MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

A empresa para a qual trabalhei entre 1984 e 1994 tinha entre seus produtos alguns componentes que eram usados em sistemas de vácuo para aplicação nos freios de caminhões.

Alguns caminhões Ford Cargo, lançados no Brasil em 1985, apresentaram problemas no sistema de freio e as inspeções mostraram que uma provável causa do problema poderia ser o nosso componente. Posteriormente essa suspeita foi afastada. Dessa maneira, como responsável técnico da empresa, e acompanhado por um outro colega, fomos verificar o alegado problema, que havia ocorrido em uma frota de 5 caminhões recém adquiridos por uma transportadora na região de Campinas, SP.

Enquanto meu colega se encarregava de desmontar uma das peças problemáticas para examinar o componente em questão, estava eu conversando com o proprietário da transportadora, um português oriundo da região do Minho (o “jardim” do querido Portugal) muito simpático e também proprietário de uma lapa de apêndice nasal que nada tinha a dever ao sr. Ilham Aliyev, Presidente do Azerbaijão, sem, entretanto, ter o mesmo preparo tecnológico dele. Meu interlocutor buscava entender como funcionava o sistema de freio a vácuo do caminhão.

Acompanhando a descrição do funcionamento do sistema, a curiosidade do afável lusitano foi dirigida à câmara de vácuo do sistema. Perguntou-me o que tinha dentro dela.

Respondi:

– É aí que existe o vácuo que vai ajudar mecanicamente a frenagem do veículo.

– E o que é esse tal de vácuo?

– Vácuo é a ausência de qualquer coisa, o que representa uma pressão negativa relativamente à atmosférica, e é responsável por succionar o diafragma do atuador e assim reforçar a força de frenagem do veículo.

Pensou um pouco, tirou uma catoca da ala direita do narigão cheio de pelos e continuou:

– Ah, então só tem ar aí dentro?

– Não, vácuo é a ausência de ar. Não tem nada, nem ar aí dentro da câmara de vácuo.

Pensou mais um pouco, extraiu uma catoca adicional, agora a bombordo do nariz, empostou sua voz com o indefectível sotaque de nossos colonizadores e proferiu seu fulminante veredicto:

– Então, pois, pois, para que serve essa porcaria? Por isso que esses caminhões dão problemas e são tão caros. Fabricam uma peça grandona que não tem nada dentro, nem ar, como o senhor está dizendo, então não pode servir para nada mesmo a não ser para criar problemas e fazer a Ford cobrar mais caro da gente.

Para minha sorte, neste momento chegou uma mocinha com um cafezinho bem quentinho e extremamente aromático. Não deu para prosseguir o nosso diálogo altamente técnico-científico-comercial, e o prazer de saborear tão rico café serviu de tema para a próxima conversação enquanto meu colega terminava seu trabalho de retirar a peça suspeita para ser examinada em nossa fábrica.

4 pensou em “O FREIO A VÁCUO DO CAMINHÃO

  1. Que história deliciosa Magnovaldo…..

    Essa história de não ter nada e só servir para deixar mais caro o produto fez lembrar a história da fábrica de linguiça do português, que já é uma piada antológica.

    Escreva mais, suas histórias merecem um livro… Crônicas Magnovaldianas das andanças pelas Terras do Brasil”. Seria um excelente título.

    • Grande conterrâneo Roque:
      Seus comentários me animam a seguir em frente com minhas memórias esculhambentas. Claro, eles refletem muito mais a grandeza de sua alma do que o valor intrínseco de minhas porcanas.
      Um grande abraço, feliz final de semana.

  2. Puzt, o cara faz uma peça que nem vento tem dentro dela… um pastel é cheio de vento e é mais barato. No instante ia convencer o portuga.

    • Maurício: sabe que uns dias depois recebi um telefonema do sr. Carlos Oliveira, o português em questão, agradecendo minhas explicações e disse ter entendido a função da câmara de vácuo, após ser melhor informado na concessionária. Como agradecimento me deu uma latinha cheia de ar: era “ar de Fátima”, quando havia visitado Portugal em uma romaria à Virgem Maria de Fátima.

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