O INSTRUMENTO

Dona Francisca era uma mãe zelosa, à moda antiga, e não permitia que Bibina, sua filha de 17 anos, ficasse a sós com o noivo, na sala de visitas da sua casa, todas as noites.

A conservadora senhora, viúva, ficava de plantão, sentada numa poltrona, fingindo fazer tricô, enquanto sua filha e o noivo conversavam, fazendo planos para o futuro, até 21:30 h, nenhum minuto a mais.

Como, à noite, estava muito cansada dos afazeres domésticos, Dona Francisca não percebia os cochilos que costumava dar na poltrona, deixando cair no chão as agulhas de tricô e o novelo de lã.

Certa noite, a dona da casa cometeu o deslize de adormecer, profundamente, na poltrona. Despertou assustada, e flagrou o casal aos beijos e abraços, dando para notar que o batom da boca da sua filha tinha passado para o rosto do rapaz.

Isso foi o estopim da bomba, e a mulher ficou indignada. Tentou disfarçar, mas não conseguiu. No dia seguinte, sentindo-se desrespeitada, Dona Francisca deu de presente ao futuro genro uma Escaleta, instrumento musical que estava na moda. Exigiu que, a partir daquela noite, o rapaz tentasse aprender a tocar de ouvido, pois ela estava muito cansada e iria se deitar. Ficaria ouvindo do quarto. Só não queria que a sala ficasse em silêncio, nem, ao menos, um minuto.

Como acordava muito cedo para cuidar dos afazeres domésticos, essa foi a solução que a mulher encontrou para deixar de ser vigilante da filha e do futuro genro, e, ao mesmo tempo, sem deixar de zelar pela virgindade da jovem. Era muito conservadora e queria que a filha casasse virgem.

Dona Francisca acreditava que, com a Escaleta, o rapaz não tentaria se aproveitar do momento mágico, vivido todas as noites com sua filha, até 21:30 h. Não iria procurar certas intimidades, coisas que, na sua opinião, só poderiam acontecer depois do casamento, no Padre e no Juiz.

A mulher só não imaginava que era a filha que ficava direto tentando tocar a Escaleta. O rapaz, com a boca e mãos livres, podia avançar o sinal o quanto quisesse. Da sala, ouvia-se Dona Francisca roncando. A filha ia olhar e via que a mãe estava dormindo profundamente.

O casal, muito apaixonado e com os hormônios fervendo, abusando da liberdade proporcionada, ingenuamente, por Dona Francisca, não se controlou por muito tempo. Logo, o casamento foi antecipado. Bibina casou grávida, sob os protestos e insultos da mãe.

2 pensou em “O INSTRUMENTO

  1. Violante,

    A sua crônica resgata um tempo em que a virgindade era muito importante. O tabu de que a moça teria de se guardar ao marido quando contraísse matrimônio, nos tempos modernos, caiu em desuso porque a célebre virgindade pode ser reparada pela cirurgia de reconstituição do hímen. O hímen íntegro permite o diagnóstico médico legal de virgindade na mulher.
    Infelizmente, ainda há um pensamento machista e retrógrado de considerar a virgindade como símbolo de pureza. Por isso, muitas mulheres por motivos religiosos, culturais e pessoais desejam a restauração desta membrana que é símbolo de virgindade. Parabéns por abordar um tema delicado para pessoas puritanas…

    Saudações fraternas,

    Saudações fraternas,

    Aristeu

  2. Obrigada pelo gratificante comentário, prezado Aristeu Bezerra! Sempre é bom comparar os valores morais de antigamente, com os de hoje. Esse texto reporta-se a uma época distante, quando a mulher tinha que casar virgem, por exigência dos pais. Caso contrário, seria uma desmoralização para a família, principalmente se a moça casasse grávida..A jovem que perdia a virgindade sem casar, ficava estigmatizada pelo resto da vida.

    A independência sexual feminina passou a existir com a invenção da pílula anticoncepcional, em 1960.. Os tempos evoluíram e o tabu da virgindade deixou de existir. E a mulher, agora, só engravida se quiser.

    No dia 18 de agosto de 1960, foi lançado o contraceptivo oral Enovid-10 nos Estados Unidos. A partir de então, houve uma verdadeira revolução nos hábitos sexuais do mundo ocidental.

    Um abraço e bom fim de semana!

    Violante Pimentel

Deixe uma resposta