A PALAVRA DO EDITOR

Tomei ciência da decisão acertadíssima do Conselho de Cultura de Natal, concordando com a demolição do antigo Hotel dos Reis Magos. Abaixo reproduzo um meu artigo abordando o problema em tela, em fevereiro de 2014.

“Perguntar não ofende. Respondam-me, por favor, o que existe de tão importante na carcaça do finado Hotel dos Reis Magos que o impede de ser demolido? Sinceramente, eu não vejo nenhum valor histórico relevante naquela edificação para preservá-la com tombamento. Tudo bem! O velho hotel representa um retalho de passado não tão distante da vida de Natal e marca os primórdios do turismo no Estado. Mas, vamos e venhamos, daí até o tombamento se contabiliza uma carga de preciosismo deveras exagerada.

Finado Hotel dos Reis Magos na Praia dos Artistas em Natal

Concordo, que durante as três décadas de funcionamento do Reis Magos numa construção que hoje beira os sessenta anos, muitas recordações ficaram acumuladas e ainda estão acesas na memória de saudosistas. Afinal, desde a diversidade de personalidades ali hospedadas, passando pelos encontros dominicais à beira da enorme piscina até às celebradas noitadas na boate Royal Salute, o Hotel dos Reis Magos funcionou como um cartão postal de Natal e registro vivo de uma época.

Efetiva-se o tombamento de um bem cultural levando em consideração suas características (no caso, a riqueza arquitetônica), sua história e o valor afetivo que apresenta. Isso após a comprovação de especialistas no ramo e o endosso da sociedade. Jamais mediante ato autoritário. E tem mais: desde que o tombamento não venha “congelar” ou “engessar” a cidade impedindo sua modernização ou progresso, injustificadamente.

Uso sempre como exemplo marcante o critério urbanístico utilizado no Wembley Stadium, em Londres, na Inglaterra. O lendário estádio foi inaugurado em 1932 e demolido 80 anos depois, em 2003, para dar lugar ao moderno Estádio de Wembley. Até aí tudo bem!

Agora, demolir os 150 mil assentos da primeira grande arena esportiva do mundo e templo sagrado do futebol – o mais popular esporte do planeta -, fica difícil acreditar que tenham consumado tal proeza. Ainda por cima, para edificar um estádio capaz de acomodar apenas 90 mil pessoas ou 60% da capacidade original.

Sabemos que o velho Reis Magos é o retrato decadente de um antes festejado hotel, hoje desprovido de quaisquer características que o insira na atualidade. Deduzo ser antieconômico tentar uma restauração para adequá-lo à modernidade arquitetônica em vigência, fator essencial para mantê-lo como hotel.

Se desprezadas as adaptações físicas requeridas pela legislação do setor ele não funcionará; tampouco, competirá com a rede hoteleira instalada em Natal. Daí o entendimento de que a demolição seria a solução ideal para o impasse do momento. O Hotel dos Reis Magos está desativado desde 1995. Abandonado por quase três décadas tornou-se uma nódoa incômoda num dos principais pontos turísticos da capital. Além do mais, Natal dispõe hoje de algo perto de 27 mil leitos.
Sem desmerecer a importância daquela estrutura hoteleira na história da cidade, que se guarde em arquivos escritos e fotográficos e nas gavetas da memória de cada um de nós as boas lembranças do Reis Magos. Porém, tenhamos o bom senso de permitir que ali se construam aparelhos comunitários que embelezem a cidade e tragam progresso e modernidade para o bem de nossa terra”.

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