MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Durante os muitos milênios da existência do Homo sapiens, a vida foi dura: primeiro, fugindo das feras e caçando o que desse. A descoberta da agricultura trouxe mais segurança, mas sem moleza: era trabalhar de sol a sol para conseguir colher alguma coisa. Os animais domesticados ajudavam, mas também davam trabalho.

Como somos um “animal social”, nas palavras de Aristóteles, desde os tempos da pré-história vivemos agrupados, com os mais diversos nomes: bandos, tribos, povoados, feudos, cidades, países, nações. Em todos eles, sempre houve os que mandavam e os que obedeciam. Durante quase toda a história, os que mandavam conseguiam sua posição por herança de família ou pela guerra. Entre os que obedeciam, quase todos se conformavam em viver assim por toda a vida.

Uma das grandes preocupações dos que pertenciam ao grupo dos que mandavam era aumentar a quantidade de gente sob suas ordens, porque o trabalho a ser feito era muito, sempre. Era necessário então manter os súditos contentes, na medida do possível, e fazer com que estes se preocupassem apenas com duas coisas: produzir e se reproduzir. Fosse um povoado ou um reino, quanto mais gente para trabalhar, melhor: agricultores, pastores, pedreiros, ferreiros, carpinteiros (e soldados, naturalmente). Com toda esta gente trabalhando, os líderes podiam se dar ao luxo de não trabalhar e viver às custas de uma parte do trabalho dos outros. Como não é possível tirar muito de quem não tem quase nada, mesmo o grupo dos que mandavam não vivia na opulência.

Durante o século 19, muita coisa mudou. Surgiram máquinas que fabricavam sozinhas coisas que antes exigiam muito esforço, graças à descoberta de novas fontes de energia, denominadas combustíveis fósseis (o primeiro foi o carvão, depois veio o petróleo). Em pouco tempo, coisas que antes eram privilégio dos poucos ricos passaram a estar ao alcance de todos.

Outra coisa que mudou foi a divisão entre os mandantes e os mandados. Começou a se espalhar a idéia de que as pessoas deveriam escolher coletivamente os seus líderes, e até trocá-los periodicamente, em um sistema que foi chamado Democracia. A sociedade continuou a ser dividida entre os que mandam e os que obedecem, mas ficou mais fácil passar de um grupo a outro. E a maior riqueza permitiu que o grupo que manda (também conhecido por governo) ficasse maior.

Na chegada ao século 20, o mundo já era outro. Pela primeira vez na história, muitas sociedades passaram a conhecer o conceito de fartura: os bens disponíveis, de comida e roupa até casas e automóveis, eram tão abundantes e tão baratos que era possível escolher, e ninguém tinha mais medo de ficar sem. Ainda era necessário trabalhar para poder pagar pelas coisas, mas ao contrário do camponês de séculos antes, que trabalhava sete dias por semana para conseguir apenas o suficiente para não morrer de fome, o homem do século 20 podia se dar ao luxo de trabalhar em expediente fixo e folgar nos fins de semana, ao mesmo tempo em que tinha acesso a luxos que eram impensáveis dois ou três séculos antes: água encanada, luz elétrica, casas aquecidas, máquinas para costurar e lavar roupa, geladeira, fogão a gás, rádio, televisão. E, naturalmente, o governo continuou crescendo, já que era possível confiscar cada vez mais dos que trabalhavam.

Neste nosso século 21, ocorreu algo interessante: as facilidades tecnológicas são tantas que a necessidade de uma população grande desapareceu. O trabalho de apenas uma parte das pessoas é suficiente para atender às necessidades de todos. Muita gente pode viver sem produzir nada, às custas dos outros. Vamos dar nome aos bois:

– Os pobres que vivem do bolsa-família.

– Os jovens nem-nem da classe média, que nem estudam nem trabalham, e têm como projeto de vida viver às custas dos pais até o dia em que possam viver às custas dos filhos.

– Os encostados no governo, tipo “assessor adjunto do departamento de planejamentos fictícios da secretaria municipal de empregos inúteis”.

– Os que herdaram uma aposentadoria ou pensão de alguém.

Todas estas pessoas são improdutivas: não produzem riqueza, apenas a consomem. Não contribuem com o progresso da sociedade, ao contrário, o atrasam. Mas se observarmos bem, o governo parece gostar delas, tanto que cria incentivos para que seu número aumente ainda mais. Por quê? Porque estas pessoas têm para o governo uma utilidade importante: elas votam.

Se alguém tem uma vida boa graças a um governo X, em quem este alguém vai votar? No governo X, óbvio. Nestes tempos em que a riqueza é tanta que dá para o governo abrigar um monte de políticos e ainda sobra para sustentar um monte de gente improdutiva, estes políticos vão fazer o possível para manter a situação exatamente como está. Como? Garantindo que exista uma grande quantidade de gente que vive às custas dos outros e não quer que nada mude: estas pessoas irão sempre votar em políticos que farão exatamente isso.

Como isso irá acabar? Difícil dizer. Os pessimistas acham que o sistema atual é uma pirâmide que vai desabar. Os otimistas acham que a tecnologia compensará a redução da população produtiva. E os chineses acham que somos um bom fornecedor de soja, frango e minério de ferro, e nos pagarão o suficiente para que possamos continuar comprando deles todo o restante, que nós não sabemos fazer.

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