O MUNDO VIRTUAL

Recebi, neste final de ano, correspondência de uma associação beneficente pedindo ajuda material para mantê-la em atividade. Ao enviar o ajutório o contribuidor ficaria habilitado a acender uma vela que o credenciaria a pedir uma indulgência ao santo protetor da entidade.

O fato inusitado nesse processo consistia em não haver deslocamento para atiçar o lume, porque esse seria ligado por um simples toque de celular do doador, não importando a distância que o separasse do círio eletrônico.

Facilitar a vida do indivíduo é a tônica do momento. E já sentimos a mudança comportamental decorrente de novos procedimentos e costumes inseridos no nosso cotidiano. Num primeiro instante apareceu o computador e, em seguida, a internet. Criados como artifícios corporativos esses elementos em duas décadas assumiram a condição de acessórios particulares indispensáveis.

Aliados à telefonia celular, eles interagiram e se aproveitaram da boa receptividade de quem os possuía. À medida que a união umbilical com essas engenhocas eletrônicas se consolidava, nós nos transformávamos em miseráveis dependentes de uma virtualidade incurável.

Imaginar o espanto de quem viu a carroça ser substituída pelo carro ou com o movimento do trem sobre trilhos; de constatar a voz humana percorrendo um fio de cobre ou visualizando um avião suspenso no ar nos daria a proporção exata do sentimento que nos incomoda hoje.

A velocidade das mudanças nos deixa desnorteados e num permanente estado de perplexidade, digerindo a latente sensação de ansiedade quanto ao desfecho de tudo isso.

Geração de economia e ganho de tempo são os combustíveis dos motores que deflagram essas mudanças chamadas progresso. Algumas condutas até então indissociáveis do nosso dia a dia estão perdendo a utilidade e sumindo sem que percebamos. Tudo em nome do menor custo e da agilidade que requer a adequação aos novos tempos.

Um exemplo é o cheque – o dinheiro de plástico tomou o seu lugar. Outra vítima é o telefone fixo – em nome da praticidade está amargando o desuso. O livro também consta desse rol, pois em breve será motivo de curiosidade nos acervos de bibliotecas centenárias ou relíquias de abnegados defensores da leitura no papel.

O cheiro da tinta nas letras do jornal impresso já foi substituído pela luminosidade irritante projetadas em telas de computadores. Os Correios contam os dias para o sumiço definitivo de atividades que o caracterizaram por um terço de milênio. Cartas e telegramas foram substituídas por e-mails e por contatos de viva voz.

Das múltiplas perdas registradas pelo avanço do progresso, a da privacidade é a que mais denota preocupação. A exposição de parcela da humanidade nas redes sociais causa desassossego. Pelo caminhar das inovações nem os mais primitivos comportamentos individuais ficarão longe do alcance da bisbilhotice.

No século XIX as locomotivas, o telégrafo e o telefone encolheram o mundo. No século XX a televisão, o avião e a informática o globalizaram. Na atualidade, a internet e a telefonia celular puseram-no na era da nanotecnologia. E nós, os incomodados com a rapidez do progresso, fazer o quê? Nada! Somente aguardar silente as surpresas tecnológicas programadas para 2020.

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