OS ENSINAMENTOS DA NATUREZA – Os Lobos de Yellowstone

Eclesiastes 3

“Tudo tem um tempo próprio”.
Para tudo há uma ocasião certa;
há um tempo certo para cada propósito
debaixo do céu:

Tempo de nascer e tempo de morrer,
tempo de plantar
e tempo de arrancar o que se plantou…”,

O homem – principalmente o urbano – sempre questiona sobre a utilidade ou existência de determinado animal ou planta na face da terra. Hora é o mosquito que pica e traz doenças ou, o tubarão que, impiedosamente, está sempre pronto a devorar e aterrorizar que se atreva a cruzar seu caminho. Porque eles existem? Porque não os exterminar, já que somos “superiores” e sabemos dos males que podem nos causar?

As coisas não são bem assim. Animais e plantas possuem capacidade de sobreviver e procriar livremente na natureza. Os animais que vivem em estado selvagem são elementos que formam “aquela vida”, naquele espaço, compondo a fauna local, a qual consiste no conjunto dos animais que vivem em uma determinada área.

Muitos moradores do centro urbano não conseguem entender o porquê de tanta preocupação que a fauna silvestre tem gerado nos últimos anos, devido ao alarmante ritmo de extinção desses animais, já que eles parecem tão distantes e sem importância, pelo menos aparentemente.

Eles equilibram o ecossistema, pois muitos animais são vitais à existência de muitas plantas, como agentes polinizadores ou como dispersores de sementes, além disso, todos os animais têm uma importância na cadeia alimentar e quando um animal é retirado dessa cadeia o equilíbrio do ecossistema fica comprometido.

O reino animal e o reino vegetal formam a biosfera que em harmonia permite a sobrevivência das espécies. Quebrar esta harmonia abruptamente pela interferência humana fará com que milhões de espécies entrem em processo de extinção, resultando a médio e longo prazo a própria extinção da espécie humana; de sorte que a manutenção da vida selvagem e da flora natural é primordial para a manutenção da vida global.

Ora, a história dos lobos de Yellowstone, pode dar essa resposta. História essa que nos mostra a sua peculiar importância na mudança e manutenção da flora, fauna, rios e os demais fenômenos físicos, biológicos e humanos que nela ocorrem, suas causas e correlações.

Fica patenteado o intrínseco equilíbrio que a natureza exerce em cada ser vivo – fauna e flora – e a importância das suas funções no meio ambiente. Qualquer dano, alteração indevida ou mal calculada, causam sérios desequilíbrios em seu ecossistema.

No caso específico, a instabilidade causada pela exterminação dos lobos de Yellowstone, nos EUA, é um exemplo a ser apreciado com muita atenção e carinho por todos nós.

Como num laboratório científico vivo, pesquisas e análises constataram num estudo de cerca de 50 anos, a essencial importância da vida selvagem naquele recanto do mundo. O que os estudos comprovaram o que se denominou de “Cascata Trófica”, que é um processo ecológico que se desenvolve desde o topo da cadeia alimentar até à sua base. Foi o que ocorreu nos EUA, mais precisamente no Parque Yellowstone.

Sem a presença dos lobos cinzentos, por 70 anos, o parque viu o número de cervos e veados multiplicarem, reduzindo drasticamente toda vegetação em volta do parque

Caçados impiedosamente e quase exterminados durante 50 anos, os lobos cinzentos foram reinseridos ao parque a partir de 1995. A partir de então, constataram, in loco, que os lobos não apenas matavam outras espécies de animais, eles trouxeram equilíbrio e diversificaram muitas outras espécies. Percebeu-se que a contribuição dos lobos era inversamente proporcional ao que cobravam por suas “refeições”.

Os cervos também mudaram seu comportamento, evitando vales e desfiladeiros aonde poderiam ser alcançados pelos lobos. Tal comportamento contribuiu para ressurgir e regenerar toda vegetação no entorno. Árvores quintuplicaram de tamanho em pouquíssimos anos, ressurgindo florestas de choupo, salgueiros e choupos-do-canadá, o que por sua vez passou a atrair pássaros de inúmeras espécies e em grande quantidade. Comemorou-se também o ressurgimento dos castores, que é outro “engenheiro do ecossistema” que se alimentam de árvores e regulam rios e fontes, propiciando atrativos para outras espécies, ao criarem represas nos rios que produzem o habitat ideal para lontras, ratos-almiscareiros, patos, peixes, répteis e anfíbios.

Com os lobos eliminando os concorrentes coiotes, cresceu a quantidade de coelhos e camundongos, o que atraiu mais falcões, mais doninhas, mais raposas, mais texugos. Os corvos e as águias-de-cabeça-branca começaram a descer para se alimentar dos restos que eles deixavam.

O mais incrível dessas observações foi a constatação de que, com a reinserção dos lobos no parque, houve significativa alteração no comportamento dos rios! Que diria, em? Com menos desvio a erosão foi insignificante, canais se estreitaram, cascatas e piscinas naturais surgiram, com notória contribuição para a vida selvagem local. Estes rios mudaram em resposta aos lobos. E a razão é: Por causa da regeneração das florestas, os rios puderam seguir o seu curso com mais fluidez e estabilidade.

Conclusão: Os lobos transformaram, não apenas o ecossistema do Parque Yellowstone, que é enorme (cobre 8987 km², o parque é famoso pelos seus vários geysers, fontes termais, É habitat de ursos grizzly, lobos, bisontes e uapitis.), mas, também, a sua geografia física e paisagem natural.

13 pensou em “OS ENSINAMENTOS DA NATUREZA – Os Lobos de Yellowstone

  1. Muito interessante este exemplo de como uma espécie do topo da cadeia alimentar demonstra sua importância para o equilíbrio da natureza. Valeria para o caso da espécie humana?

    • Exatamente, Tarcíso. No caso do ser humano, sendo ele supostamente o mais “inteligente”, deve agir em prol do equilíbrio do ecossistema. E é justamente ele que está causando o desequilíbrio.

  2. Nada na natureza existe “para enfeite”.

    Dos micros aos macros espécimes, absolutamente todos, têm uma função bem definida e fundamental.

    Como uma engrenagem perfeitíssima – que é, a falta ou a falha de um elemento (do menor ao maior) faz todo o conjunto se desequilibrar, sofrer e/ou funcionar de mal a pior, com resultados imprevisíveis e, até, extremamente prejudiciais – para dizer o mínimo.

    Infelizmente, a ecologia caiu nas mão dos ignorantes, mal intencionados e histéricos “ecochatos”, normalmente, movidos por interesses ideológicos e/ou argumentos não-científicos, que (em vez de ajudar!!!) só criam problemas – na prevenção e/ou solução dos mesmos.

  3. Perfeita observação, Sr. adail. A natureza cria e recria ao sabor do seu condicionamento e sabedoria. Alguns espertos estão tirando proveito do fator ecologia pra encher o bolso e a cabeça ôca de ecochatos usados como marionetes e arautos de um falso apocalipse. Esses ecochatos são frutos da “pátria enganadora” da geração Folha de São Paulo.

  4. .. Se um dia, a ganância humana, parar para avaliar o perigo que a busca por lucro desenfreado está expondo a vida no planeta, possivelmente, será tarde demais.

  5. Perfeito! Tudo existe uma causa de ser e existir. Seguindo a raiz filosófica do Tao, tudo é um ciclo harmônico em perfeito equilíbrio. O homem costuma interferir de maneira destrutiva, analogamente, repetindo o feito dos lobos com seus semelhantes. O ser demanda, em urgência, se reconectar com seu lado primitivo, se realocando em sua posição original: mutualista com as demais espécies vivas existentes neste plano.
    Ótimo texto. Grande reflexão!

    • Danou-se!!! Me lembrou a frase do grande estadista Cícero, quando assim filosofou: “Nascemos para união”. E o sentido era mais abrangente do se pensava.

  6. Esta é a maior e melhor aula de ecossistema já lido por mim até hoje! Este é o melhor caminho para se entender, de como a natureza é pródiga e que Deus, na Sua infinita bondade, criou tantos animais, que com essa cadeia tão rica e generosamente dividida, nos faz tão pequenos e egoístas a ponto de não perceber a grandeza dessa sagrada construção de Deus!
    Este texto tão bem feito e elaborado, só poderia ter saido de uma pessoa maravilhosa e muito sensível! Parabéns e obrigada por aprender mais, através do seu conhecimento!

    Zéfiro e Betinha Bezerra

  7. Obrigado pelo comentário e participação do nobre casal. Estamos sempre aprendendo um com o outro. Seguimos a máxima de Gonzaguinha que já havia poetizado em uma de suas letras de música: “A beleza de ser um eterno aprendiz”. A natura nos ensina sempre, nós é que teimamos em não querer aceitar, e o preço a ser pago é muito alto. Fiquem com Deus!

  8. Maravilhoso texto, bem explanado, qualificado, didático e acima de tudo
    de grande amor à natureza . Conforme se deduz acertadamente, tudo é relativo,
    ninguém ou nenhuma coisa sobrevive só, isolada, todos e tudo depende
    do eco sistema em geral, tendo como resultado a natureza que no meu
    entender é DEUS criador e regenerador de tudo em todos os sistemas
    animais, vegetais, minerais etc…
    Tudo é criado e se move , se transforma aos nossos olhos como mágica, desde as grandes galaxias aos pequenos micróbios, tudo útil e indispensável
    no computo geral.
    Parabéns professor por esta grande aula de ecologia.

    • Obrigado pela participação, d.matt. Na verdade, o grande professor é a própria natureza. Apenas trouxe um fato positivo e importante que deve ser difundido para refletirmos sobre o tema.

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