A PALAVRA DO EDITOR

João Doria propôs a formação de uma aliança de “centro-esquerda”. É uma iniciativa importante. No centro estará o gel; na esquerda, o Rolex. Política tem que ser feita assim: com ciência e pragmatismo. É claro que pode haver atritos – se a esquerda se chocar com o centro, por exemplo, o Rolex pode ficar melecado de gel e o topete pode ser desfeito. São os riscos inerentes à atividade de todo político arrojado. Viver é arriscar.

Se a lambança provocada por um conflito dessa ordem – centro X esquerda – chegar a impedir o grande líder de ver as horas (no caso de o visor do Rolex ficar embotado de gel), não será motivo para pânico. Nessas horas é que se revela a frieza do estadista. Doria dirá para si mesmo: “Fique em casa”.

É a decisão mais segura para um gestor impedido momentaneamente de monitorar a passagem do tempo. É bem verdade que tempo é dinheiro, mas, para quem é capaz de paralisar o maior Estado da Federação com um jato de demagogia, fazer o tempo parar é brincadeira de criança. Como diria Paulo Coelho, mago que é mago boicota o seu país e ainda tira onda de empático. A magia pode tudo.

Pode por exemplo permitir a uma personalidade afagar o maior ladrão do país e não cair em desgraça. Essa é mais uma magia que une Paulo Coelho e João Doria – o primeiro cortejando Lula lá da Suíça (distanciamento social e criminal) e o segundo promovendo um congraçamento pandêmico com o meliante petista: “O vírus não escolhe ideologia. O momento é de foco”. Se o Rolex fica bem na esquerda, por que Doria também não poderia ficar?

É bem verdade que, como diria o companheiro Newton, um Rolex e um Lula não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Um dos dois vai sumir – seja no bolso ou no xadrez. São os problemas da nova esquerda, que Doria certamente saberá contornar – com foco, ciência, empatia e gel. Sendo uma frente de centro-esquerda, uma possibilidade seria puxar Lula mais para o centro, deixando-o distante do Rolex. Talvez dando a ele uma embaixada no Guarujá, que é no centro (da mamata). Se a OAS concluir de uma vez por todas o elevador privativo do tríplex, a tendência é Lula aceitar.

Doria anunciou por vídeo o plano de criação da frente de centro-esquerda, que já está sendo chamada de Resistência Penteada. Ele estava sozinho na imagem, entre quatro paredes, de máscara. Já tendo tido covid e não tendo ninguém no mesmo ambiente representando risco de contágio, o uso da máscara pelo gestor dividiu opiniões. Uns acharam que ele estava escondendo a cara devido ao conteúdo de sua mensagem – constrangedora mesmo para um profissional da impostura.

Outros, porém, garantiram ter evidências científicas de que Doria é imune a constrangimentos – e que essa imunização consumiu décadas de desenvolvimento, num processo muito mais seguro que o da vacina chinesa. A prova dessa imunidade seria a desenvoltura com que o governador saiu chutando números de vidas salvas pelo seu lockdown desvairado, usando o nome do Instituto Butantan para inventar uma equação quarentenal de décimo terceiro grau (foca o 13).

A realidade desmentiu a alegoria sanitária do líder de centro-esquerda, com levantamentos em centros universitários como Stanford e Harvard demonstrando que não houve menos óbitos nas regiões onde as medidas de trancamento geral foram executadas com maior rigor. Ainda apareceu a Argentina, campeã do lockdown, ultrapassando todos os vizinhos em mortes por milhão. Mas o populismo argentino é mambembe. A nova esquerda Rolex há de chegar lá, salvando vidas com um choque de gestão e gel. Não vai sobrar um único argentino despenteado. E todo mundo sabe que a resistência ao fascismo começa pela cabeça.

Doria, Lula, Covas, Boulos, Fernando Henrique, Alexandre Frota, Witzel, Caiado, enfim, toda a nova esquerda está se unindo no partido da Covid 22 – o presente de Deus, como verbalizou Jane Fonda, falando por tantos confinados nos armários de todo o planeta. Otário é você, que com essa dinheirama de bilionários sensíveis e ditadores conscientes rolando solta por aí continua teimando em viver sem mesada.

Ainda está em tempo. Pare diante do espelho, fale meia dúzia de clichês do humanismo de butique e note que você também tem um corpinho de centro-esquerda. Aí é só sair pedindo ao tiranete mais próximo que obrigue as pessoas a fazer coisas na marra. Invente uma coisa nova, tipo proibir as crianças de desenharem Papai Noel sem máscara – com pena de prisão dos pais por genocídio culposo. Você vai arrasar – e vai chover na sua horta. Vai pensando no modelo do Rolex.

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