O PROTESTO

Mailson da Nóbrega, economista brasileiro, exerceu o cargo de Ministro da Fazenda, no governo de José Sarney, no período da hiperinflação, em fins dos anos 1980. Foi sucedido por Zélia Cardoso de Mello.

Manuel Manu era Auxiliar de Serviços Gerais, de uma Secretaria do Rio Grande do Norte. Gostava de beber e faltava muito ao serviço. Era protegido do Chefe e por isso ainda não tinha perdido o emprego. Tinha pouco estudo e muita pose, por ser casado com uma jovem bem nascida. Apesar disso, sempre foi péssimo marido e pai, mas a mulher era apaixonada por ele e não aceitava os conselhos da família para que se separasse.

Manuel Manu, como ASG, ganhava um salário mínimo. O sogro era quem cobria as despesas da filha e do neto.

Certo dia, quando começou a gestão de um novo Secretário, o expediente da manhã, naquela Secretaria, começou agitado. Sentia-se no ar uma certa confusão, e ouviam-se vozes alteradas.

O novo Secretário foi avisado de que Manuel Manu, Auxiliar de Serviços Gerais, munido de um megafone, estava incitando os seus colegas de trabalho a fazerem greve, para terem aumento de salário. Protestava contra o fato dos Auxiliares de Serviços Gerais do Estado do RN ganharem um salário mínimo, enquanto o Ministro da Fazenda, Mailson da Nóbrega, do Governo do Presidente José Sarney, ganhava uma fortuna. Tinha em mãos um jornal, onde estavam estampados os vencimentos do Ministro da Fazenda,

Na verdade, havia se instalado um movimento de protesto dentro da repartição, entre os Auxiliares de Serviços Gerais. Manuel Manu era um tipo moreno, barba por fazer e pose de líder.

O Secretário, então, mandou chamar Manuel Manu em seu gabinete, para uma conversa.

Visivelmente alcoolizado, o ASG entrou no Gabinete do Chefe, encarando-o com altivez e achando-se cheio de razão.

Dr. Abdias dos Santos, o novo Secretário, com a ironia que lhe era peculiar,dirigiu-se ao ASG:

– Bom dia, Manuel Manu! Antes de tudo, quero lhe dar os parabéns, por saber que você foi colega de bancos escolares do Ministro da Fazenda, Dr. Mailson da Nóbrega!!! Então, você tem Curso superior de Ciências Econômicas, igual a Mailson da Nóbrega! Quero ver o seu Diploma de |Nível Superior!!!

Gaguejando, Manuel Manu respondeu:

– Não, Dr. Abdias! Eu nem conheço o Ministro Mailson da Nóbrega, Nunca estudei com ele, nem sou formado em coisa nenhuma. Nem o ginasial eu terminei. Nunca gostei de estudar…

Dr. Abdias respondeu:

– E como você quer ganhar igual ao Ministro Mailson da Nóbrega??? Vá estudar, Manuel! E acabe imediatamente com essa algazarra, se não quiser perder o emprego.

Manuel Manu saiu do gabinete do Secretário, murcho e cabisbaixo. Imediatamente, o protesto terminou.

2 pensou em “O PROTESTO

  1. Violante.

    Parabéns pela excelente crônica. Veio a minha memória a expressão “não vá o sapateiro além do sapato”, usado para alertar as pessoas a evitarem emitir ou transmitir algum julgamento que comporte conhecimento além de sua especialização. Transcrevo, abaixo, o texto que supostamente deu origem a referida expressão.

    “NÃO VÁ O SAPATEIRO ALÉM DO SAPATO

    Conta a História que Apeles, célebre pintor grego da antiguidade, tinha o hábito de expor os seus quadros ao público e se esconder para escutar os comentários sobre o seu trabalho. Um dia, expôs um quadro com a figura de uma mulher. Passado um tempo, a costureira da aldeia vendo o quadro parou, olhou e comentou:

    – Que maravilha de retrato, que mãos maravilhosas, que coisa mais perfeita. Só um pequeno retoque a fazer na roupa, o botão de cima está muito perto do queixo, com dois botões seria muito melhor.

    (…)
    Apeles, escondido, logo anotou o que a costureira tinha comentado.
    Em seguida, veio o cabeleireiro. Vendo o quadro, teceu elogios ao conjunto da obra, mas observou:

    – O alfinete do lado esquerdo do penteado deveria estar um pouco mais para trás, isso deixaria o retrato perfeito.

    Apeles, sempre atento, ia tomando nota de tudo o que escutava.
    Por último, chegou o sapateiro, que ficou boquiaberto com a beleza da pintura, e comentou:

    – Eu colocaria fivela nos sapatos e, então, poder-se-ia dizer que o quadro está perfeito.

    Tudo anotado, Apeles saiu do seu esconderijo, embrulhou o quadro e foi para a sua casa retocar a pintura, tendo o cuidado de seguir os conselhos dos três profissionais observadores. No outro dia, voltou a expor o quadro.
    A modista e o cabeleireiro, vendo juntos a pintura retocada, exclamaram:

    – Nada mais temos a dizer. Impecável!

    O sapateiro chegou, olhou atentamente o quadro e comentou:

    – Os sapatos ficaram ótimos com a mudança, mas o vestido…

    Ouvindo isso, Apeles saiu enfurecido do seu esconderijo e, interrompendo o sapateiro, gritou:

    – Não passes além dos sapatos!

    Esta frase, atribuída a Apeles, se transformou na máxima latina “Ne sutor ultra crepidam judicaret” (Não deve o sapateiro julgar além da sandália), que nos alerta sobre a necessidade de termos consciência dos nossos próprios limites. Resumindo: Ninguém deve se enxerir sobre algo que não entende ou lhe diz respeito.”

    Saudações fraternas,

    Aristeu

  2. Obrigada pelo gratificante comentário, prezado Aristeu Bezerra! Realmente, há pessoas que não conhecem seus limites, e se acham no direito de opinar sobre coisas que não são da sua alçada. No caso em apreço, um simples ASG, apenas alfabetizado, ganhando o salário mínimo. achava-se merecedor de uma remuneração idêntica a do Ministro da Fazenda, na época, o Economista Mailson da Nóbrega, Com a chamada que o Secretário Abdias dos Santos lhe deu, caiu na realidade e deixou de protestar.
    Sou fã da história de APELES, célebre pintor da Grécia antiga (século IV A.C), que se destacava pelo seu grande senso de humor, e que você descreveu com perfeição. Segundo a História, partiu dele o inteligente provérbio: “SAPATEIRO, NÃO VÁS ALÉM DE TUAS SANDÁLIAS”.

    Um abraço e um feliz fim de semana!

    Violante Pimentel

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