MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

Rádio Philips com “olho-de-boi”

1956 foi um bom ano para a companhia para a qual meu pai trabalhava, uma empreiteira que estava construindo um trecho da hoje rodovia BR 364 entre Rondonópolis e Cuiabá. Morávamos no acampamento da companhia, a cerca de 10 quilômetros de São Vicente e a 90 de Cuiabá. Com a finalização do trecho a empresa teve um bom lucro e premiou seus funcionários com um bônus no final do ano.

Meu pai, Miguel Bezerra, foi agraciado com um dinheirinho extra e resolveu concretizar seu sonho de consumo: ter um rádio Philips que “pegava” ondas curtas usando uma novíssima tecnologia, o que permitiria ouvir com melhor clareza a Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Além disso, última novidade, o rádio vinha com “olho-de-boi”, um marcador que mostrava quão sintonizado o rádio estava em uma determinada emissora. Uma maravilha, a última palavra em eletrônica da época.

O rádio foi trazido de Cuiabá e posto no local nobre da sala; o velho enchia o peito quando o mostrava para os vizinhos, que babavam de admiração com o tal “olho-de-boi”. O rádio só poderia ser ligado por ele próprio, depois que chegava do trabalho, já que ninguém estava autorizado a fazê-lo, sob pena de umas cintadas no lombo. E, claro, minha mãe não se atreveria a desafiar a ordem do marido e nós, moleques arteiros, sabíamos muito bem como as cintadas do velho ardiam nas costas e na bunda.

Cerca de dois meses depois, em uma noite, a recepção do sinal da Rádio Nacional era a pior possível, seguramente devido a alguma manifestação meteoro-homofóbica LGBTPQP+ da mãe Natureza no meio do caminho entre o Rio de Janeiro e Cuiabá. Chiados, assobios e estralos pipocavam no rádio e o “olho-de-boi” estava mais doidão que a Maria do Barraco, digo, do Rosário. Não se conseguia ouvir nada, nem a “Voz do Brasil” e nem, o mais importante, a novela “O Direito de Nascer”, sucesso absoluto em todo o Brasil na década de 1950 (o texto original dessa novela era do cubano Félix Caignet, com tradução e adaptação de Eurico Silva, e possuía 314 capítulos).

Minha mãe se desesperava por não conseguir ouvir direito a voz de seu ídolo Paulo Gracindo. Meu pai tentava por todos os meios sintonizar o agora maldito rádio. Ligava, desligava, tentava sintonizar, olhava e xingava o tal do “olho-de-boi” e cada vez se irritava mais com o choramingar de minha mãe e com os estralos e assobios. Deu uns tapas no rádio, amaldiçoou o capeta, destratou o Padre Cícero Romão Batista e nada. Depois de uma meia hora de luta, quando a novela já ia longe, a paciência acabou: agarrou um machado e, num acesso de raiva, partiu o rádio ao meio.

Houve um estouro de 78 decibéis e faíscas para todos os lados, num veemente protesto do aparelho ao sentir-se violentado. Com o curto-circuito provocado a eletricidade da casa foi embora. Passamos dois dias esperando alguém chegar com fusíveis para consertar o estrago e ligar a energia de volta.

O rádio, orgulho do Sr. Miguel Bezerra e agora em cacos, foi direto para o lixo. O antigo e desprezado rádio, que não tinha “olho-de-boi” e emitia um som de taquara rachada, voltou à ativa. Minha mãe ficou sabendo dos capítulos perdidos pelos vizinhos.

Desde então falar em olho de boi em nossa casa atraía uns bons cascudos e puxões de orelhas.

2 pensou em “O RÁDIO PHILIPS

  1. Magnovaldo.

    Suas crônicas de um “passado ali da esquina” são deliciosas. Memórias e lembranças dos tempos de crianças. Essa história do olho-de-boi fez-me lembrar que meu pai tinha um pequeno rádio de ondas curtas e que, na fazenda São Manoel, onde nasci, na região do Nabileque, pleno pantanal do MS, colocava, todo início de noite para o ritual sagrado. Ouvia-se A Voz do Brasil, com sua inconfundível introdução da Ópera Il Guarani de Carlos Gomes, depois ouvia-se o Projeto Minerva. Acho que fui alfabetizado ouvindo esse programa. E depois, o Programa da Maré Mansa. Inesquecível programa de humor feito com inteligência, elegância e refinamento. pela manhã era obrigatório ouvir o Programa do Zé Betio antes de iniciar as fainas do dia.

    Saudades daquele tempo que você traz, em doses homeopáticas, para este teu amigo pantaneiro que sente falta de um choro de berrante bem executado.

    • Prezado Roque:
      Obrigado pela suas palavras.
      Apesar da dura vida de uma infância pobre, há sempre uma enormidade de suaves lembranças que adornam nossa existência.
      Fico feliz em poder deixar em meus amigos bons momentos em seus dias.
      Tenha um ótimo final de semana por parte deste seu conterrâneo.

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