O QUE ESTE PAÍS QUER SER QUANDO CRESCER?

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. ”

MAR PORTUGUEZ – Possessio Maris

I. O INFANTE – Fernando Pessoa

Eles não sabem, nem sonham,
Que o sonho comanda a vida,
Que sempre que um homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos de uma criança.

PEDRA FILOSOFAL – in Movimento Perpétuo, 1956 – Antônio Gedeão

O que é que este nosso conturbado país quer ser quando crescer? Não sabemos!

Somos duzentos e dez milhões de brasileiros à deriva. Maré me leva, maré me traz!

Vivemos ao sabor das correntes e dos ventos, sempre caprichosos e momentâneos. Qualquer coisa que planejemos para além do carnaval já é considerado “Longo Prazo”. A grande verdade é que NÃO TEMOS SONHOS!

Desdenhamos solenemente a poderosíssima força oriunda desta usina de realizações humanas.

Parafraseando o sempre presente Fernando Pessoa, “nada na alma nos diz mais que a lição de raiz de termos por vida a sepultura”.

Precisamos urgentemente de um novo Martin Luther King para nos dizer em voz tonitruante: I HAVE A DREAM! E nos liderar em direção à realização deste sonho sonhado, como todo bom e grande líder, na realidade grandes vendedores de sonhos, costuma fazer.

Nossa carência de um “Sentido para a vida” (Apud Frankl) é tão pungente que bastou o canalha vermelho acenar com o mal explicado “sonho” comunista, muito mais um pesadelo e uma distopia que um sonho na realidade, para que multidões ávidas por um sentido para a nossa nação, qualquer sentido, embarcassem irrefletidamente nas hordas de seguidores deste novo “Flautista de Hamelin” tropical.

Para os que não se lembram da fábula, era uma cidade infestada por ratos. Um homem chega, vestido com roupas de gaiteiro (um caleidoscópio de cores), e se oferece para livrar a cidade dos roedores. Os aldeões concordam em pagar uma grande soma de dinheiro se o flautista puder fazer isso – e ele faz. Ele toca música em sua gaita, o que atrai todos os ratos para fora da cidade. Quando ele retorna para o pagamento, os aldeões não pagam o combinado. Então o gaiteiro leva todas as crianças da cidade também.

Nas suas mais modernas variantes, o flautista atrai as crianças a uma gruta fora da cidade e quando os aldeões finalmente concordam em pagar, ele manda-as de volta. No original mais sinistro, o flautista levava as crianças a um rio, onde todos elas se afogavam, exceto um rapaz coxo que não pode acompanhá-las.

Em nosso caso presente, ficamos com a versão muito mais SINISTRA (esquerda em italiano e demoníaca, segundo a tradição árabe) e aterrorizante: pagamos um preço altíssimo ao demoníaco encantador de multidões e, mesmo assim, todas as nossas crianças foram afogadas num mar de ignorância crassa, de imbecilidades ideológicas altamente atrofiadoras de qualquer possibilidade de raciocínio HUMANO e soterrados numa verdadeira Sodoma e Gomorra de devassidão moral cuja recuperação é dificílima.

O epitáfio deste assassinato moral de toda uma geração seriam as premonitórias estrofes de Augusto dos Anjos, em seu poema do início do século passado, e que descrevem com precisão absoluta o desastre da nossa nação:

É a dor da Força desaproveitada,
– O cantochão dos dínamos profundos,
Que, podendo mover milhões de mundos,
Jazem ainda na estática do Nada!

O LAMENTO DAS COISAS – Augusto dos Anjos

Precisamos urgentemente de líderes que sonhem durante o dia e de olhos abertos. E não só isso! Precisamos também que “vendam” esses sonhos a nossa população, toda ela ávida por esta matéria prima tão valiosa. Quando toda a nossa população, ou pelo menos grande parte dela, estiver impregnada por este sonho comum, poderemos ter certeza de que começamos a realiza-lo. Cedo ou tarde, tudo aquilo que sonhamos se transforma em realidade.

Os exemplos que corroboram este entendimento abundam:

A grandeza dos Estados Unidos teve início com algo que passou a ser conhecido como “O Sonho Americano”. A condição privilegiada usufruída pelo Japão entre as nações teve início ao tomarem uma ducha de realidade, logo ao final da guerra, quando se conscientizaram que aquela visão de hegemonia militar sobre o leste asiático era apenas um delírio de militaristas autoritários. Que a verdadeira missão do Japão era dar exemplo de nação ordeira, trabalhadora, disciplinada e altamente realizadora, mesmo enfrentando as piores condições de vida possíveis. Isso sim seria o verdadeiro BUSHIDO, ou a ética de lealdade e de honra samurais.

A “bola da vez” agora é a China. O sonho de Mao Tse Tung, complementado pelas correções de rumo efetuadas por Deng Chiao Ping, está tornando possível rapidamente que aquela imensa e bela nação saia de uma situação totalmente subalterna em relação às grandes potências mundiais, para uma nova condição de liderança absoluta entre as nações de todo o mundo. Até o nome das suas empresas reflete este estado de espírito.

Fábrica da BYD (Build Your Dreams) – Shenzen – maior fabricante de veículos elétricos do planeta e símbolo daquilo que a China deseja ser, ou já é, quando crescer.

E nós brasileiros, o que podemos aprender com tudo isso? Aonde estamos querendo chegar? O que queremos ser em um futuro próximo? Qual o papel que queremos desempenhar entre as nações do mundo? O que teremos de fazer para chegar a esta situação almejada? Não sabemos!

Decididamente, o que não queremos é continuar a seguir as promessas enganadoras de charlatães e demagogos, ladrões até o mais íntimo de suas almas, e que ficam prometendo aos incautos de nossa sofrida população o paraíso a partir da distribuição das riquezas amealhadas por outros que trabalharam arduamente para consegui-las, e para a qual esta choldra de calhordas em absolutamente nada contribuiu para criar.

Precisamos urgentemente definir qual seria “O SONHO BRASILEIRO”. O que queremos ser quando crescer.

Apenas ser contra a canalhice acachapante não é suficiente para nos tirar do marasmo em que estamos.

6 pensou em “O QUE ESTE PAÍS QUER SER QUANDO CRESCER?

  1. A famosa “bosta n’água”…sem destino, sem rumo e a mercê de uma justiça injusta que protege poderosos e lasca os mais pobres. Acho que temos sonhos, não apenas um como Luther King, mas eles ficam distantes pela falta de oportunidades ou pelas oportunidades destinada a uns poucos.

  2. A frase nem é de um brasileiro, mas acho que cabe perfeitamente:

    “Todos tem como objetivo viver às custas de seus pais até o dia em que possam viver às custas de seus filhos.”

  3. ***
    Sempre reverencio quem cita Augusto.
    É preciso coragem para ler e aceitar a poesia dele. Não por acaso ele nasceu em Sapé/PB (segundo dizem) um lugar onde a luxúria e a decomposição das coisas são potencializadas pelo solo fertilíssimo da região. Daí o pasmo de vê tanta riqueza desperdiçada.
    Outro paraibano de Brejo do Cruz no semiárido da paraíba, José Ramalho Neto (Zé Ramalho), respondeu na linda canção “Filhos do Câncer” porque não adianta só ter um sonho.
    “Se fosse fácil todo mundo era
    Se fosse muito todo mundo tinha
    Se fosse raso ninguém se afogava
    Se fosse perto todo mundo vinha”…
    *

  4. Qiem tem sonhos como o Adonis merece aplausos nesta gazeta. Ao contrário do Goiano que só traz o pesadelo dos vermeios.
    Mas só acrescentar que na China quem mata pai e mãe ganha uma bala na cabeça e não o direito a saidinha da cadeia e não vira roteiro de filme como a Suzane Von..etc.

  5. O texto do professor Adonis, como sempre magnífico.

    Os textos dos comentaristas acima, são de primeira linha,
    repletos de inteligência e sabedoria.
    ´E um grande prazer para mim , depois de apreciar um inteligente artigo,
    ler os comentários de pessoas tão credenciadas , que demonstram
    o seu preparo intelectual e muito bom gosto.
    A este modesto comentarista, só resta aplaudir.

  6. Prezados Amigos,
    Considero um grande privilégio poder contar com um círculo de comentaristas desta envergadura.
    Muito obrigado pelos comentários relativos às minhas mal traçadas linhas.
    Desejo-lhes todos um grande ano de 2020.

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