ACÁCIO SABUGUEIRO - MIOLO DE POTE

Rosa negra

Meu pai faleceu no século passado. Aliás, nasceu, viveu e faleceu no século passado. Foi batizado com o nome de Adail mas, onde morava, todos o conheciam por “Seu Dadá Sabugueiro”.

Um ser humano maravilhoso, que vivia para a família. Entre os filhos, eu, Acácio.

Homem da roça. Agricultor, desses que tem como preocupação maior a produção das comida do dia-a-dia. Adorava plantar, colher e comer feijão e milho.

Das espigas, tinha o hábito de guardar os sabugos (e nunca, nem mesmo nos momentos de lazer ou nos balanços da rede, revelava o por que daquela mania). Daí o apelido de Sabugueiro que, quase como um sobrenome, passou a acompanhar os nomes dos filhos.

Eu, Acácio. Acácio Sabugueiro. O Sabugueiro é quase uma senha para encontrar alguém da família no povoado onde nascemos, crescemos – e alguns ainda moram.

O trabalho diário do “Seu Dadá” exigia muito esforço físico. De sol à sol, “em tiriça, como cantiga de grilo” – forma de falar daquele lugar.

Flor negra

Aquele esforço medonho exigia que, após o jantar, ele quisesse usufruir de alguns minutos balançando na rede armada naquela varanda comprida, onde também eram guardados os cambitos e as cangalhas usadas nos animais. Quase sempre, naquela varanda, duas ou três redes ficavam armadas durante o dia e a noite.

Naqueles momentos do merecido descanso, “Seu Dadá” parecia viajar em pensamento. Contava histórias e estórias, provavelmente inventadas ou lembradas naqueles momentos.

Lembro bem, de uma estória que ele contou certa noite, enquanto balançava naquela rede, na varanda.

– Acácio, certa vez o seu Avô me contou, aqui nesta mesma rede o que eu nunca consegui descobrir, se era apenas um sonho ou coisa da imaginação dele. Seu Dadá iniciou a estória.

– E que estória foi essa, pai? Indaguei, torcendo para ele desembuchar.

– Ele me contou que, muitos anos atrás visitou um jardim. Um jardim muito estranho. Um jardim cheio de rosas diferentes e flores, com tulipas perfumadas e rosas, mais perfumadas ainda. Mas, o que ele contou que achou diferente, era que todas as flores e rosas eram negras. Aquela conversa me interessou, pois eu nem sabia que existia flor ou rosa com essa cor.

Mas ele contava com tanta suspense, que exigia a atenção de quem estivesse aqui nesta varanda.

Outra coisa estranha, é que ele passou a gostar de visitar aquele jardim com rosas, tulipas e tantas flores negras.

Mulher negra e cavalo preto

Mulherengo como sempre foi seu Avô, passou a frequentar aquele jardim estranho por que, quando a noite se aproximava, longe, ele contava que aparecia, também, uma linda mulher. Montava um cavalo preto e a mulher era negra e vestia preto.”

Eis que, de repente, “Seu Dadá” parou de falar.

Achei estranho que tenha silenciado repentinamente. Fui verificar. Meu pai dormia. Dormia o sono eterno.

1 pensou em “O JARDIM DIFERENTE

Deixe uma resposta