniões, seus gostos e até mesmo suas manias. Além disso, o autor também precisa desenvolver um estilo de escrita único para o heterônimo, de forma a diferenciá-lo de sua própria escrita.

Embora mais usados pelos autores do passado, o heterônimo pode ser encontrado na literatura atual. Alguns autores ainda utilizam heterônimos para explorar diferentes estilos literários e perspectivas em suas obras. Além disso, os heterônimos também são utilizados em outras áreas artísticas, como a música e o cinema, onde artistas criam personagens fictícias para se expressarem de maneiras diferentes.

A utilização de heterônimos na literatura não está isenta de críticas e controvérsias. Alguns críticos argumentam que a criação de heterônimos pode ser vista como uma forma de enganar as pessoas, pois o autor está criando outro autor fictício para assinar suas obras. Além disso, também há quem argumente que a utilização de heterônimos pode ser uma forma de escapismo, na qual o autor foge de sua própria identidade e seu estilo literário.

Há quem considere o uso de heterônimos uma fuga da própria personalidade. É como se o escritor se escondesse na pele de outra pessoa, com um nome fictício, por insegurança ou deboche. É tentar se esconder de si mesmo e ludibriar a boa fé das pessoas.

Os heterônimos são uma ferramenta poderosa utilizada por autores para explorar diferentes perspectivas e estilos literários em suas obras. Ao criar uma personalidade completa, com características próprias, biografia e estilo de escrita, o autor pode experimentar novas formas de expressão e abordar temas de maneiras diferentes. A utilização de heterônimos pode gerar controvérsias, e é inegável o impacto que eles têm na literatura.

6 pensou em “OS HETERÔNIMOS

  1. Violante,

    Gostei demais da conta da sua crônica abordando o tema dos heterônimos. O assunto me interessa muito devido a ser um admirado do poete português Fernando Pessoa (1888-1935). Ele destacou-se na poesia, com a criação de seus heterônimos, sendo considerado uma figura multifacetada. Trabalhou como crítico literário, crítico político, editor, jornalista, publicitário, empresário e astrólogo.

    Vale ressaltar que a obra pseudônima é do autor em sua pessoa, salvo no nome que assina; a heterônima é do autor fora da sua pessoa; é duma individualidade completa fabricada por ele, como seriam os dizeres de qualquer personagem de qualquer drama seu.

    Os heterônimos de Fernando Pessoa são criações que fascinam leitores no mundo inteiro. O autor português, nascido em 1888, tinha vários heterônimos, isto é, autores fictícios que assinam algumas de suas obras. Cada um deles tem características pessoais e literárias próprias.

    Os principais heterônimos de Fernando Pessoa são Ricardo Reis, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Bernardo Soares, e cada um deles possui características literárias próprias. Os heterônimos de Fernando Pessoa são os autores criados por esse importante escritor português, nascido em 1888.

    Compartilho algumas frases dos heterônimos de Fernando Pessoa com a prezada amiga:

    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

    Álvaro de Campos

    Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
    Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é.
    Mas porque a amo, e amo-a por isso,
    Porque quem ama nunca sabe o que ama
    Nem por que ama, nem o que é amar…

    Alberto Caeiro

    Para ser grande, sê inteiro: nada
    Teu exagera ou exclui.
    Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
    No mínimo que fazes.
    Assim em cada lago a lua toda
    Brilha, porque alta vive.

    Ricardo Reis

    Desejo um final de semana pleno de paz, saúde, harmonia e alegria sempre!

    Aristeu

  2. Obrigada, Aristeu, pelo gratificante comentário, e por compartilhar comigo algumas frases dos mais famosos heterônimos do grande poeta Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis!
    Gostei imensamente!

    Desejo a você também um excelente final de semana, pleno de paz, saúde, harmonia e alegria!

  3. Talvez por isso mesmo Pessoa escreveu: “O poeta é um fingidor Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente”

    • Obrigada pelo comentário gentil, prezado Flávio Feronato!
      Também gosto muito desse poema de Fernando Pessoa.

      AUTOPSICOGRAFIA

      O poeta é um fingidor
      Finge tão completamente
      Que chega a fingir que é dor
      A dor que deveras sente.

      E os que leem o que escreve,
      Na dor lida sentem bem,
      Não as duas que ele teve,
      Mas só a que eles não têm.

      E assim nas calhas de roda
      Gira, a entreter a razão,
      Esse comboio de corda
      Que se chama coração.

      (Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).

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