JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Milton Almeida dos Santos nasceu em Brotas de Macaúbas, BA, em 3/5/1926. Escritor, professor, jornalista, advogado, cientista e um dos maiores geógrafos do mundo. Considerado um dos mais destacados intelectual brasileiro, lutou contra o modelo de globalização vigente, que chamava de “globalitarismo”, e propunha a construção de outra realidade possível, considerada mais justa e mais humana.

Filho e neto de professores primários, apendeu álgebra e francês em casa. Aos 10 anos foi aluno interno do Instituto Baiano de Ensino, onde tomou gosto pela geografia com o prof. Oswaldo Imbassay. Aos 13 anos lecionava matemática e aos 15 geografia. Aos 22 formou-se em Direito pela UFBA, mas nunca advogou. Foi dar aulas de geografia no Colégio Municipal de Ilhéus. Por essa época tomou gosto pela política e entrou no jornalismo como correspondente do jornal “A Tarde” e depois editor sem abandonar a geografia. Seu 3º livro – Zona do cacau; introdução ao estudo geográfico – tornou-se um clássico como volume 296, da Coleção Brasiliana, em 1957.

Influenciado pela escola francesa do pós-guerra, seu interesse era centrado na geomorfologia e climatologia. Aos poucos foi se interessando pela demografia e por um entendimento global do meio físico-natural, incluindo a dimensão econômica nas relações cidade-campo, apartir da influência recebida do geógrafo Pierre George. Pouco depois do casamento com Jandira Rocha, mudou-se para Salvador tornando-se professor na Universidade Católica de Salvador, em 1956. No mesmo ano participou do Congresso Internacional de Geografia, no Rio de Janeiro, e travou contato com grandes geógrafos que já conhecia por suas obras. Na ocasião foi convencido por Jean Tricart a fazer um curso de doutorado no Instituto de Geografia da Universidade de Strasbourg, um dos mais renomados da Europa. Concluiu o curso em 1958, com a tese O centro da cidade de Salvador, e retorna ao Brasil.

De volta a Salvador, criou o Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais da UFBA, sempre em contatos com os mestres franceses. Pouco depois tornou-se Livre Docente em Geografia Humana pela UFBA, participando ativamente da vida acadêmica, jornalística e política. Em 1961 o presidente Jânio Quadros convidou-a a participar da comitiva numa visita à Cuba e foi nomeado subchefe da Casa Civil na Bahia no curto mandato presidencial. Em 1963 foi eleito presidente da AGB-Associação dos Geógrafos Brasileiros e no mesmo ano o governador Lomanto Júnior convidou-o para presidir a CPE-Comissão de Planejamento Econômico da Bahia. Enquanto isso, prestou concurso para lecionar na UFBA, mas teve os planos interrompidos pelo golpe militar, em abril de 1964.

Foi preso pelo Exército, por 90 dias, e sofreu um AVC-Acidente Vascular Cerebral em meados de junho. Recuperou a saúde e foi solto após a intervenção do cônsul da França, em Salvador, Raymond Van der Haegen, junto aos militares. Havia recebido vários convites de universidades francesas e após 6 meses de prisão domicilar, partiu para a França já separado do primeiro casamento. Lecionou geografia na Universidade de Toulouse, achando que poderia voltar em breve com o fim da ditadura. Viveu 3 anos em Toulouse e mudou-se para Bordeaux, onde conheceu sua segunda esposa, Marie Hélene Tiercelin, entre suas alunas. Em maio de 1968, em plena efervescência politica, lecionava na Universidade Sorbonne e trabalhava como diretor de pesquisa em planejamento urbano no IEDES-Institut d’Étude du Développement Économique et Social.

Em 1971 foi convidado para lecionar na Universidade de Toronto, no Canadá. Em seguida foi pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos EUA, onde trabalhou com Noam Chomsky. Foi aí que iniciou sua grande obra – O espaço dividido -, publicada em 1979. Em seguida fez um périplo por alguns paises latino-americanos, universidades europeias e africanas. Na veneuela, foi diretor de pesquisas sobre planejamento urbano num projeto da ONU e manteve contatos com técnicos da OEA-Organização dos Estados Americanos. Tais contatos lhe proporcionou um convite para lecionar na Faculdade de Engenharia de Lima, Peru, ao mesmo tempo em que foi contratado pela OIT-Organização Internacional do Trabalho para elaborar um estudo sobre a pobreza urbana na América Latina.

Por esta época foram intensificados os estudos sobre os processos de urbanização das cidades do “terceiro mundo”, que renderam novas viagens: volta à Venezuela para lecionar na Faculdade de Economia da Universidade Central; organizou o curso de pós-graduação em geografia na Universidade de Dar es Salaam, na Tanzânia, onde viveu por 2 anos, e recebeu convite para retornar ao Brasil, para lecionar na Universidade de Campinas. Mas as condições políticas do Brasil na época não lhe eram favoráveis. A Columbia University, em Nova Iorque soube aproveitar melhor seu talento. Em fins de 1976 houve novos contatos para trabalhar no Brasil. Tentou a UFBA, mas ocorreram novos impedimentos. Recebeu convite para lecionar na Nigéria, mas a vontade de retornar ao Brasil era maior. Algumas colegas geógrafas brasileiras se empenharam em trazê-lo e conseguiram um posto como consultor de planejamento urbano na EMPLASA-Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano.

Com seu retorno deu-se uma grande mudança estrutural no ensino e na pesquisa em Geografia no Brasil. Em 1977 passou a lecionar na UFRJ e no ano seguinte foi contratado como professor titular do Departamento de Geografia da USP, onde permaneceu até sua aposentadoria, em 1997, e continuou como professor convidado. Seu livro Por uma nova geografia, publicado em 1978, abriu caminhos para o entendimento de novas configurações urbanas e causou impacto na área. Suas atividades no ensino e execução de projetos lhe garantiu a conquista do Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, em 1994, uma espécie de Nobel da Geografia. Foi o único latino-americano a receber a comenda.

Em meados de 1990, soube que portava um câncer de próstata, mas continuou na USP até 2000 e lançou mais 2 livros. No ano seguinte, a doença agravou-se e veio a falecer em 24/6/2001. Uma de suas expressivas contibuições ao estudo da geografia urbana foi derrubar as velhas noções de centro e periferia. Antes mesmo que o conceito de “Globalização” se generalizasse, ele já advertia para “a possibilidade do fim da cultura como produção orginal do conhecimento”. Não se trata de ser contra a globalização e sim contra o modelo vigente no mundo, que ele chamava de “globalitarismo”. Tais ideias foram apresentadas em seu último livro Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal (2000). No penúltimo livro A natureza do espaço (1996) pretendeu estabelecer “uma teoria geral do espaço humano, uma contribuição da geografia e reconstrução da teoria social”.

Além das diversas homenagens e premiações, recebeu títulos de Doutor Honoris Causa de 14 universidades no Brasil e exterior e deixou mais de 40 livros publicados, muitos deles em diversas edições. Devido a sua contribuição no ensino superior e afim de reverenciar sua memória, a ABMES-Associação Brasileira de Mantenedores de Ensino Superior instituiu, em 2004, o Prêmio Milton Santos de Educação Superior, outorgado a cada dois anos aos nomes indicados pelas instituições associadas. Uma biografia homenageando-o foi publicada na revista eletrônica “Scripta Nova”, da Universidade de Barcelona, em 2002 e pode ser consultada no link El ciudadano, la globalización y la geografía. Homenaje a Milton Santos (ub.edu)

6 pensou em “OS BRASILEIROS: Milton Santos

  1. Sobre a frase “…propunha a construção de outra realidade possível, considerada mais justa e mais humana.”

    Parece-me recorrente entre as figuras de esquerda este hábito de classificar tudo que não é de seu agrado como “desumano”, mesmo quando falam de coisas que foram obviamente construídas pela humanidade. Já as suas próprias idéias sempre são “mais humanas”, como se eles fossem mais humanos do que o restante da humanidade.

    Sobre o “mais justa”, a pergunta é óbvia: mais justa para quem e na opinião de quem?

  2. Primeiro que ter sua história contada por Anselmo Góes, um comunista treinado na antiga URSS para se infiltrar na imprensa Brasileira, não edifica muito a Biografia do Sr. Milton Santos.

    Depois, esta declaração:

    “O Brasil jamais teve cidadãos. Nós da classe média não queremos direitos, queremos privilégios, o pobre…”

    Ora, dizer que a Classe média quer privilégios é típico de um comunista da estirpe Marilena Chauí, aquela que “odeia” a Classe média e a considera a abominação da sociedade.

    Então, para mim pouco interessa se o Sr. Milton Santos foi o maior intelectual brasileiro (considerado por quem?) e sua biografia.

    Caro J. Domingos, independente de situação social, cor ou qualquer outra coisa, eu jamais colocaria Milton na lista dos Brasileiros ilustres, assim como não coloco Paulo Freire ou Anselmo Góes, pois estes buscavam a divisão do Brasil entre pobres e ricos, sendo para eles, estes últimos exploradores dos primeiros. São Comunistas, assim como Stalin, Mao, Fidel e outros Verdadeiros genocidas.

      • Caro Comentarista Anônimo, se v. não está acostumado, saiba que este espaço democrático de comentários e de debates que só o JBF na internet promove.

        Debato com o ilustre colunista, nosso caro J. Domingos Brito já há muitas semanas, talvez anos. Sempre admirei seu esforço para trazer personagens que ele destaca com muita competência na nossa história.

        Aprendo muito vindo aqui, ler e comentar. Sempre o respeitei, ora concordando com o destaque, ora trazendo minhas discordância, como o caso atual.

        Respeito o direito que v. tem de vir aqui e fazer impropérios À minha pessoa. Este é o lado bonito da Democracia e o que me faz um conservador. É respeitar todas as pessoas, mesmo aquelas que não respeitam a gente.

        Tenha um bom final de Domingo

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