O RELÓGIO DE ALGIBEIRA

Relógio de algibeira presenteado ao meu pai

Nasci no dia 30 de abril. Na minha família, também nasceram no mês de abril, meu irmão João Hélio, no dia 8; minha Mãe, Jordina, no dia 14; meu irmão caçula, Jorge Luiz, no dia 23. Depois, chegaram minhas duas filhas do primeiro casamento. Ana Karina, dia 20; e Annya Karênina, dia 15.

De todos da família, apenas eu recebia presente de aniversário. Explico: dinheiro sempre foi fartura entre nós. “Fartava” sempre para tudo, incluindo as necessidades domésticas básicas. E, dinheiro de pagamento salarial sempre chegava no último dia de cada mês. Dia 30. Entenderam, tenho certeza.

Meu Pai aniversariava no dia 26 de outubro, e não fazia muita questão de receber presente de aniversário, até por que, para comprar esse presente, tínhamos que ter dinheiro. E, o dinheiro que tínhamos, era sempre Ele quem nos dava. Por esse ou aquele motivo, era Ele quem nos dava.

Do dia 30 de abril, até o dia 26 de outubro, se passavam seis meses, ou quase isso. Como eu era o único que recebia presente do meu Pai, eu também era o único a presentear-lhe. Nada mais justo. E, como eu não trabalhava, para presenteá-lo, precisaria “juntar os trocados” que ele próprio me dava. Era, digamos, como se Ele estivesse “poupando”.

Ele até me dava o porquinho de presente, e, às vezes, até depositava algumas moedas, daquelas antigas de cinquenta reis, dois mil reis, dinheiro corrente daqueles tempos antigos.

Tudo mudou quando a adolescência bateu à porta. As doações do meu Pai rarearam e, juntar trocados ficou mais difícil. Eu precisava dar o meu jeito, pois a mentalidade da retribuição permanecia, e eu continuava ganhando meu presente todo dia 30 de abril.

Lá pelos meados do mês de setembro, eu dava aquela sacudidela no porquinho, e podia perceber que ainda eram poucas as moedas. Insuficientes para comprar a tradicional “caixa de lenços Premier” que, aparentemente, meu Pai gostava tanto. Corria e quebrava o porquinho de cerâmica. Só então descobria que precisava “fazer dinheiro”.

E agora, o “fazer dinheiro” seria diferente daquele dinheiro que fazíamos com maços de cigarros vazios que tanto usávamos na infância. Tinha que ser, e precisava ser “dinheiro mesmo”.

Pegava as moedas do porquinho, comprava dois cocos e duas rapaduras. Corria à fazer cocadas. Cocadas das pretas. Aquelas preferidas da maioria.

A primeira leva das cocadas não dava para quem queria e já havia provado. Era de uma doçura incomparável, comprovando que havia componente mais doce que o açúcar ou a rapadura.

Cofrinho de cerâmica onde eu juntava os tostões e os milréis

O dinheiro produzido com a venda tinha uma destinação. Parte serviria para cobrir a despesa do investimento – uma espécie de capital de giro – e outra parte voltava para novo custeio. O que configurava “lucro”, era depositado em algum novo lugar, até que um novo porquinho fosse comprado.

Mais cocos. Mais rapaduras. Mais cocadas e mais possibilidades de novo faturamento. Por alguns dias, meses e anos, fui considerado o “Rei das cocadas pretas” – título e reconhecimento pomposo e provavelmente merecido.

Entre uma porção de cocadas e outra, nunca foram esquecidas as obrigações escolares, nem a premiação dos momentos de lazer que toda criança ou adolescente faz jus. Estudar, trabalhar e brincar – literalmente nessa ordem.

Finalmente, o dia 26 de outubro se aproximava. Sem shopping, sem lojas de vitrines bonitas, a solução era esperar a chegada de um sábado (dia sem aulas) para, finalmente, comprar aquela caixa de lenços que ficava escondida em lugar inacessível pelo aniversariante. No dia tão esperado, aquela novidade que se repetia a cada ano, era mais uma vez praticada.

Cocada das pretas – minha primeira impressão de empreendedorismo

Mas, de acordo com o ditado popular, “não há mal que dure para sempre, nem bem que nunca acabe” – e aquela alegria momentânea, simples, coroamento da relação de um Pai com um filho, também estava com as horas contadas.

A adolescência trouxe junto, o compromisso de servir à Pátria, e a responsabilidade de pensar num salto maior nas obrigações escolares: o Vestibular, com a chegada do curso científico no Liceu do Ceará.

O tempo passou, e surgiu a primeira namorada. Aquela que precisava ser visitada na própria casa, com assento em lugar de destaque na sala principal. Namoro firme, e o início do conhecimento prático da vida. Continua correndo o tempo. Célere. Como se fosse uma competição olímpica e a necessidade de superar recorde.

O primeiro emprego remunerado. Não tão bem remunerado, mas a recompensa do esforço para alcançar uma aparente independência.

O ingresso no curso científico arregalou os olhos para o mundo, e aguçou a sensibilidade para o que realmente é a vida. Novos amigos, emprego novo e agora ganhando o triplo do que ganhava no emprego anterior. Novo horizonte e um mundo que, se não era colorido, tinha tons firmes e definidos.

O bom salário trouxe o engajamento com a política estudantil, e novas ideologias. A coragem de participar politicamente das coisas da vida, e a ingênua perspectiva de consertar o mundo. A eleição para compor a diretoria do Sindicato dos Telegráficos, e a politização ideológica, até o envolvimento total na prática diária.

Eis que chega o dia 31 de março de 1964. Tudo muda em pouco menos de 24 horas. Os céus ficam escuros e a chuva não cai. Nuvens negras. Nuvens pesadas.

Entre o dia 31 de março de 1964, e o próximo dia 26 de outubro, havia uma distância muito grande, e não havia mais dois cocos, duas rapaduras nem algumas boas cocadas das pretas. Com certeza, aquela caixa de lenços seria esquecida por algum momento.

Mudar para outro lugar, foi a ideia que veio à cabeça. Sem demora, um acordo para a demissão da diretoria do Sindicato, o que possibilitaria uma negociação com a Western, e o recebimento de todos os direitos trabalhistas. Tudo acertado e, enfim, um bom dinheiro na conta bancária.

Passagem terrestre comprada, pois não havia problema para uma viagem interestadual. Malas prontas, namoro desfeito, tudo encaminhado.

Era chegada a hora da despedida em casa. Uma lembrança forte e marcante substituiria aquela caixa de lenços. Fui a uma relojoaria e, com dinheiro suficiente, comprei um relógio de algibeira. Um dia antes da viagem, resolvi entregar o presente à quem só aniversariaria no dia 26 de outubro, muito distante. Mas a pressão das nuvens negras estava próxima.

Entreguei o presente e olhei firme nos olhos do meu velho Pai. Foi a primeira vez que vi lágrimas escorrerem pelos olhos dele, e a última vez que nos vimos e abraçamos fortemente.

9 pensou em “O RELÓGIO DE ALGIBEIRA

  1. Irmão do coração Zé Ramos.

    Grande cronista!

    “O RELÓGIO DE ALGIBEIRA” é mais um corolário escrito pelo nobre cronista para embelezar essa manhã aprazível de domingo.

    • Cícero, tinha que ser um bom presente. Naqueles anos de chumbo tudo era incerteza. Era como se a gente saísse de casa sem ter a certeza que voltaria. E eu não saí para voltar. Mas, não imaginava que, naquele momento estivesse me despedindo do velho Pai. Coisas do nosso destino.

  2. Lindíssimo texto, querido escritor José Ramos! Os detalhes emocionantes que você relatou, da sua infância e de um período de mudanças em sua vida, apesar da tristeza, são ricos de lirismo! Parabéns, amigo! Um grande abraço!!

    Violante Pimentel Natal (RN)

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