RODRIGO CONSTANTINO

O filósofo Olavo de Carvalho morreu na noite desta segunda-feira (24) aos 74 anos. A família do escritor confirmou a notícia nas redes sociais. Carvalho estava  internado em um hospital de Richmond, no estado da Virgínia, nos Estados Unidos. A causa da morte não foi informada.

“Com grande pesar, a família do professor Olavo de Carvalho comunica a notícia de sua morte na noite de 24 de janeiro, na região de Richmond, na Virgínia, onde se encontrava hospitalizado”, diz a nota.

Várias lideranças bolsonaristas lamentaram a morte, inclusive o presidente Bolsonaro e seus filhos, além de inúmeros deputados e ministros. Olavo, afinal, foi chamado de “guru” deste governo. Na verdade, seu legado é mais profundo: ele foi um dos principais pensadores do conservadorismo brasileiro, e influenciou diversos nomes da direita nacional.

Comecei a ler Olavo pelo seu site, quando ainda era um jovem economista liberal no mercado financeiro. Era leitura imperdível, e Olavo abriu meus olhos para as ameaças do Foro de SP quando muitos no próprio mercado ainda flertavam com uma imagem falsa de Lula moderado.

Dos vários livros eu li apenas O Jardim das Aflições. Leitura instigante, em que pese eu considerar uma análise dura demais e injusta com Epicuro – mas não com seus “herdeiros” hedonistas. Nunca fui aluno do seu curso COF, mas vi alguns vídeos do programa antecessor, o True Speak.

Desde os tempos de Orkut tivemos nossas “tretas”, com altos e baixos, o que me rendeu o apelido “Cocô Instantâneo” – Olavo tinha essa mania de colocar apelidos, bem criativos. Recentemente houve uma reaproximação, e a última coisa que eu disse sobre ele, à minha mulher, foi que gostaria de visitá-lo em Virginia. Tinha certeza de que seria um encontro interessante. Essa oportunidade passou, infelizmente.

O carinho com que tanta gente inteligente e decente tem tratado o professor após sua partida é prova de seu legado, especialmente para quem realmente o conheceu. A figura pública das redes sociais era bem mais polemista, provocadora, e quem conhece Olavo somente do Twitter ou Facebook não tem noção de sua vasta cultura e sua gentileza – atestada por todos que o visitaram em sua casa.

Combativo ao extremo, claro que Olavo deixa muitos desafetos. Mas nem vale a pena mencionar o clima de ódio e júbilo nas redes sociais por parte de seus adversários, pois nenhum destes será lembrado em 15 anos, enquanto Olavo será lido daqui a cinquenta anos ou mais. Esse ódio demonstra apenas a falsidade dessa turma, que fala muito em diversidade, mas torce pela morte de seus inimigos. É algo podre, e fica apenas a constatação do fenômeno, que Olavo conhecia bem e descrevia com perfeição. “O mais desprezível dos homens é aquele que considera que a intensidade de seu ódio é prova da veracidade de sua crença”, resumiu Olavo. Muitos, incapazes de rebater seus argumentos, miravam nos ataques pessoais.

“Meu propósito não é mudar o rumo da história, mas atestar que nem todos estavam dormindo enquanto a história mudava de rumo”, escreveu Olavo. Ele sabia que, ao apontar o dedo para mudanças revolucionárias que muitos idiotas tomam como avanço da modernidade, ele seria detestado por esses idiotas. “A canalhice é a ciência mais avançada do mundo atual – opera em escala global, inclusive – e o seu resultado é justamente a multiplicação de idiotas que jamais se dão conta de sê-lo”, escreveu.

Em minha humilde opinião, o principal valor do legado de Olavo foi chamar a atenção para a guerra cultural em curso, enquanto muitos liberais focavam apenas em aspectos econômicos ou utopias libertárias. Minha guinada mesmo desse libertarianismo para um liberalismo mais conservador simboliza um despertar para esse fato, e apesar de ter tido pouca influência direta do próprio Olavo, não dá para deixar de admitir que sim, Olavo tem razão.

Que o filósofo autodidata descanse em paz! Deixo meus pêsames para seus familiares e amigos, e um atestado de que a contribuição do pensamento conservador de Olavo permanece entre nós. Como ele mesmo disse: “Todos os meus mortos queridos… eu não sinto saudade deles. Porque eles estão presentes, eles existem. Nada do que aconteceu ‘desacontece’. Aquilo que aconteceu aqui durante uma fração de segundo já está na eternidade, nunca mais volta ao não-ser”.

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