MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

A guerra na Ucrânia tem me deixado muito desanimado, não pela guerra em si, que infelizmente é uma parte irremovível da natureza humana, mas pela reação do restante do mundo, estampada na imprensa e na internet. Parece que as pessoas acham que a guerra é como o BBB, e que em breve elas poderão votar para eliminar o Putin. Praticamente todos os jornalistas que vejo parecem confiar nos superpoderes da ONU, dos políticos e das “sanções econômicas” para punir o vilão e fazer a paz e a justiça triunfarem, como no final feliz de um filme de Hollywood.

Na verdade, as coisas que podem decidir a guerra são basicamente duas: petróleo e gás.

Sobre o gás:

Quando terminou a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha estava tão destruída que as pessoas recolhiam galhos de árvore no mato para usar como lenha, e caçavam esquilos para comer. Sete décadas depois, os bisnetos dessas pessoas vivem em casas confortáveis aquecidas por gás natural. Se eles desligassem a calefação e dissessem ao Putin que enfiasse seu gás em outro lugar, o panorama mudaria instantaneamente: a Rússia perderia muito dinheiro e também uma posição de poder.

Mas os europeus de hoje não estão dispostos a fazer sacrifícios enquanto postam elogios a si mesmos nas redes sociais, e exigem que os políticos arranjem um jeito de resolver o problema sem afetar sua vida confortável. A solução que os políticos encontraram foi dizer à Rússia “faça o que quiser na Ucrânia, mas não corte nosso gás, senão eu vou me dar mal na próxima eleição”.

Importante dizer que aquilo que a imprensa vem noticiando sobre a intenção dos EUA de fornecer gás à Europa para substituir o gás russo é bobagem. Montar a infraestrutura necessária para isso demoraria anos, isso se fosse financeiramente viável. Idem para as notícias entusiasmadas sobre “energia renovável”, “economia neutra em carbono” e qualquer coisa com a palavra “sustentável”.

Sobre o petróleo:

Nos últimos anos, a Rússia exportou em média cinco milhões de barris por dia de petróleo bruto e dois milhões de barris de produtos refinados. Metade disso foi comprado pela Europa, e 30% pela China. Estes sete milhões de barris representam quase um quinto de todo o petróleo comercializado no mundo, o que significa que não se pode simplesmente dizer “não compro mais petróleo da Rússia”. Seria preciso encontrar quem possa aumentar a produção para compensar, caso contrário o preço atingiria valores inimagináveis. Mas isso não vai acontecer. O mais provável é que a Rússia passe a vender cada vez mais para a China, que hoje importa quase dez milhões de barris por dia, sendo menos da metade vindos da Rússia. Ou seja, não haveria redução na oferta, apenas uma troca de fornecedores. Bom para a China e ruim para a Rússia, que fica presa a um comprador só. Ruim também para o Ocidente que verá uma China mais forte e mais perto de realizar seu sonho: colocar o yuan como moeda internacional de comércio, no lugar do dólar.

Enquanto isso, o geriátrico presidente dos EUA, Joe Biden, anuncia com pompa: “O óleo russo não será mais aceito nos nossos portos e o povo americano desfechará outro potente golpe contra a máquina de guerra de Putin”. Claro que ele não disse que os EUA representam 1% das exportações da Rússia e que Putin está rindo do “potente golpe”.

De qualquer forma, o mercado de petróleo é bastante volátil, e qualquer notícia sobre sanções fará o preço disparar no curto prazo, como já está acontecendo. Um barril de petróleo a 130, 150 ou 200 dólares não é bom para ninguém, exceto para Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuwait, e a própria Rússia.

Então, quais são os desfechos possíveis para o que está acontecendo? Na minha opinião, tudo está nas mãos de Putin. As tais sanções econômicas não farão muita diferença, porque já eram previstas e a Rússia já se preparou para elas. E como disse um comentarista que acabei de ler, “se o povo russo precisar sobreviver apenas de batatas, isso não será novidade para eles”. O maior erro do ocidente, ao meu ver, é justamente essa “inocência” sobre o que é uma guerra de verdade. As pessoas estão tão acostumadas com o mundo confortável do Netflix que não conseguem enxergar o que está acontecendo no mundo real. Basta dizer que eu já vi no Facebook pessoas pedindo doações para ajudar cães e gatos “em situação de rua” na Ucrânia. Viciado em viver em uma realidade paralela onde tudo é fofinho e politicamente correto, o cérebro dessas pessoas é simplesmente incapaz de compreender que na guerra cães e gatos costumam virar comida.

Dito isso, basicamente são estes os caminhos possíveis para o futuro:

Cenário 1 – Milagre

Neste improvável cenário, a resistência ucraniana, abastecida com armas e suprimentos fornecidos pela OTAN, mantém a resistência contra o exército russo por tanto tempo que Putin, lembrando-se do Afeganistão dos anos 80, desiste da guerra e chama as tropas de volta. Os políticos ocidentais se enchem ainda mais de populismo e proclamam que os méritos são deles. Boa parte do povo acredita.

Para isto virar realidade, seria necessária uma fantástica capacidade de lobby dos fabricantes de armas para convencer os governos da Europa e EUA a fornecer armas para a Ucrânia e pagar a conta, que não seria pequena.

Cenário 2 – Todos perdem

A Rússia não desiste e continua a mandar soldados e tanques para a Ucrânia, com um custo cada vez maior. Os ucranianos adotam táticas de guerrilha e atacam os russos, que em represália adotam a estratégia da terra arrasada. Depois de um ou dois anos, a Rússia toma posse da Ucrânia, que a essa altura é apenas um inútil e improdutivo monte de escombros.

As tentativas de sanções econômicas levam o preço do petróleo, do gás e da eletricidade às alturas e quebram os países europeus, que além disso terão milhões de refugiados para sustentar. A Rússia é obrigada a vender seu petróleo para a China, o que também não é bom negócio. O chamado “complexo industrial militar” aproveita a situação para tirar alguns bilhões ou trilhões de euros da União Européia, aproveitando o medo de novas guerras (já está acontecendo na Alemanha). O único país que se dá bem neste cenário é a China.

Cenário 3 – Vitória

Na minha opinião, o cenário mais provável: a guerra dura mais um mês ou no máximo dois. O presidente ucraniano, sabendo que sua vida não vale mais nada, tenta salvar sua biografia e morre dentro do palácio presidencial cercado pelos inimigos (pelo menos na versão divulgada pela imprensa). A parte oriental da Ucrânia (Donetsk, Luhansk e talvez alguma coisa mais) é anexada à Rússia e o restante fica sob um governo amigo, aos moldes da vizinha Belarus. Com o fim dos combates, o restante da Europa tenta esquecer tudo o mais rapidamente possível e fingir que tudo continua exatamente igual ao que sempre foi. Os políticos simplesmente não tocam mais no assunto, com exceção de Trump, que começa sua campanha para a eleição de 2024.

Cenário 4 – A nova Cortina de Ferro

Após uma vitória fulminante na Ucrânia, Putin se anima e resolve restaurar a antiga “zona de influência” dos tempos soviéticos. Após algumas “negociações amigáveis”, os governos da Romênia, Moldávia, Hungria, Eslováquia e Bulgária assinam acordos com a Rússia e passam a seguir as ordens de Putin. Falta a Polônia, onde a oposição popular é grande. Tropas russas voltam a se acumular nas fronteiras e a Europa começa a contar os dias para uma nova guerra, quer dizer, “operação militar especial”.

Cenário 5 – Terceira Guerra Mundial

Mais improvável que o cenário 1, uma guerra entre a Rússia e a OTAN só pode acontecer por acidente (uma incompetência russa derruba um avião comercial, por exemplo, como já aconteceu na época da guerra da Criméia) ou se Putin, embriagado pela vitória (ou pela vodka), perder completamente o discernimento e resolver atacar os países do Báltico ou mesmo a Finlândia, obrigando o ocidente a reagir.

Um adendo sul-americano: nos cenários 2, 3 ou 4, é perfeitamente possível que a Rússia aproveite a bunda-molice do Ocidente e decida instalar-se na Venezuela, onde com algum investimento é possível obter bastante lucro. A indústria petrolífera de lá precisa ser reconstruída, o que cria boas oportunidades para empresários bem relacionados com o governo, e as reservas prometem décadas de bom faturamento pela frente. Os demais países da América do Sul provavelmente se limitarão a fazer discursos inflamados e ameaças vazias.

4 pensou em “O QUE VAI ACONTECER COM A UCRÂNIA

  1. Excelente análise Marcelo. Se me permite vou inserir uma opção a mais:
    É possível que o ponto mais importante para Putin nesse momento seja mesmo afastar a possibilidade da Otan na fronteira da Rússia com a Ucrânia. Sob esse ponto de vista, uma solução negociada para o conflito seja viável. Também acredito que ele subestimou a capacidade de resistência da Ucrânia e não esteja mais disposto e levar essa situação ao extremo. A negociação seria interessante para ambas as partes. Talvez eu esteja sendo otimista demais?
    Já com relação a Venezuela acho que é irreversível. Maduro não vai perder a chance de aproveitar o momento para se fortalecer… Péssimo para nós porque seu regime tende a se prolongar.

    • Felipe, eu acho que a “solução negociada” que Putin quer é a submissão da Ucrânia. Afastar a OTAN é apenas a desculpa oficial. Qualquer negociação que chegue a esse resultado será uma vitória do jeito que Putin quer.

      Mas também pode não acontecer nada disso, porque eu sou só um reles pitaqueiro, e guerra é uma coisa que todo mundo sabe como começa mas ninguém sabe como termina.

  2. Meu caro Marcelo. Concordo com a opinião do Felipe acima, mas seria mais abrangente saber “o que vai acontecer com o mundo”, com tanta estupidez.

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