ARISTEU BEZERRA - CULTURA POPULAR

O poeta pernambucano Emídio de Miranda (1897 – 1933), boêmio por excelência, declamava seus versos a qualquer hora, pois a poesia corria em suas veias. Muito cedo começou a fazer versos e a beber, entregando-se pouco a pouco ao alcoolismo. Entretanto, apesar disso, Emídio era muito benquisto por ser um homem respeitador, bem relacionado, feições nobres e vasta cabeleira que usava ao estilo Castro Alves.

Certa vez, estava com vontade de tomar uma dose de bebida. Dirigiu-se ao bodegueiro da cidadezinha do interior, que era gordo (barrigudo mesmo!) e expôs o seu desejo, adiantando que não portava a importância correspondente ao pagamento da bebida.

O comerciante vaidoso, que há muito desejava um elogio em versos do poeta, disse-lhe: “Faça um soneto dedicado a mim e não pagará nada”. Emídio de Miranda não hesitou e, imediatamente, recitou um poema criativo, surpreendente e belo:

A UM BURGUÊS

Tu, ventrudo burguês analfabeto,
Escultura rotunda da irrisão
Para quem o viver mais limpo e reto
Consiste em ser devoto e ter balcão;

Tu, que resumes todo o teu afeto
No dinheiro, – o metal da sedução –
Pelo qual negociarás abjeto
Tua esposa, teu lar, teu coração,

Escuta, ó ignorantaço, o que te digo:
Esse ouro protetor, que é teu amigo,
Que te deu o conforto de um paxá,

Pode comprar qualquer burguês cretino;
Mas a lira de um vate peregrino
Não compra, não comprou, não comprará.

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