JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Antônio Francisco Lisboa nasceu em Ouro Preto, MG, em 1738. Carpinteiro, arquiteto, entalhador e o mais destacado escultor do período colonial. Suas obras e esculturas em pedra-sabão, entalhes em madeira, altares, retábulos, igrejas e peças de arte sacra encontram-se em diversas cidades históricas de Minas Gerais. Filho da escrava Isabel e do português e mestre de carpintaria Manuel Francisco Lisboa. Com o pai e o pintor João Gomes Batista aprendeu as noções básicas de arquitetura, desenho e escultura.

Seus primeiros estudos, além de latim, religião e música, se deram com os padres de Vila Rica. Em meados do séc. XVIII, graças ao garimpo de ouro, a cidade foi palco de um movimento artístico, onde ele pode desenvolver as atividades de arquiteto e escultor. Porém, na condição de mestiço, seu talento não era reconhecido, nem seus trabalhos recebiam sua assinatura. Só mais tarde, quando a fama chegou a outras cidades e sua obra se encontrava em pleno esplendor, é que seu nome foi reconhecido não só como artista, mas também como animado festeiro e dançarino. Seu primeiro trabalho se deu em 1752 com um chafariz no Palácio dos Governadores de Ouro Preto. Em 1756 viajou para o Rio de Janeiro, onde conheceu grandes obras arquitetônicas, que vieram a influenciar suas obras. 2 anos após, esculpiu mais um chafariz no Hospício da Terra Santa, considerada a primeira obra no estilo “barroco tardio”.

Em seguida fez diversos trabalhos em igrejas, tais como a matriz de São João Batista (hoje, Barão de Cocais) e a fachada da Igreja do Carmo, em Ouro Preto. Sua primeira obra de vulto se deu em 1766 com a ornamentação da igreja da Ordem Terceira de São Francisco, em Ouro Preto. Em princípios de 1770 organizou sua oficina, que foi regulada e reconhecida pela Câmara de Ouro Preto em 1772, e passou a comandar uma equipe de artesãos e dar pareceres sobre obras arquitetônicas de igrejas. Em 1977 foi diagnosticado com a doença hanseníase, deformando seus pés e mãos. No entanto, não deixou de trabalhar. A partir daí as peças foram talhadas com a ajuda dos auxiliares e quando seu talento era exigido, amarrou correias de couro nas mãos para segurar o cinzel, o martelo e a régua. O apelido “Aleijadinho” passou a vigorar a partir de 1790. Uma de suas obras mais expressivas -66 esculturas de madeira encenando a “Via sacra” em Congonhas do Campo- foi concluída em 1799. No ano seguinte e no mesmo local iniciou as esculturas dos “Doze Profetas” em pedra-sabão no adro do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, cuja planta imita o santuário de Bom Jesus de Braga, em Portugal.

Em Ouro Preto a Igreja de São Francisco de Assis, considerada uma obra prima do barroco brasileiro, foi iniciada em 1776 e concluída em 1794. Além da planta da igreja, elaborou a talha; a escultura do frontispício; dois púlpitos com figuras de santos; pia batismal; altar principal com as imagens da Santíssima Trindade e dois anjos. A fachada conta um vistoso medalhão com a imagem do santo. Seu estilo é marcado pela presença do dourado e repleto de detalhes, como arabescos e “rocalhas” imitando rochedos, grutas e produtos brutos da natureza, construídas com pedras, conchas etc. Os anjos e querubins têm formas arredondadas; as torres apresentam um recuo em relação à fachada das igrejas, constituindo-se num ícone do barroco brasileiro.

Sua vida é cercada de lendas e controvérsias, pois todos os dados disponíveis foram extraídos de uma biografia escrita em 1858 por Rodrigo José Ferreira Bretas, 44 anos após sua morte 18/11/1814. Os críticos tendem a considerá-la um pouco fantasiosa; acham que sua personalidade e obra foi manipulada e romantizada com o intuito de elevá-lo à condição de ícone da brasilidade. No entanto, é o único registro existente, sobre o qual foram feitas as biografias posteriores. Após sua morte, passou por um período de relativo obscurecimento, não obstante ter sido comentado por alguns viajantes e eruditos na primeira metade do séc. XIX, como Auguste de Saint-Hilaire e Richard Burton. A fama do artista voltou com força em princípios do séc. XX através das pesquisas de Affonso Celso e Mário de Andrade.

Os modernistas, engajados num processo de criação de um novo conceito de brasilidade, encararam-no como um paradigma nacional: um mulato, símbolo do sincretismo cultural e étnico brasileiro. Mário de Andrade, no texto Aleijadinho (1928), entusiasmado com sua história e obra, chegou a criticar os europeus que comentavam suas obras sem considerá-lo um gênio. A partir dessa época muita bibliografia foi produzida nesse sentido, criando uma aura assumida pelas instâncias oficiais da cultura nacional. Tais estudos foram ampliados posteriormente por pesquisadores, como Roger Bastide, Gilberto Freyre, Rodrigo Melo Franco de Andrade entre outros. O artista na opinião de alguns críticos: German Bazin louvou-o como o “Michelangelo brasileiro”; Lezama Lima acha que ele é “a culminação do Barroco americano”; Carlos Fuentes considera-o o “maior ‘poeta’ da América colonial”; Regis St. Louis destaca-o na história da arte internacional; John Crow coloca-o ao lado dos criadores mais dotados deste hemisfério em todos os tempos.

A quantidade de obras que lhe foram atribuídas tem variado ao longo do tempo, devido mesmo ao valor que adquiriram no mercado. Um catálogo geral publicado por Marcio Jardim em 2006, conta com 425 peças. Um nº muito superior as 163 obras contadas em 1951 numa primeira catalogação. Um estudo realizado por Myriam de Oliveira, Antonio Batista dos Santos e Olinto Rodrigues e publicado pelo IPHAN-Instituto do Patrimônio Artístico Nacional, em 2003, contestou centenas dessas atribuições. Guiomar de Grammont não acredita nestes números e alegou ter “razão para desconfiar que existe um conluio entre colecionadores e críticos para valorizar obras anônimas”. Independente dessa controvérsia, seu prestígio junto à crítica especializada acompanha seu prestigio entre os leigos. Em 2007 o Centro Cultural Banco do Brasil realizou a exposição “Aleijadinho e seu tempo: fé engenho e arte”, atraindo um público recorde de 968.577 visitantes.

Sua história já foi retratada no cinema e na TV. Em 1915 Guelfo Andaló dirigiu a primeira cinebiografia; em 1968 foi interpretado por Geraldo Del Rey no filme Cristo de Lama; por Maurício Gonçalves no filme Aleijadinho: paixão, glória e suplício (2003) e Stênio Garcia num Caso Especial da TV Globo. Em 1978 foi tema de um documentário – O Aleijadinho – dirigido por Joaquim Pedro de Andrade e narrado por Ferreira Gullar. Em 1968 foi inaugurado o “Museu Aleijadinho”, em Ouro Preto, onde é realizada regularmente a “Semana do Aleijadinho”, evento reunindo artistas e historiadores com palestras e exposições. Dentre suas várias biografias, destacam-se: O Aleijadinho e a escultura barroca no Brasil (Record, 1963), de Germain Bazin; Vida e obra de Antônio Francisco Lisboa: o Aleijadinho (Cia. Ed. Nacional, 1979), de Sylvio Vasconcellos; O Aleijadinho: sua vida, sua obra, seu gênio (Difel, 1984), de Fernando Jorge; Aleijadinho e o aeroplano: o paraíso barroco e a construção do herói (Civilização Brasileira, 2008), de Guiomar de Grammont.

9 pensou em “OS BRASILEIROS: Aleijadinho

  1. Mais um belo texto do Mestre José Domingos. Maravilha. Parabéns para ele. E para todos nós.

    P.S. Tenho um São José dele, aqui em casa. Bonito de chorar.

  2. Mais uma vez, este Jornal nos ensina como aprender e saber valorizar a
    cultura deste país.
    O nosso biógrafo maior, o genial Brito, sempre nos surpreende com a
    sua inteligência e saber educativo, o que torna , nós seus leitores,
    como alunos privilegiados de uma faculdade com ensinamentos acima da média.
    Falar do Aleijadinho é sinônimo de inteligência e bom gosto. Sua obra é magna e todo aquele que tem alguma sensibilidade é flechado pela sua grande abilidade e
    bom gosto na arte Barroca brasileira.
    Ele foi um mestre na sua arte. Confesso que fiquei emocionado, quando em
    visita à Cidade de Congonha do Campo, visitei a igreja que possui no seu adro
    as magníficas estátuas de pedra sabão dos 12 profetas . Só lamentei que as mesmas estão expostas
    às intempéries, chuva, sol, poeira e vandalismo burro dos visitantes.,
    de pessoas ignorantes que rabiscam e profanam aquelas obras importantes,
    Mas, o minha maior surpresa foi apreciar as 66 esculturas de madeira, contidas na VIA SACRA, NAQUELE LOCAL.é DE TIRAR O FÔLEGO. a PURA ARTE
    SACRA BARROCA NO SEU AUGE.
    Acho que não devemos ficar comparando a nossa arte Barroca com a
    arte europeia da renascença, pois tudo é diferente. São escolas díspares,
    cada qual com a sua arte e sensibilidade época e local, i.é. européia evolutiva e a
    americana quase primitiva, nos seus primórdios de aculturamento e evolução.
    O nosso biógrafo Brito, mais uma vez nos dá uma aula de cultura e
    bom gosto.
    Parabéns Mestre.

  3. Mestre Brito,

    Segundo a Wikipédia, pouco se sabe com certeza sobre sua biografia desse gênio barroco, que permanece até hoje envolta em cerrado véu de lenda e controvérsia, tornando muito árduo o trabalho de pesquisa sobre ele e ao mesmo tempo transformando-o em uma espécie de herói nacional.

    Segundo a mesma fonte de informação, a principal fonte documental sobre o Aleijadinho é uma nota biográfica escrita somente cerca de quarenta anos depois de sua morte. Sua trajetória é reconstituída principalmente através das obras que deixou, embora mesmo neste âmbito sua contribuição seja controversa, já que a atribuição da autoria da maior parte das mais de quatrocentas criações que hoje existem associadas ao seu nome foi feita sem qualquer comprovação documental, baseando-se apenas em critérios de semelhança estilística com peças documentadas.

    Por último a mesma fonte, toda sua obra, entre talha, projetos arquitetônicos, relevos e estatuária, foi realizada em Minas Gerais, especialmente nas cidades de Ouro Preto, Sabará, São João del-Rei e Congonhas. Os principais monumentos que contém suas obras são a Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto e o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos.

    Com um estilo relacionado ao Barroco e ao Rococó, é considerado pela crítica brasileira quase em consenso como o maior expoente da arte colonial no Brasil e, ultrapassando as fronteiras brasileiras, para alguns estudiosos estrangeiros é o maior nome do Barroco americano, merecendo um lugar destacado na história da arte do ocidente.

    Hoje essas informações procedem parcialmente. O certo é que Alaijadinho foi um gênio que até hoje perdura sua obra, catalogadas com informações precisam provam isso o que torna o mestre das Gerais um caso raro de extremo visionarismo.

    Parabéns mais uma vez por esse texto preciso.

  4. Mestre Brito,

    Você é que merece todos os encômios por estar nos contemplando com essas minibiografias de artistas que contribuíram com o enriquecimento da cultura popular e que viviam no ostracismo. Seus resgates merecem um abraço.

    Forte abraço ao amigo.

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