MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

1969 foi um ano marcado por três importantes acontecimentos.

Em abril mudei-me para Vitória, Espírito Santo, contratado por uma pequena empresa de consultoria especializada em análise e cálculo de cargas de navios no porto de Tubarão (graduei-me em Engenharia Naval), pertencente à Companhia Vale do Rio Doce, à época uma empresa estatal. Em 26 de maio um evento histórico eletrizou o planeta: nasceu minha primeira filha Cristina; quase dois meses depois, em 20 de julho um outro fato, esse de importância secundária, foi comentado no mundo inteiro: o primeiro homem pisou na Lua.

Vitória tinha dois portos de carregamento de minério de ferro: o Porto de Vitória, na entrada da cidade de Vitória, e Tubarão, o maior porto exportador de minério de ferro do mundo à época.

Carregamento de navio em Tubarão

No Porto de Vitória atracavam pequenos navios (até cerca de 8.000 toneladas de carga), enquanto que em Tubarão eram carregados navios grandes, de até 200.000 toneladas ou mais. A capacidade de carregamento de Tubarão era de cerca de 4.000 toneladas por hora em cada um dos dois carregadores, (talvez seja maior atualmente) contra cerca de 500 toneladas por hora no porto da cidade. Hoje, se não me falha o bestunto, o porto de Tubarão tem cinco carregadores.

Um belo dia, no final de 1969, em um verão abrasador, chegou um navio da distante Inglaterra, mergulhada em pleno inverno, para carregar minério. Normalmente seria destinado ao Porto de Vitória por ser um navio pequeno, de cerca de 6.000 toneladas. Acontece que aquele porto estava inoperante naqueles dias devido a obras e então o navio foi direcionado para Tubarão.

Até aí tudo bem. O navio atracou no começo da noite e o primeiro-oficial (o segundo em comando do navio) foi liberado para seus dois dias de folga. Não deu outra. Saiu do cais direto para Carapebús, a região perto de Vitória onde as gurias espertas davam plantão para aliviar os marinheiros das tensões oriundas da longa travessia oceânica.

Acontece que, devido à grande capacidade de carga de Tubarão, o navio inglês, para surpresa do Comandante, teve a previsão de completar todo o processo de seu carregamento em cerca de 3 a 4 horas, ao invés dos 2 a 3 dias que normalmente teria no Porto de Vitória. Isso significava que teria que zarpar naquela mesma noite. O Comandante, surpreendido com a situação, pediu aos agentes do navio que localizassem e buscassem rapidamente o primeiro-oficial para iniciarem a viagem de volta à Inglaterra.

Problema fácil de resolver. Os agentes sabiam perfeitamente onde o bravo súdito de Sua Majestade se encontraria: em Carapebús, claro, nos braços de alguma quenga. Acionada a Polícia Marítima, foram atrás do primeiro-oficial, prontamente o localizaram e o arrancaram do Jardim do Eden, completamente bêbado e aliviado de suas tensões e de seu dinheiro.

O Comandante, um gentleman inglês, vexado com o comportamento de seu primeiro-oficial, ordenou que o jogassem ali mesmo em cima do convés do navio para curtir a bebedeira.

A essa altura do campeonato, perto da meia noite, o carregamento estava completo, mas um pequeno descuido do operador do gigantesco carregador fez com que umas duzentas toneladas de minério a mais de carga extra fossem parar no porão do navio, algo aceitável em um navio de grande porte, mas não em um pequeno. Isso fez com que ele afundasse umas 4 polegadas a mais, o que não permitiria que ele entrasse no Rio Tamisa, na Inglaterra, que tinha limites muito rigorosos: um navio com 4 polegadas a mais de calado arrastaria sua quilha no leito do rio, podendo encalhar, e isso era inadmissível pelas autoridades inglesas. Após as devidas discussões, a Vale resolveu mandar vir uma grua do porto de Vitória para retirar as 200 toneladas extras do navio.

E o primeiro-oficial continuava roncando que nem um porco em um canto do convés.

A grua chegou por volta das 2 da madrugada e começou a retirar o excesso de carga. Um nevoeiro frio e uma garoa cobriam a região. Uma meia hora depois o nosso primeiro oficial acordou, esfregou a cara, sentiu o frio e a garoa e viu a grua descarregando minério do navio. Ora, como no Brasil só se carrega minério e na Inglaterra só se descarrega, além da presença do frio e da neblina, achou que já tinha chegado em seu país.
Não pensou duas vezes. Levantou-se ainda cambaleando, pegou suas coisas e foi saindo do navio.

O Comandante o interceptou:

– Aonde você pensa que vai?

– Vou ver minha mãe.

– Sua mãe não mora nesta zona, seu filho de uma puta. Eu sei a mãe de quem você quer ver.

E, ajudado por outros marujos a bordo, pespegou-lhe uns pescoções e o despachou para dentro da embarcação.

Até hoje, quando relembro o acontecido, tenho a leve impressão de que o primeiro oficial não havia entendido nada do que se passou!

2 pensou em “O MARUJO INGLÊS

    • É isso mesmo, Maurício. Às vezes a lógica mata. Acho que o Lula vivia de porre.
      Por exemplo, a probabilidade de você bater o carro na cidade é proporcional ao tempo que passa no cruzamento de duas ruas. Sendo assim, a atitude certa para evitar uma batida é passar em um cruzamento com a maior velocidade possível.
      Um grande abraço,
      Magnovaldo

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