MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

Em janeiro de 1981 foi entregue à Varig o primeiro Jumbo, como era conhecido o Boeing 747, que tinha o prefixo PP-VNA.

Vários meses antes do início das operações comerciais os tripulantes da futura aeronave já eram treinados pela Varig, e a escolha do aeroporto de São José dos Campos para o treinamento de decolagem e aterrissagem, imagino eu, foi devida ao fato de que o aeroporto não tinha movimento comercial, era usado basicamente para os testes de aviões da Embraer (que ainda não fabricava jatos) e possui uma pista de 3.000 metros, mais que suficiente para testes de aviões de grande porte como o 747. Lembro-me de que por algumas vezes vi um Jumbo decolando, dando voltas sobre a região e aterrissando no aeroporto e por isso tomo a liberdade de imaginar que estavam em treinamento. Como o aeroporto ficava discretamente posicionado atrás de um terreno ainda cheio de vegetação e não havia placas de sinalização na estrada, não chamava a atenção de quem transitava pela região.

A rota de aproximação do aeroporto é perpendicular à Rodovia Presidente Dutra e a proximidade da cabeceira da pista fazia com que os aviões já estivessem à baixa altura quando passavam por cima da rodovia.

Acontece que um Jumbo 747 se aproximando da pista, pelo seu tamanho gigantesco, e ainda desconhecido pela população local, parecia muito mais próximo do solo do que realmente estava.

O que se assucedeu é que um diligente verdureiro japonês, que certamente ignorava haver um aeroporto em São José dos Campos, vinha dirigindo distraidamente sua Kombi em direção ao Rio de Janeiro, pensando em como iria pagar seu DPVAT atrasado, exatamente quando o Jumbo se aproximava para a aterrissagem.

A repentina e inesperada visão daquela monstruosa e barulhenta aeronave vindo na sua direção fez o Japa se apavorar, pensando que o avião estava caindo. Jogou a Kombi cheia de verduras para o acostamento, errou a manobra com o seu desespero e foi parar lá embaixo do terreno lateral da pista, no meio do capim.

Felizmente não houve vítimas, exceto alguns pés de alface e vários nabos e beterrabas, que tiveram que ser sacrificados.

A Polícia Rodoviária chegou logo em seguida e foi recebida por nosso personagem. Coitado do Japa: estava niponicamente descontrolado e gesticulava freneticamente, mais pálido que a bunda da Xuxa. Avisou desesperado aos policiais que tinha havido um acidente aéreo de grandes proporções logo ali perto, uma vez que quase tinha sido atingido por um grande avião que já estava rente ao solo:

– Corre diprécha, caiu um avión aqui pertinho, veio com um baruión grandón e deve tá tudo istragado com um montón de gente dentro…

O querido súdito do então Imperador Hirohito foi então acalmado pelos policiais, ficou sabendo que havia um aeroporto vizinho da estrada e a dita aeronave estava apenas aterrissando normalmente.

Disseram uns que os olhos do Japa ficaram tão arregalados que seguramente não mais voltariam a ficar puxadinhos.

2 pensou em “O JAPA E O JUMBO

  1. Excelente história Magnovaldo Santos.

    Só mesmo aqui no espaço do Jornal da Besta Fubana é que encontremos história, uma mistura de fatos com ficção, onde os fatos são mais hilários do que a ficção, porque não são inventados, são fatos.

    Parabéns pela narrativa. Vale um abraço.

    Fraternais saudações do amigo e colaborador.

    • Grande Cícero: seus comentários são muito o reflexo de sua gentileza para com este simples escrivinhador dos causos da vida.
      Muito obrigado.
      Tenha um excelente final de semana junto aos seus queridos familiares.
      Abraços,
      Magnovaldo

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