RODRIGO CONSTANTINO

Se você foi ateu aos 16 anos, isso é totalmente compreensível ou mesmo natural. Mas usar esse ateísmo infantil, típico do rebelde que precisa cometer “parricídio”, para se separar do Pai e criar a própria identidade, como linha de raciocínio sobre a religião depois de adulto, pode ser algo bem arriscado. E o risco é se tornar aquele típico adulto ressentido, que precisa “matar Deus” para se sentir importante. Normalmente o sujeito adere a religiões seculares e políticas um tanto esquisitas, ou seja, vira um crente de ideologias.

Pensei nisso ao ler, em plena Páscoa, um feriado da maior importância para cristãos e judeus, uma coluna publicada no The New York Times. O texto, assinado por Shalom Auslander, um judeu secular criado por ultraortodoxos no Brooklyn, desce a lenha na Bíblia e na história do povo hebreu, distorcendo o livro mais importante do Ocidente e levando em sentido literal aquilo que claramente é simbólico. Um adolescente de 14 anos poderia fazer um trabalho muito melhor de interpretação!

Usando no título o nome do feriado judaico, “Pass Over”, Auslander diz que, em tempos de guerra e violência, é hora de “ultrapassar” outra coisa: Deus. Ele, então, passa a descrever o rabino de sua sinagoga como um sádico que se deleitava com o sofrimento dos egípcios, “jovens e velhos, inocentes e culpados”. Este rabino, ele afirmou, até disse à sua classe que durante a primeira praga – que fez com que as águas do Egito se transformassem em sangue — “Mães amamentando seus bebês descobriram que seu leite materno havia se transformado em sangue”. E a classe vibrou!

Não conheço qualquer judeu que diga algo assim, muito menos uma comunidade na sinagoga que vibre com esse tipo de coisa. Como rebate Dennis Prager, um judeu com livros sobre o assunto, de acordo com o Talmud – a obra judaica mais sagrada depois da Bíblia hebraica, escrita quase 2 mil anos atrás -, com relação aos egípcios se afogando no mar depois que Deus o dividiu para permitir que os judeus o atravessassem, Deus advertiu seus anjos que cantaram uma canção de regozijo: “Minha obra está se afogando no mar e vocês estão cantando diante de mim?!”.

Em segundo lugar, também há quase 2 mil anos, o Midrash (uma coleção de histórias e comentários que interpretam as escrituras hebraicas) explicava por que os judeus devem recitar apenas metade do Hallel (salmos de ação de graças) durante os dias da Páscoa, após o Sêder: “Nós não podemos cantar um cântico completo de ação de graças pela salvação de nosso povo, que foi comprada tão caro com o naufrágio dos perseguidores no Mar Vermelho”.

Por fim, por pelo menos 100 anos, e alguns dizem muito mais, a razão que os judeus deram para o derramamento simbólico de vinho de suas taças enquanto recitam as dez pragas durante o Sêder é que devem simbolicamente diminuir sua alegria ao recontar o sofrimento dos egípcios. Nada disso importa para o autor da coluna, que sonha com o dia em que todas as crianças vão rejeitar Deus. É o caso clássico do filho que nunca superou a formação religiosa rígida de seus pais, e desconta no Pai, ou seja, é o puro ressentimento transformado em ideologia ateísta.

Isso tudo poderia ser insignificante e apenas mais um caso isolado de um ateu rancoroso, mas o que chama a atenção é o NYT publicar esse texto justamente no feriado da Páscoa. É inconcebível que o jornal publique uma coluna zombando de Alá, Maomé e do Alcorão durante o mês do Ramadã (ou, nesse caso, em qualquer época do ano). Os únicos artigos que encontramos no The New York Times sobre o mês sagrado muçulmano são sobre comida, como este: “15 receitas para observar o Ramadã”.

Por que não há nenhum artigo do NYT zombando de Alá ou do Islã? Afinal, há muitos muçulmanos descontentes como Auslander, o judeu irritado, que poderiam escrever um. A resposta é que o New York Times tem medo mortal de incorrer na ira dos muçulmanos, mas não tem medo de incorrer na ira de judeus ou cristãos. Por uma boa razão. Prager conclui: “A coluna de Auslander não diz nada sobre o judaísmo ou a Bíblia. Mas diz muito sobre o New York Times e a esquerda”.

E é impossível analisar esse tipo de coisa sem levar em conta a guerra cultural em curso. A mídia “progressista” não suporta o fato de que o legado da civilização ocidental é judaico-cristão, e que sem essas raízes religiosas não haveria o progresso do qual desfrutam aqueles que cospem em seus pilares. Eles gozam de uma liberdade só existente no terreno ocidental, mas odeiam as religiões que permitiram o florescimento dessa liberdade.

Esses “iluministas” seculares precisam “matar Deus”, mas em especial o Deus cristão, o Deus judaico. Sua religião política ainda poupa o Deus muçulmano por conveniência, pois assim podem incluir milhões de islâmicos no grupo das minorias, para seguir demonizando o “homem branco ocidental” como o maior algoz da humanidade. É o denominador comum que junta fanáticos muçulmanos e comunistas, unidos pelo ódio ao Ocidente e o que ele representa. O NYT, um jornal que já enalteceu o ditador assassino Fidel Castro, que publicou inúmeras “reportagens” falsas elogiando o império soviético na década de 1930, inclusive rendendo um Prêmio Pulitzer ao seu autor, Walter Duranty, seria incapaz de provocar o Islã em seu feriado mais importante – ou mesmo em qualquer outra época -, mas não enxerga qualquer problema em demonizar os judeus e compará-los a Putin!

Quem ainda não entendeu que estamos numa guerra cultural, ou melhor, espiritual, e que os inimigos do legado judaico-cristão são pessoas ressentidas que precisam adorar deuses substitutos, como as ideologias coletivistas e totalitárias, não entendeu muita coisa da era moderna.

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