GUILHERME FIUZA

Era uma vez uma civilização avançada e pródiga. Ela tinha atravessado um século de grandes guerras e alcançado a paz. Não a paz total, que é impossível. Mas um estado sem precedentes de estabilidade entre os povos. Até um muro que simbolizava a fratura política e a cisão ideológica tinha caído. Um novo século começava com a consagração das liberdades individuais e da compreensão sobre as variadas escolhas de comportamento. Finalmente a maioria tinha conseguido estabelecer que raças e credos não podiam ser fatores de segregação. Estava tudo pronto para o início da Era da Harmonia.

Mas a humanidade não quis. Por razões insondáveis – tédio? – jogou tudo fora. E o que levou tanto tempo para ser construído foi ao chão num instante. Destruir é sempre muito mais fácil e rápido.

O novo século tinha começado com um proverbial salto tecnológico unindo de forma instantânea o mundo inteiro. Os avanços da comunicação no século anterior, que já eram grandes, se multiplicaram vertiginosamente. Não era mais questão de poder saber imediatamente o que acontecia em outro hemisfério. Era poder falar – e ser ouvido – instantaneamente do outro lado do mundo. Qualquer um. Senão toda a humanidade, ao menos uma imensa parte dela, incluindo os menos favorecidos – que até então ficavam frequentemente à margem dos benefícios tecnológicos. Uma revolução democrática.

Eis o escândalo: essa revolução democrática virou recaída autoritária. Talvez nem Freud explicasse – ele que revelou tanto da alma humana na virada de século anterior, quando a humanidade caminhava para o surgimento das guerras mundiais. O que houve com os homens?

Machista! Não vai falar das mulheres?

Desculpe, estava me referindo à humanidade.

E só tem homem na humanidade? Não tem mulher?

Acho que não me fiz entender. Quis dizer Homo sapiens.

E a mulher sapiens? Não vai falar da mulher sapiens?

Mulher sapiens?

Tá vendo? Nem tinha pensado, né? “Esqueceu” de mais da metade da humanidade. Isso é preconceito escondido! Mas agora tá todo mundo ligado, vou postar aqui que você é machista.

Não, por favor. Eu estava me referindo a homens e mulheres.

E os gays? E os trans? Não mente, você só falou de homem. Vou viralizar.

E foi assim que a idiotice “viralizou”. Fantasiada de ética. E a viralização do vírus – ou da suposta preocupação com ele – chegou para trazer a apoteose do heroísmo de videogame. As barricadas de empatia cenográfica foram sendo erguidas a cada esquina digital contra o monstruoso inimigo imaginário – o neandertal moderno que eu posso projetar em qualquer um, no meu vizinho, no meu amigo, no meu irmão, bastando apontar o dedo duro para ele dizendo que ele não segue as normas de segurança difundidas pela Lady Gaga, pelo João Dória e pela empática ditadura chinesa. Você está colocando vidas em risco – e cada vez que eu digo isso meus seguidores se multiplicam e empoderam a minha vidinha de merda.

Como isso foi acontecer? Onde estavam escondidos, naquela caminhada aparentemente firme para a Era da Harmonia, o cinismo e a covardia?

Com possibilidades sem precedentes na história de expansão do bem-estar e da liberdade, como fomos parar nessa epidemia de moralismo, egoísmo e tara pelo controle – todos devidamente dissimulados e fantasiados de humanismo? Como viemos parar de repente nessa proliferação de tiranos enrustidos, que querem impor – e estão impondo – variadas armadilhas autoritárias sob um véu de bondade e altruísmo? Como sociedades tão esclarecidas passaram a se sujeitar docilmente à dominação dos medíocres e dos fracos? Como foi possível a ascensão do totalitarismo frouxo?

É tarde demais para uma correção de rumo. A semente da falência talvez estivesse na própria pujança. Quem vai saber? Talvez seja simplesmente o percurso cíclico da natureza. Mas com certeza não há mais chance de ajustes sobre o mesmo trilho. A ruptura da civilização como a conhecemos está dada. A dúvida é se teremos no próximo capítulo o resgate da boa índole ou a consumação do massacre dela.

2 pensou em “O ENIGMA DO TOTALITARISMO FROUXO

  1. Excelente texto do Guilherme Fiuza.
    Parece que o que começou como “politicamente correto” descambou para a invasão desenfreada das liberdades individuais.
    Não sei como a humanidade superará isso – se é que vai superar – mas prevejo que dará trabalho.
    Em tempo: o início do texto, falando de “um novo século começava com a consagração das liberdades individuais e da compreensão sobre as variadas escolhas de comportamento” me lembrou um famoso documentário sobre a Primeira Guerra Mundial, que começa com as seguintes palavras: “O fim do século que precedeo ao XX mostrou uma civilização europeia que seria tão fascinante, que parecia ter conquistado todos os desejos de riqueza da humanidade. Houve terríveis guerras no século anterior, mas agora a Europa parecia ter encontrado a paz através do equilíbrio diplomático”.
    Segue o link: https://youtu.be/Dyl3TzYWinc

Deixe uma resposta