GOIANO BRAGA HORTA - ARCO, TARCO E VERVA

Assim como entre meus leitores, encontro em conversas com pessoas das minhas relações as que me acusam de torcer contra o governo de Jair Bolsonaro.

Acreditam que os que a ele se opõem deviam ser patriotas e não ficar querendo que dê tudo errado.

Apelam para para que tenhamos pensamento positivo e construtivo e vejamos os bons resultados que já estão sendo obtidos, como a reforma da previdência, a redução da criminalidade, a corrupção zerada, a diminuição das taxas de juros, as privatizações ou concessões e outras realizações tidas como vitórias do governo para tirar o Brasil do buraco.

Observo, a esses, que essa tentativa de nos envolver com esses argumentos é absolutamente raso e pueril.

Nossa divergência com o, digamos assim, bolsonarismo, não tem a ver com o sucesso econômico do governo, tem a ver com o modelo econômico do novo-liberalismo, que toma o Estado não como um agente da justiça social, mas como o fator primordial da política de resultados do livre-capitalismo.

A concentração da política econômica em fazer caixa, a todo custo, ignora o sacrifício social de medidas de redução de direitos do trabalhador – diminuição de conquistas e redução de vantagens a duras penas conseguidas dentre elas, aposentadoria, pensão, licenças, jornada de trabalho, vínculo de emprego.

O servidor público volta a ser visto como um nababo, a caça aos marajás retorna no discurso para dizer que trata-se de uma casta que ganha salários absurdamente altos e goza de direitos exagerados – é preciso, também a ele, cortar-lhe vantagens, reduzir-lhe a remuneração e, para que fique completamente submisso à autoridade, não deve mais ter estabilidade no emprego.

A política de um estado voltada para resultados absolutamente capitalistas, com o afastamento dos compromissos sociais mais básicos, leva à riqueza da casa grande e senzala, o país cada vez mais rico e a população chupando manga sem poder beber leite.

Não bastasse a questão econômica, privilegiando o florescimento do capitalismo descontrolado – o Estado ausente no controle das atividades do capital – temos o florescimento das ideias mais retrógradas possíveis, que pensávamos ter derrubado com os avanços da civilização e a adoção de filosofias e atitudes humanistas.

Nesse sentido, prega-se a patriotada, o religiosismo e a ideia da família tradicionalista, sem lugar para o que consideram “excrescências” dos costumes: toda liberalidade será amaldiçoada.

Oficializa-se o combate da violência mediante o uso da violência, dissemina-se a ideia de que bandido bom é bandido morto, estimula-se o povo a voltar-se contra o poder judiciário para que o endurecimento do combate ao crime desrespeite as leis; cria-se o sentimento de que a população deve armar-se para garantir sua própria segurança.

É a idealização do Brasil do faroeste sem lei, com aqueles julgamentos sumários e linchamentos – cada um com um revólver na cintura e salve-se quem puder na corrida em busca do ouro.

Uma sociedade de Seleções do Reader’s Digest em seus corações, a idealização máxima do “american way of life”, é instilada no imaginativo e aspirações do povo, onde famílias são papai, mamãe e filhinhos homens de azul e mulheres de cor-de-rosa, indo religiosamente à igreja aos domingos, hasteando a bandeira verde-amarela e cantando comovidos o hino nacional como gozo supremo, afastada de corações e mentes qualquer imagem relacionada ao divergente, à realidade da pobreza sem mesa, à miséria.

O aprisionamento ao perfeccionismo utópico criado a partir da educação militarizada e de valores e moral vitorianos são anunciados como a salvação, para cujo enfeitiçamento funcionam chavões apelativos ao nacionalismo e à Divindade.

Porém, consideremos, vida não é um quartel, a família não é risonha e franca, o mundo não é bicolor.

É preciso enfrentar a dureza da realidade com a ampla, geral e irrestrita intervenção social do Estado.

Deixe uma resposta