JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

Havia um bom tempo que me intrigava um ornamento concebido no formato de gota ou de círculos concêntricos, associados numa sequência de tonalidades da cor azul-cobalto obedecendo o seguinte ordenamento, partindo de dentro para fora: azul escuro, azul claro, branco e, novamente, azul escuro.

De uma hora para outra descobri a tal imagem onipresente em chaveiros, escritórios, cadernos, geladeiras, adesivos e, principalmente, em adereços femininos tais como colares, braceletes, pulseiras e até em correntes para tornozelos. Nunca me preocupou saber o significado de tal desenho.

Saindo de uma sessão cinematográfica de um shopping de Natal encontro, no corredor de acesso ao estacionamento, um brinco com a enigmática imagem. Recolho o objeto – certamente desprendido de uma orelha onde integrava um par – e o jogo num dos compartimentos internos da porta do carro.

Ali o pus e dele esqueci. Ao notar uma grande amiga portando pulseira contendo gotas assemelhadas ao do meu achado, sem conter a curiosidade, perguntei: Fulana, o que significa esse símbolo? – falei apontando para a peça no seu pulso.

Imagem de “olho turco”

Ela não fez por menos, tascou-me uma baita descompostura: Como é que pode, um cara metido a escritor não saber que isto é um “olho turco”. E muito menos de sua serventia contra o “mau-olhado!”. Imune aos ataques da querida maluca-beleza, nada respondi. Já estava de posse do nome do objeto, até então, meu desconhecido.

Pois bem, o “olho turco” também chamado de “olho grego” é um amuleto usado contra o “mau-olhado”. Quando se trata de afastar as forças místicas malignas do mundo, talvez não exista talismã mais famoso do que o tal “olho turco”.

A difusão da imagem do patuá, na última década, dá a impressão de popularidade passageira. Entrementes, a verdade é que há milhares de anos o amuleto se mantém vivo na imaginação humana como o encanto mais eficiente para afastar o “mau-olhado”, transferido mediante olhar malicioso em geral decorrente da inveja.

Tratando aqui do poder do “mau-olhado”, lembrei de minha avó paterna, Severina, uma cristã de fé inabalável temente ao “mau-olhado”. Certa vez, uma visita inesperada entrou na sua casa e, ao sair, um jarro com flores murchou. Dona Severina não contou conversa, chamou uma “rezadeira”, sua conhecida, que de posse de um ramo de arruda benzeu toda a casa.

Ao passo que a “rezadeira” se adiantava na benzedura o ramo ia murchando. Ao terminar o processo, a planta estava totalmente desidratada, prova de que a casa ficara livre do olhar invejoso… E seus moradores livres da provável maldição.

O mesmo efeito se espera do “olho turco”. Contudo, o que fascina nele não é sua longevidade e o fato de que seu uso se manteve com o mesmo propósito ao longo de milênios. Embora o símbolo tenha a capacidade de transcender limites, pode valer a pena considerar o seu significado além de uma questão de moda.

O “olho turco” é remanescente do início da civilização e abarca algumas das crenças mais duradouras e profundas da humanidade. Eu não me considero um indivíduo supersticioso, porém, no poder maléfico da inveja eu acredito.

Está decidido! Pelo sim pelo não, manterei ao alcance do olhar o amuleto encontrado num corredor de shopping que ali estava à minha espreita.

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