MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Para os brasileiros que amam o estado (a maioria), “Suécia” é uma espécie de palavra mágica, que serve de comprovação para qualquer teoria do lado progressista. Cita-se a Suécia para provar que impostos são bons (e quanto mais altos, melhor), para provar que é possível um governo dar tudo de graça para todo mundo, e até para provar que “o socialismo funciona”. Na prática, a maioria dos que usam esse tipo de argumento não consegue achar a Suécia num mapa, quanto mais apresentar fatos concretos sobre ela. Vejamos alguns dos mitos mais comuns:

A Suécia é socialista?

Não. A Suécia é capitalista, o respeito à propriedade privada é absoluto, a facilidade de comércio é enorme (incluíndo comércio exterior) e qualquer um pode abrir uma empresa privada sem precisar obedecer a planejamentos estatais. Mais ainda: em uma pesquisa de alguns anos atrás, 42% dos norte-americanos disseram ter “uma visão positiva” do socialismo. Na Suécia, esse número foi de 9%.

A Suécia enriqueceu com um estado grande?

Não. A Suécia enriqueceu entre as décadas de 1870 e 1910, graças a uma política liberal que aboliu as antigas guildas, desregulamentou os negócios e o setor financeiro e abriu o comércio para o exterior. Neste período, o PIB per capita aumentou 2% ao ano, e os gastos públicos não ultrapassaram 10% do PIB. Vieram as duas guerras mundiais, das quais a Suécia saiu praticamente ilesa. Mas após a 2ª guerra, uma onda de socialismo varreu a Europa, e desta desgraça a Suécia não escapou.

Em 1960 o partido social-democrata iniciou a montagem do “estado de bem-estar social”, com o estado tomando o controle da educação, da assistência à saúde e das aposentadorias, e oferecendo generosos benefícios como seguro-desemprego, licenças maternidade e paternidade e creches gratuitas. Em 1980 os gastos públicos alcançaram 60% do PIB, e como os impostos sozinhos não conseguiam pagar a conta, o governo imprimia dinheiro, gerando inflação. A economia ficou paralisada. Para fugir dos impostos cada vez maiores e da interferência cada vez maior do governo, empresas importantes como a Ikea e celebridades como o tenista Bjorn Borg e o cineasta Ingmar Bergman fugiam do país.

Em 1990 tudo despencou rapidamente. O desemprego aumentou. O déficit orçamentário chegou a 11% do PIB. O país não conseguia mais rolar a enorme dívida feita para sustentar os quase infinitos benefícios. Felizmente, os políticos de lá não são suicidas como em outros países, e houve consenso para mudar o rumo da economia. As despesas do governo foram reduzidas em mais de 30%. Uma lei estabeleceu uma meta de superavit. Estatais foram privatizadas, as pesadas regulamentações foram extintas, o número de funcionários do governo foi reduzido. O tamanho do governo hoje é similar aos demais países da Europa.

Infelizmente, décadas de controle estatal sobre a educação deixaram sua marca: os suecos ainda adoram e desejam um estado grande e generoso, e poucos desejam empreender. A economia está estabilizada, mas pouco dinâmica. Tomando como exemplo o setor de veículos, que já foi um orgulho nacional: a Saab abandonou a fabricação de automóveis, e a Volvo automóveis e a Scania não são mais suecas.

Em resumo: a Suécia enriqueceu com um estado pequeno e um estado grande quase destruiu toda esta riqueza.

Os suecos são incorruptíveis?

Não. Embora o governo funcione de modo muito melhor do que a maioria dos países, a “generosidade” estatal corrompeu a ética de trabalho no nível individual. A proporção de suecos que disseram que é aceitável mentir para obter benefícios do governo aumentou de 5% em 1960 para 43% em 2000. É recorrente na imprensa a constatação de que as faltas ao trabalho por motivo de doença disparam em vésperas de feriados ou em dias de jogos importantes ou shows de artistas famosos.

A Suécia cobra imposto sobre herança?

Não. Na loucura socialista dos anos 60/70, o imposto sobre herança chegou a ser de 70%. Em 2004, esse imposto foi abolido por votação unânime no parlamento sueco, por ser considerado inconveniente no aspecto social e inútil no aspecto financeiro.

A Suécia cobra imposto sobre grandes fortunas?

Não. Aliás, o sistema tributário sueco é pouco progressivo. Enquanto nos EUA, por exemplo, os 10% mais ricos pagam 45% do total arrecadado de imposto de renda, na Suécia os 10% mais ricos contribuem com apenas 25% do total. Além disso, boa parte da arrecadação vêm de imposto sobre consumo, onde o rico e o pobre pagam a mesma alíquota. Nas palavras do jornalista Johan Norberg, “O sistema tributário não é construído para espremer os ricos; eles são muito poucos, e a década de 1970 mostrou que a economia é muito dependente deles. Em vez disso, a Suécia aperta os pobres. Eles são contribuintes leais, não podem pagar advogados e nunca transferem seus ativos para as Bahamas.”

O sistema público de saúde da Suécia é o melhor do mundo?

Não. Na verdade, não é nem mesmo um dos melhores da Europa. Por ser totalmente estatal, o sistema de saúde da Suécia é caro e burocrático. No mais recente relatório da organização Health Consumer Powerhouse, que analisou 35 países europeus, a Suécia ficou em 4º lugar em gasto por paciente e em último lugar no quesito “rapidez para marcar uma consulta”. Vale lembrar que, ao contrário do que muitos brasileiros acreditam, os sistemas de saúde da Europa não são todos estatais. Na Suíça e na Holanda, os dois melhores colocados no relatório da HCP, o sistema se baseia em planos de saúde privados, com livre concorrência e com o mínimo de interferência estatal.

A educação da Suécia é totalmente pública?

Não. A Suécia adota um sistema de “voucher” onde os pais escolhem livremente a escola para seus filhos e a mensalidade é paga pelo governo, não importando se a escola é pública ou privada.

5 pensou em “O MITO DA SUÉCIA

  1. Quando falamos do fracasso do comunismo/socialismo, os esquerdistas têm sempre duas respostas:
    a) “Não foi implantado corretamente”
    b) “Deu certo na Suécia”

    Os desavisados eventualmente acreditam. Nem têm ideia de onde vêm a Volvo, Astra, ABB, Ikea, Ericsson, Electrolux, H&M, Skype, Spotify…

    O maior inimigo do socialismo/comunismo tem nome: a realidade.
    (Não lembro o nome do autor)

    “Estamos caminhando para o socialismo, um sistema que, como se diz, só funciona no Céu,onde não precisam dele, e no Inferno, onde ele já existe.”
    Ronald Reagan

  2. Nosso “sueco” Marcelo, um cabra que não tem “medo de ser feliz”, desconstroi mais uma falácia socialista, o mito da Suécia abraçada aos ideais comunistas, etc, etc, etc… Nem a bandeira sueca possui cores em “rojo”, caríssimos…

    Estamos de saco cheio de DESINFORMAÇÃO… Por isso estamos sempre neste JBF, onde mestres na arte do bem escrever, como Marcelo, dão aulas gratuitas…

    Copio parte de comentário do DECO: Cancelei minhas assinaturas de jornais impressos(…)

    Era viciado em noticiários. Não valem mais nada para mim.

    Hoje, seleciono, principalmente na internet, o que ler e os sites, tais e quais o nosso JBF.

  3. Eu passei um relatório pra um grupo de amigos mostrando como o Brasil estava em relação a outros paises em liberdade econômica. O único comentário que fizeram foi: porra como se cobra imposto no Brasil. Dei aula pra um turma de Ciência Política, macroeconomia, e uma aluna de 18 anos criticou a liberdade econômica. Eu perguntei qual a experiência desastrosa que ela viveu ou conheceu com o “neoliberalismo”. Não tem resposta. É pura doutrinação

  4. Mestre Marcelo aprontando mais uma das suas.

    SIMPLESMENTE MAGNÍFICO!!!!!

    Este singelo artigo deveria ser reproduzido em todos os meios de comunicação do país, até que a população começasse a entender um pouco mais sobre o quanto têm sido manipulados através de mentiras repetidas infinitamente.

    Parabéns (de novo) Marcelo.

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