O TAL DO LIVRE COMÉRCIO

Vamos imaginar duas pessoas: o José e o João. O José tem como princípio “ser independente e não depender dos outros”. Ele construiu sua própria casa e planta sua comida no quintal. Ele também costura suas próprias roupas e fabrica em casa o sabonete com que toma banho e o detergente para lavar a louça, que também foi ele que fez.

O João tem uma opinião totalmente oposta. Ele cursou uma boa faculdade e tornou-se um profissional extremamente competente em sua especialidade. Sendo muito competente, ele ganha bem, e com este dinheiro ele paga para que outras pessoas façam todas as coisas que não são sua especialidade: ele compra roupas e comida prontas, pagou um pedreiro para construir sua casa, e quem cuida do jardim é um jardineiro.

Provavelmente a maioria concordará que o João é mais rico e tem um padrão de vida melhor que o José. Quanto se trata de aplicar o mesmo conceito a países, porém, as opiniões já não são tão claras.

Os fatores envolvidos são os mesmos; em economês, são termos como “divisão do trabalho”, “vantagens competitivas”, “especialização” e “meios de produção”, que no fundo vem a ser o nosso bom e velho capitalismo.

Em termos leigos, trata-se de dizer que: a) é difícil ser bom em tudo; e b) ser bom em tudo não é suficiente, por que é necessário ter os recursos físicos para fazer algo, e isso custa dinheiro. Ou seja, o José, por melhor que seja, não tem os mesmos recursos para produzir algo que uma fábrica especializada tem, e por isso a sua produção “caseira” será mais difícil, mais trabalhosa e dificilmente terá a qualidade de um produto industrial, seja uma xícara, um sabonete ou um par de sapatos, para não falar de um automóvel ou um smartphone.

Enquanto o José e o João podem fazer suas próprias escolhas e viver com as consequências, em um país a situação é diferente, porque obriga um monte de gente a viver de acordo com esta escolha, concorde ou não.

Os que pensam como o José são chamados “nacionalistas”. Eles são a favor de reservas de mercado e não gostam de produtos importados. Isso significa que todas as pessoas (e não apenas eles mesmos) são obrigadas a comprar produtos piores e/ou mais caros para atender a esta política econômica. Os nacionalistas também acreditam que o país deve ser bom em tudo, ou pelo menos tentar, e também acreditam que o governo deve participar do mercado, cobrando impostos de uns e dando subsídios a outros, como forma de buscar este “ser bom em tudo”.

Pessoas que pensam como o João são a favor do “livre comércio”, e defendem que um país, assim como uma pessoa, se concentre no que faz de melhor. Fazendo isso, o país terá dinheiro para comprar o que os outros países fazem de melhor. Em geral, quem defende o livre comércio acha que o governo não deve se meter no assunto.

Vamos ver alguns exemplos práticos? O Brasil, obviamente, sempre pensou como o José: aqui tem fábrica de automóvel, de computador, de avião e de remédio. Só que quase todas pertencem a grupos estrangeiros e dependem de matéria-prima e tecnologia “de fora”. Por outro lado, temos muita agricultura, pecuária e mineração, que inclusive exportam muito, e que são considerados por alguns uma atividade “inferior”. Temos reservas de mercado, tanto abertas quanto disfarçadas. No fundo, ao se perguntar a um brasileiro “somos bons em fazer o quê?”, ele provavelmente hesitará ao responder.

Nosso vizinho mais próspero na América do Sul é o Chile, segundo os números. E o Chile, como o João, não tem dúvida sobre o que ele faz bem: Cobre e Vinho. É basicamente esta a pauta de exportações do Chile, que não tem indústrias de automóveis, nem de computadores.

Outros países que pensam como o João? Nova Zelândia, que exporta ovelhas. Suíça, que exporta medicamentos e produtos de engenharia fina, de relógios a motores de navio. Austrália, que exporta trigo, lã, carvão e minério de ferro. Nenhum deles tenta fazer tudo em casa: preferem comprar com o dinheiro que ganham fazendo o que sabem fazer bem.

Quem está certo? Prefiro passar a bola a você, leitor: que conselhos daria ao José, ao João e ao Brasil?

10 pensou em “O TAL DO LIVRE COMÉRCIO

  1. Caro confrade fubânico,
    Seu texto conseguiu sintetizar com uma clareza cristalina o que meus professores no mestrado de economia levaram alguns anos tentando empurrar dentro da minha empedernida cabeça.
    Parabéns!
    E viva David Ricardo com suas vantagens comparativas e competitivas.

  2. Aluno que não cola, não sai da escola. Essa pergunta é muito difícil de responder. Vou ter que colar. O que o Capitão Bolsonaro responder eu copio.
    Sô bobo não… vou colar de quem sabe.

  3. Caro Cronista Marcelo Bertoluci,bem bolada crônica pra quem cuca fresca tomar seguras decisões. Não pisar em falso. Tomar novas quedas.

  4. Hoje os países têm de aprender a fazer de um tudo, com destaque para o turismo – aqueles que dispõem dos recursos naturais que nós abundamos como poucos.

  5. Goiano,
    Recurso natural somente não vale de porra nenhuma. Só serve pra ser espoliado por filiais de multinacionais.
    Quem tem capital humano (gente de vergonha na cara e competente- o que decididamente não é o nosso caso), usa os recursos naturais dos trogloditas e fica rico com eles.
    A Suissa não tem um pé de chocolate e ganha rios de dinheiro com ele.
    A Alemanha não tem um pé de café e ganha rios de dinheiro vendendo café processado.
    O Japão e a Coreia do Sul não possuem uma mina de carvão, ou de minério de ferro, e ganham rios de dinheiro vendendo aços especiais, automóveis e navios.
    A china não tem uma grama de rutilo. Vai tudinho pra lá da Paraíba, a US$ 0,10 por tonelada. E nós compramos todo o caríssimo dióxido de titânio deles.
    Os Estados Unidos não possuem uma grama de nióbio, e nós compramos deles todas as turbinas de aviões feitas com aços especiais com esta liga.
    Nós, os nhãbiquaras modernos, nos contentamos em receber miçangas em troca de nossos recursos naturais. Só que hoje são miçangas eletrônicas.

    • Exatamente, Adônis.

      Mas nossas TV´s Samsung e LG tem os parafusos apertados aqui! Mão de obra 100% brasileira! O Brasil na vanguarda mundial da apertação de parafusos!

  6. Explorar turismo é uma boa opção. Não depende de matérias-primas que podem se esgotar, não polui (muito) e tem o mundo inteiro como mercado.

    Só que para explorar o turismo precisa:
    – Boa infraestrutura de transportes e de comunicações (não temos)
    – Ambiente favorável aos pequenos empreendedores (não temos)
    – Bom nível sócio-cultural (não temos)
    – Governo ágil e desburocratizado na tomada de decisões (não temos)

    Somos o país em que o governo desobriga de visto os turistas do EUA e o congresso ameaça cancelar por pressão política. Precisa dizer mais?

  7. Caro Marcelo,
    Faltou você mencionar segurança.
    Com o maior índice de assassinatos do mundo, só vem para cá os tarados, atrás de prostituição infantil, ou os Ronald Bigs e Cesare Batista, fugindo da polícia dos países onde a justiça ainda tem vergonha na cara.

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