JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

José Vicente de Azevedo nasceu em Lorena, SP, em 7/7/1859. Advogado, professor, político, conde romano e um dos grandes filantropos paulista. Tem o mesmo nome do avô comendador (1798-1864) e do pai coronel (1834-1869), prósperos cafeicultores do Vale do Paraíba, ambos assassinados por motivos políticos. Deu continuidade a saga familiar, porém de modo diferenciado: doou a fazenda da família à Igreja para a fundação de uma escola agrícola para órfãos e menores filhos de ex-escravos como forma de “reparação” pela exploração do trabalho escravo.

Em 1868, aos 9 anos, ficou órfão de pai e 10 anos depois mudou-se para São Paulo para estudar na Faculdade de Direito, formando-se em 1882. Casou-se no ano seguinte com Candida Bueno Lopes de Oliveira e, tal como o avô e pai, segue carreira política e foi eleito Deputado Provincial, em 1884, onde se manteve até 1889. Com a proclamação da República, manteve-se afastado da política, retornou em 1898 e foi eleito 6 vezes para a Câmara do Congresso Legislativo do Estado de São Paulo até 1918. Foi também senador estadual no período 1925-1927. Como deputado obteve aprovação dos projetos autorizando as construções do Viaduto do Chá e da nova Sé, a Catedral de São Paulo.

Católico atuante, compôs o famoso “Hino à Gloriosa Padroeira do Brasil”, que ficou conhecido como o “Viva a Mãe de Deus e nossa”, oficializado em 11/5/1951, pelo Cardeal Motta, arcebispo de São Paulo. Mas não foi aí que sua atuação ficou marcada na Igreja. Em 1889 foi eleito Provedor da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Catedral de São Paulo e adquiriu extenso lote de terras devolutas, chácaras e lotes particulares na região do Ipiranga. Tinha a intenção de transformar o local numa “cidade do Vaticano”, que seria uma “colina de caridade cristã”. No ano seguinte doou um terreno para a construção do Liceu São José, transformado depois no Orfanato masculino Cristovão Colombo.

Junto a carreira de político, foi professor de Geografia no Ginásio do Estado durante toda a vida, sem abdicar de sua atuação caritativa na Igreja. Em 1903 empreendeu a vinda da Irmã Paulina (canonizada em 2002) e outras irmãs para integrarem o Asilo Sagrada Família. Conforme relatado por sua filha, ele tinha em mente ajudar as crianças negras, exploradas depois da Lei do Ventre Livre (1871) e os velhos, inválidos para o trabalho, descartados pela Lei dos Sexagenários (1885). Segundo Darcy Ribeiro, estas duas leis foram promulgadas para dispensar os donos de escravos de manter as crianças a partir daquela data, bem como os velhos inválidos para o trabalho.

Além da fazenda doada para a construção da escola agrícola, fez outra obra para os negros, em Lorena: doou terreno e tijolos para a construção do Asilo e Casa dos Pobres de São José, conhecido hoje como Lar São José.

Em São Paulo, particularmente no bairro do Ipiranga, consta as seguintes doações: terreno e edifício para a instalação do “Instituto de Cegos Padre Chico” (1928); terrenos para a construção do “Colégio Católico Japonês São Francisco Xavier” (1929); “Seminário Central do Ipiranga” (1934); Hospital Dom Antônio de Alvarenga, a Clínica Infantil do Ipiranga (1938), hoje Associação Beneficente Nossa Senhora de Nazaré-ABENSENA e doação de bens para a constituição da atual Fundação Nossa Senhora Auxiliadora do Ipiranga-FUNSAI

Seu empenho na realização de obras e instituições de caridade era tamanho que causou ciúmes no clero. Em 1911, o bispo Dom Duarte determinou que a Irmandade do Santíssimo Sacramento, da qual era provedor desde 1890, se limitasse a cuidar das cerimonias do culto. Obviamente, a medida retirava da irmandade a administração e uso de recursos das obras do Ipiranga e de outras iniciativas suas. A cúpula da Igreja percebeu que seu trabalho se afastava da igreja católica romanizada (trabalho com as elites, pela organização clerical de pequeno envolvimento com camponeses e operários) e ia de encontro às necessidades dos ex-escravos e seus descendentes. Mesmo assim, ele foi condecorado pelo Papa Pio XI com o título de Conde Romano, em 1935.

Tinha uma clara visão empresarial e viu na rápida urbanização do bairro Ipiranga boas oportunidades de lucro imobiliário. Assim, ganhou dinheiro com a venda de uma parte dos lotes, enquanto outra parte era doada para a criação de instituições de caridade. Com seus próprios recursos comprou 2 locomotivas, em 1890, e instalou-as numa linha de bondes de 14 km. ligando o bairro ao Parque Dom Pedro II, no centro da cidade. Sua família é ciente de sua importância na história da cidade de São Paulo e nos primórdios do bairro do Ipiranga. A filha Maria Angelina V.A. Franceschini escreveu sua biografia – Conde José Vicente de Azevedo: sua vida e sua obra -, publicada em 1996. Seu legado pode, também, ser visto na página Museu Vicente de Azevedo, aberto ao público e instalado num belo casarão do século XIX, projetado pelo arquiteto Ramos de Azevedo, no bairro do Ipiranga.

7 pensou em “OS BRASILEIROS: José Vicente de Azevedo

    • Estás coberto de razão, Mestre Plínio

      O governo, a imprensa, os meios de comunicação de um modo geral, estão sem memória, mesmo contando com a riqueza de exemplos acumulados ao longo da história.

  1. Gostei da qualificação do avô dele: comendador. Quando eu era criança, em Monte Mor, havia uma pessoa que morava em São Paulo e, de vez em quando, vinha visitar os pais, que a ele se referiam como O Comendador. Quando lhe perguntei, meu avô me explicou o que era Comendador: “Besteira, um título que o sujeito compra da Igreja”.

Deixe uma resposta para CÍCERO TAVARES Cancelar resposta