A PALAVRA DO EDITOR

Os liberais de boa-fé ligaram o alerta para checar se a troca de comando na Petrobras significaria intervenção indevida do governo – especialmente na política de preços. Já os liberais de cativeiro, sempre mais rápidos no gatilho, pularam nas tamancas para decretar, maldizer e repudiar a intervenção governamental na Petrobras. Esses estão sempre à frente do seu tempo. Em janeiro de 2019 eles já estavam em fevereiro de 2021, sentenciando que chegava ao poder um novo PT vestido de Posto Ipiranga, que Paulo Guedes era fachada e não ia durar etc.

E agora não deu para disfarçar a excitação triunfal com a confirmação do vaticínio: a troca do presidente da Petrobras era a comprovação do anacronismo subpetista instalado no Planalto.

Houve só um percalço de roteiro: após os primeiros dias da decisão de substituição do presidente da estatal, ninguém tinha elementos para afirmar que se tratava de uma intervenção – nem na política de preços nem na gestão de energia da empresa. Os interessados no fortalecimento da agenda liberal continuarão atentos, examinando o desenrolar da medida presidencial. Já os acionistas do contra lamberam os beiços. Para eles, o importante era o pretexto para berrar a palavra “intervenção” e fermentar a sensação de crise. É gente que pensa grande.

Por isso é que fizeram cara de paisagem na Reforma da Previdência. É meio chato quando você está há uma década dizendo que aquela reforma é a única saída contra o colapso nacional e de repente a reforma é feita sob a condução daqueles que você diz que não prestam. É melhor mesmo fingir que não viu. Enfiar o bisturi no Estado inchado e operar um sistema previdenciário com privilégios e incongruências que sugam o sangue da sociedade… O que isso tem a ver com a pauta liberal?

Para quem enterrou a cabeça no buraco da avestruz, nada. Debaixo do chão é tudo muito escuro, só dá para ver a obsessão pelo fracasso.

As ações ininterruptas no Ministério da Infraestrutura – desde 2019 e durante a pandemia – para abrir os gargalos e remover os coágulos da produção no Brasil correspondem à agenda nacional de libertação contra os atravessadores e os inoperantes. Não é uma invenção do governo atual. Ele só entregou o setor a um comando firme e operativo. A iminente conclusão da lendária Ferrovia Norte-Sul é um símbolo desse enfrentamento direto do Custo Brasil – portanto um símbolo da agenda liberal.

E o que você vê por aí? “Liberais” por todo canto fazendo cara de nojo para tudo. Não tente explicar isso. Você vai tirar o emprego dos psicanalistas.

A equipe do ministro Paulo Guedes está buscando a inclusão da Eletrobras na pauta de reformas – que já incluíram a abertura do setor de gás da Petrobras, a venda de mais de R$ 150 bilhões em ativos e outras ações – e você só escuta murmúrios de que a privatização está lenta. Sobre os dois anos de politicagem de Rodrigo Maia fabricando manchetes amigas contra a equipe econômica você não ouviu um pio dos liberaloides de plantão.

Eles ficaram até amigos do primeiro-ministro cenográfico e sancionaram com seu silêncio a tentativa de golpe no STF para dar a reeleição inconstitucional ao presidente da Câmara dos Deputados. Os liberais de cativeiro que lideraram o chilique contra a suposta intervenção na Petrobras sonharam com mais dois anos de Rodrigo Maia sabotando as reformas – agora com apoio formal do PT. Modernidade é isso aí.

A agenda liberal no Brasil teve oportunidade de atravessar o cerco dos parasitas em meados da década de 1990 (aproveitada), em 2003/04 (jogada fora), em 2016/17 (parcialmente aproveitada) e a partir de 2019. Muitos dos que contribuíram para os resultados concretos na década de 90 estão hoje no bloco da cara de nojo: não acham graça nas medidas de desburocratização, não deram uma unha de apoio à legislação da liberdade econômica, não movem uma palha pela reforma tributária. Preferem denunciar o juízo final amazônico e o apocalipse fascista, ou vice-versa.

Os picaretas fantasiados de revolucionários, com estrelinha no peito e demagogia terceiro-mundista, você já conhecia. Agora você precisa aprender a distinguir os oportunistas de cabelo penteado e boas credenciais. Por ostentarem mais verossimilhança na suposta missão de “fazer o bem”, eles são piores que seus antecessores.

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  1. O que o Fiuza chama de liberais de cativeiro, eu aqui no JBF denomino de “Isentões”. São socialistas fabianos, gente do naipe do FHC (o líder), Dória, Amoedo, Moro, Maia (eu ainda e lembro dele). No jornalismo está cheio. É gente pior que o PT, pois se dizem prudentes e sofisticados equidistantes dos polos radicalizados, mas servem a um propósito globalista.

    O Dr. Sobral Pinto (para mim, o maior brasileiro do século XX) em seu merecido lugar ao lado Dele lá no céu deve estar orgulhoso dizendo: “esse é o meu neto”. Fiuza honra seu DNA.

  2. Além do big brother e do futebol, a diversão do brasileiro é colar etiqueta nos outros. É socialista prá cá, fascista prá lá, progressista, conservador, reacionário, liberal, terraplanista, socialista fabiano e outras mais sofisticadas.

    Tem até quem acha que chamar de isento é xingamento, quando na verdade esta apenas confessando que acredita no “quem não está comigo está contra mim”. Pensamento binário, preto-e-branco, reducionista. Coisa de torcedor fanático que acha que qualquer um que não seja corinthiano como ele só pode ser palmeirense, mesmo que seja um japonês, nigeriano ou finlandês.

    O Fiúza está certo em elogiar a área de infra-estrutura do governo Bolsonaro. Têm sido a mais bem-sucedida, entregando obras importantes. Daí a achar que todo liberal deve cair de joelhos louvando o governo vai uma grande distância.

    Liberais acham que o governo deve se meter o mínimo possível na economia. Este governo está destruindo nossa moeda com emissões de dinheiro (só Argentina e Venezuela desvalorizaram mais a sua moeda na América do Sul em 2020) e uma taxa de juros absurda. A inflação deste ano será a mais alta desde a implantação do Real, podem me cobrar em dezembro.

    Liberais querem privatizações. Bolsonaro só fala a palavra privatização para dizer “essa não, essa também não, essa outra também não, aquela lá também não”. Em dois anos não privatizou nada, e as propostas sobre a Eletrobrás e Correios não são de privatização. São puxadinhos e remendos para tentar arrecadar algum dinheiro em troca de ceder alguns pedaços para alguém explorar.

    Liberais acham que privatização significa competição e livre mercado, não colocar um monopólio nas mãos de um fundo de pensão estatal ou de uma empreiteira amiga.

    Liberais querem um país estável, com regras claras e segurança jurídica, não um presidente que fala que “vai meter o dedo no setor elétrico” ou coisa parecida a cada semana.

    Liberais ouviram na campanha promessas de fechar a EBC e extinguir a reeleição, mas desde então a EBC continua prestigiada e recebendo verbas, e a reeleição é a preocupação número 2 do governo (a número 1 é travar qualquer investigação sobre o filho 01, o 02 e o 03. Gilmar Mendes e Dias Toffoli tem ajudado bastante).

    Liberais acham que a imprensa deve fiscalizar e cobrar quem está no poder, não quem esteve anos atrás; liberais acham que bolsonaristas falando “mas e o Lula, mas e a Dilma” são iguaizinhos aos petistas falando “mas e o FHC, mas e o Aécio”.

    Liberais esperavam uma reforma da previdência séria, mas viram o presidente fazendo lobby para garantir privilégios para policiais e militares.

    Liberais queriam ver o combate à corrupção, com o nome de Lava-Jato ou não. Viram o presidente Bolsonaro acabar com o COAF e o senador Bolsonaro atuar contra a Lava-Toga no Senado, dizendo que “não era a hora” e “prejudicaria a harmonia entre os poderes”.

    Liberais queriam que os cargos no governo fossem ocupados por pessoas respeitáveis, mesmo que não fossem necessariamente liberais. Receberam Augusto Aras e Kássio Marques.

    Liberais acharam que o presidente iria explicar porque era tão importante passar por cima do ministro da justiça para trocar o chefe da Polícia Federal. Receberam explicações sobre o aquecimento da piscina do palácio e sobre o filho que pegou metade das mulheres do condomínio.

    Tem muita gente falando bobagem e torcendo pelo “quanto pior melhor”? Claro que tem. Só não sei qual o interesse em chamá-los de liberais, se nada do que eles falam tem a ver com liberalismo.

  3. Diz Guilherme Fiuza:

    “Os picaretas fantasiados de revolucionários, com estrelinha no peito e demagogia terceiro-mundista, você já conhecia. Agora você precisa aprender a distinguir os oportunistas de cabelo penteado e boas credenciais. Por ostentarem mais verossimilhança na suposta missão de “fazer o bem”, eles são piores que seus antecessores.”

    Esta frase é auto explicativa e eu concordo plenamente com ela.

    Também acho que a disputa global que existe hoje é feita em um tabuleiro de xadrez, onde só cabem dois jogadores. Ou se está de um lado ou de outro. Não há caminhos alternativos.

    • “Ou se está de um lado ou de outro. Não há caminhos alternativos”

      Certas pessoas tem uma forma de ver o mundo tão simples, tão inocente, tão pura, que não sei se fico triste ou alegre por elas.

    • No tabuleiro de Xadrez da vida há escolhas que são binárias:

      Há a liberdade ou a opressão; a verdade ou a mentira; a simplicidade das coisas ou os caminhos tortuosos, complexos e confusos; a pureza ou a sujeira, a inocência ou a culpa, a perversidade; o ensino de conhecimento ou a manipulação; a luz ou as trevas; a inteligência ou a obtusidade. a escolha ou o determinismo.

      Cada ser humano é único, responsável pelos seus atos; deve fazer suas escolhas, que nos casos acima são binárias, não há alternativas.

      Não há que ficar nem triste ou alegre pelas escolha dos outros, apenas respeitar e aceitar sua decisão.

      Eu creio que quem irá julgar minhas escolhas não está neste mundo.

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