ALTAMIR PINHEIRO - SEGUNDA SEM LEI

O hino do homem que sofre à mesa de um bar é uma das âncoras que manteve o cantor no mercado por quase meio século:

Eu hoje quebro esta mesa / se meu amor não chegar / Também não pago a despesa / Não saio desse lugar. / Tem tanta mulher me olhando / Querendo me conquistar / Acabo me desesperando / Se meu amor não chegar. / Pra que dois copos na mesa? / Com uma cadeira vazia / E eu aqui na incerteza / Vendo amanhecer o dia / Não posso mais eu confesso / Confesso que vou chorar / Eu hoje quebro esta mesa / Se meu amor não chegar.

O artista nascido em Mossoró, no Rio Grande do Norte, ainda hoje informa que, “Se o “QUEBRA-MESA” fosse sucesso hoje, eu estaria rico”, comenta ele, que, religiosamente, durante seus shows, geralmente, desce até a plateia para cantar seu maior hit ao lado dos fãs.

A jornalista e socióloga pernambucana Fabiana Moraes afirma que na pirâmide sociocultural do cantor e compositor Oséias Carlos André Meida Lopes, era conhecido como “artista de cabaré”, “cantor de brega”, fazia “música de empregada”, como também de caminhoneiros, pedreiros, manicures, serventes, estivadores e putas. Nesse sentido, era quase um impropério, entre intelectuais e demais esclarecidos do Brasil de 1975, ouvir e cantar versos como “não posso mais, eu confesso/ confesso que vou chorar/ eu hoje quebro essa mesa/ se meu amor não chegar”. Escondida na última faixa do lado B do compacto duplo O APAIXONADO, a música “Se Meu Amor Não Chegar” (de Lindolfo Barbosa e Wilson Nascimento) provocou um sismo nas rádios do País quando foi lançada.

Apesar de tudo, a música de Carlos André fazia parte do cimento do preconceito em relação a tal produção. Esse olhar negativo era duplo na época da ditadura militar: enquanto direitistas julgavam as músicas como cafonas, esquerdistas viam ali o subjugo do intelecto a favor da alienação. “A esquerda era muito elitizada”, conta Carlos André. Mesmo assim, O enorme interesse pela música agradou imensamente à gravadora Beverly: um milhão de cópias foram vendidas, instigando a empresa a realizar mais cinco discos com o mesmo título O APAIXONADO (que distinguiam-se pelo número do volume: 2, 3, 4, 5, 6).

O APAIXONADO veio em 1974/75 e logo todos cantavam as dores do homem que se perguntava “pra que dois copos na mesa/ e uma cadeira vazia?”. Ironicamente, a canção que tornaria Carlos André nacionalmente famoso quase não era gravada – foi considerada por alguns como “popular demais” para ser interpretada pelo cantor. Seu conteúdo atormentado, pouco contido, dramático, soava meio… brega. Diziam: Essa música é muito sem-vergonha para o senhor cantar. Mas se ser brega é agradar o povão, então eu sou. Carlos André Lançou mais 32 discos, boa parte deles gravados enquanto Carlos também trabalhava como diretor artístico da Copacabana, que o contratou em 1979. Produziu trabalhos de artistas como Luiz Gonzaga, Zé Ribeiro, Genival Santos, Bartô Galeno e tantos outros.

Na seara das biografias sobre os cantores e autores que deram vida à música brega, há de um tudo, como nos confirma o poeta, escritor e historiador de Campina Grande(PB), Bruno Gaudêncio: traições, desilusões e amores não correspondidos. O universo da chamada “música brega” é rico nesses temas, temas bastante universais que abrangem do erudito inglês Shakespeare aos desabafos embriagados do “ZÉ DO BOTEQUIM”, passando, claro, por textos deliciosamente trágicos de Nelson Rodrigues e canções imortalizadas por Evaldo Braga, Waldick Soriano e Reginaldo Rossi, entre tantos outros. Tudo isso faz parte do cancioneiro que embalou histórias de relacionamento a dois, alegres ou tristes, nos anos 1970/1980 e que hoje, é visto com muito humor e deboche. Basta ouvir Eu vou tirar você desse lugar, de Odair José, a Entre espumas, de Roberto Muller e o homem que sofre na mesa de um bar, SE MEU AMOR NÃO CHEGAR tão bem interpretada por Carlos André na década de 70.

3 pensou em “O QUEBRA-MESA, CARLOS ANDRÉ, JÁ É QUASE UM NOVENTÃO

  1. Caríssimo Altamir.

    Que belo trabalho o seu nas últimas semanas, trazendo para nossa lembrança os ótimos cantores ” bregas ” de algumas décadas atrás. Bela homenagem recebeu
    merecidamente o ,meu amigo Waldick Soriano de memorável lembrança.
    Depois, como a sua coluna de hoje nos lembra de Carlos André com uma linda
    poesia ” cafona ” que nos traz saudades do passado de sucessos e
    pouco lembrado atualmente.
    O que hoje são consideradas músicas CAFONAS, BREGAS, nada mais são que
    poesias populares autênticas que nos falavam e ainda hoje nos falam ao coração modesto e simples do povão verdadeiro.
    À esses heróis populares já citados por suas crônicas, acrescento entre outros
    (são tantos ) Anisio Silva, Carlos Alberto, Jessé, Altemar Dutra, Silvinho, Orlando Dias e etc. etc. etc. Daria para citar meia centena (apenas dos grandes bem conhecidos ) e a lista não estaria completa.
    Trabalhei no ramo de Discos, Músicas e contatos com todo tipo de cantores (as) e
    sei da autenticidade dos seus sentimentos, almas generosas, cujo desejo
    primordial é encantar a sua platéia com a sua música e seus sentimentos
    de amores impossíveis.
    Eles não são burros nem ingênuos, são pessoas simples, com poucas vaidades
    e ficam felizes apenas com o aplauso popular. Cito o caso do meu muito Amigo
    o cantor se serestas Luiz Claudio, ótimo cantor, ótimo desenhista, e pintor de
    razoável qualidade. \Sua obra artística foi incluida em um ” Livro Album ”
    com todos os seus desenhos, fotos das suas pinturas e dois Discos Long Play
    contendo o melhor da sua obra vocal. Esse livro , tem uma cópia no VATICANO,
    pois foi doada ao Papa da época, pelo avô do Aécio Neves, quando de sua
    viagem à europa, logo após ganhar as eleições.
    Eu possuo na minha discoteca, uma cópia igual dessa belíssima obra que me foi doada pelo meu amigo Luiz Claudio.

    Continue com a música, pois cowboy também canta. Desafinado, mas canta.

    Um abraço westerniano.

  2. Parabéns, prezado Colunista Altamir Pinheiro, pela bela postagem, focalizando o cantor e produtor musical, Carlos André, um dos grandes valores musicais do Rio Grande do Norte, nascido em Mossoró.
    A música “Se meu amor não chegar”, ou “O Quebra-Mesa”, , fez tanto sucesso nas rádios, shows e festinhas, quanto “Garçom”, do inesquecível Reginaldo Ross,
    Constando na última faixa do lado B do Compacto duplo “O Apaixonado”, a música “Se meu amor não chegar”, ou “O Quebra-Mesa”, “estourou” nas rádios do País, tornando Carlos André conhecido, principalmente nas regiões Norte e Nordeste.

    Uma ótima semana!

  3. Sou Advogado, Pedagogo, Escritor, Músico amador, Auditor Federal do TCU e pesquisador musical com quatro livros editados e dezenas de trabalhos escritos sobre a música mundial. Em 2015, escrevi um ensaio literário sobre essa música, causando muita admiração, com relação aos meus leitores, com uma grata surpresa, onde a maioria gostava dessa melodia. Gostei muito da sua página e da matéria publicada. Se me permite, anexarei o meu trabalho sobre a música abordada. Esse trabalho foi apenas uma homenagem que fiz aos seus autores, sem nenhum fim lucrativo, comercial ou autoral. Solicito, apenas, que quando for citado, seja dado créditos ao seus autor.
    Muito obrigado. João Erismá de Moura.
    “SE MEU AMOR NÃO CHEGAR”
    (Música de Lindolfo Barbosa e Wilson Nascimento) *
    Neste ensaio literário musical quero comentar, no meu entendimento e pouco conhecimento interpretativo, a significância de um texto, escrito em oitava (oito estrofes) de uma música, símbolo da breguice, cafonice ou dor de cotovelo para uns e um marco na Música Popular Brasileira para outros. É verdade, que, numa época em que somente o Rei Roberto Carlos atingia uma vendagem similar, com mais de um milhão de cópias vendidas, o cantor Carlos André (Oséas Carlos André Almeida Lopes, nascido em Mossoró-RN, aos 28 de outubro de 1938), se tornava conhecido e acordava o Brasil para o achado de um vilão de ouro na música, dita brega de todos os tempos. Esta canção, no popular, considerada por muitos como música de cabaré, foi gravada por vários artistas, sempre arrebatando com empolgação os seus adeptos.
    Quando o cantor Carlos André foi gravar esta canção enfrentou algumas barreiras no mundo musical, alguns críticos considerava a música muito popular para o seu estilo musical.
    O Brasil, país riquíssimo de grandes compositores populares, em épocas passadas já copiava gêneros musicais, para uns de qualidade duvidosa, como as procedentes do México, Argentina e outros países sul americanos, bem como as românticas de origem italiana e francesa, desfilando nos seus boleros, sambas-canções, música caipira, sertaneja, entre outros gêneros musicais, representados por centenas de artistas que venderam ou continuam vendendo milhares de discos em todas as épocas, aos apreciadores da música popular brasileira.
    Esta canção marcou toda uma geração de apreciadores de música considerada de qualidade duvidosa, mas destinada a uma camada da população brasileira que enfrenta no seu cotidiano, situações de desencontro, traição e desamor.
    Na década de 1960 presenciei, nos meus períodos de férias, no interior do nordeste o sucesso desse hit tocado na maioria dos bares, cabarés e casas noturnas frequentadas por gente de toda camada social.
    Acredito que enquanto houver amor, mulher, cachaça, boêmio e mesa de bar ela será lembrada por sua letra tão realista e a lembrança fiel de milhares de casos mal sucedidos no amor.
    Como a música é um sentimento universal, devemos respeitar todos os gostos e a escolha é livre para qualquer gênero. Foi neste sentido que me debrucei sobre esta composição e, em apurada análise, escrevi este trabalho literário, que servirá como uma reflexão para a importância das palavras ditas musicalmente, com um sentimento simples, embora com enorme cunho de verdade.
    Nossa modesta análise é sobre esta canção que até hoje causa certo frisson em boa parte dos ouvintes, principalmente aqueles que cantaram e dançaram ao som desta melodia.
    Não há dúvida, que alguns, por puro preconceito têm vergonha de assumir o gosto pela melodia e letra simples desta canção, mas de sentido abrangente ao coração de boa camada da população brasileira.
    EU HOJE QUEBRO ESSA MESA – Decisão de um frequentador de um bar, antecipando uma frustração naquela noite e ambiente.
    SE MEU AMOR NÃO CHEGAR – Aguardando a sua amada com certa ansiedade, na expectativa de uma ausência bastante sentida.
    TAMBÉM NÃO PAGO A DESPESA – O proprietário do estabelecimento arcará com o prejuízo causado pelo frequentador, sem motivo justificável por seu ato de inadimplência dos gastos.
    NÃO SAIO DESSE LUGAR – O boêmio ocupará à noite toda, além da mesa, dois lugares.
    TEM TANTA MULHER ME OLHANDO – Demonstração de certa arrogância e convencimento, perante o universo feminino, presente na casa de divertimento. Narcisismo puro.
    QUERENDO ME CONQUISTAR – Presunção pouco provável, já que nenhuma mulher foi procurá-lo para comprovar este seu narcisismo.
    ACABO DESESPERADO – No decorrer de sua permanência, sem a presença da amada, vem-lhe a constatação acompanhada de tristeza, ansiedade e certeza do seu desespero.
    SE MEU AMOR NÃO CHEGAR – Condicional cada vez mais provável, tendo em vista já a longa espera de sua amada.
    PRA QUE DOIS COPOS NA MESA – Sentimento triste e verdadeiro, pleno de frustração, numa interrogativa ao seu coração e ao seu ego.
    COM UMA CADEIRA VAZIA – Constatação de uma grande ausência, local onde deveria estar sua companheira, se divertindo e ocupando o seu coração.
    E EU AQUI NA INCERTEZA – Dúvida sobre a noite perdida e uma espera angustiante.
    VENDO AMANHECER O DIA – Certamente a noite foi perdida e a cobrança do dono do bar para que se retirasse já teria acontecido algumas vezes.
    NÃO POSSO MAIS EU CONFESSO – Com o orgulho ferido, é obrigado a aceitar uma situação difícil de desencontro amoroso. Demonstração do estigma de machismo, quando para alguns, “chorar não é coisa de homem”.
    CONFESSO QUE VOU CHORAR – Momento mais triste e decepcionante para um boêmio que não foi correspondido pela amada, provavelmente em fragrante traição amorosa. É a entrega de um orgulho ferido, perante os últimos frequentadores do bar.
    EU HOJE QUEBRO ESSA MESA – Por vingança, a mesa, única acolhedora e sem culpa da sua desilusão amorosa, pagaria por seu insucesso sentimental e, como chamávamos, “ter levado um bolo da amante ou namorada”.
    SE MEU AMOR NÃO CHEGAR – Já nessa altura, não haveria nenhuma possibilidade do seu encontro ser realizado, tendo em vista a ausência da sua amada, provavelmente, ao raiar do dia.
    É, portanto, através da música, do cinema, do teatro e de outras criações artísticas e culturais que observamos a diversidade de temas e a fertilidade reinante no pensamento do compositor brasileiro, que com um tema corriqueiro, recorrente e comum na vida de muitas pessoas, sujeitas à exposição de uma situação extremamente frustrante, descrevendo o sentimento psicológico daqueles que se sentem traídos e enganados pela mulher amada.
    Assim, me ocupei de examinar a letra desta obra musical, um hino, para alguns admiradores deste estilo musical, representante de uma camada da sociedade brasileira que curte, ama, dança e canta os seus sentimentos transmitidos através dos sons musicais e da poesia dos compositores da eclética Música Popular Brasileira.

    Brasília, DF, noite mal dormida de um dia no mês de abril de 2015.

    Lindolfo Mendes Barbosa (Lindú), compositor e cantor baiano, componente do grupo Trio Nordestino que fez muito sucesso nas décadas de 1960/1970. Wilson Nascimento, compositor que não dispõe de nenhum dado bibliográfico registrado.

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