MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

Nos idos de 1970 um dos Diretores da GM em São José dos Campos era Mr. Murray (a nacionalidade era americana, mas o nome é fictício). Um sujeito tão pão-duro que se dizia que pulava a cerca de sua casa para economizar o portão.

Pois bem, um de nossos colegas Engenheiros, recém casado e já com filho para sustentar, passava por um perrengue daqueles que incomodavam mais que dor de dente nos testículos. Sempre sobrava mais mês no fim do salário.

Cada vez mais aperreado, resolveu apelar diretamente para Mr. Murray. Arranjou uma boa desculpa relativa à construção da nova fábrica do Chevette e marcou uma hora com a secretária de Mr. Murray, a encantadora, divina e calipígia Gláucia.

Se Gláucia era bonita? Pois eu lhe asseguro a vossuncê que em todo o Vale do Paraiba, num raio de 1.700 léguas, nenhuma mulher lhe peitava com tanta boniteza!

O escritório de Mr. Murray ficava em uma das esquinas do prédio, com uma linda vista para os jardins da fábrica. Vale aqui lembrar que a jardinagem da área fora projetada por um renomado paisagista paulistano.

No dia seguinte, pontualmente no horário marcado, ali estava nosso colega. Dissertou por 8 minutos sobre a questão técnica e em seguida foi direto ao ponto:

– Mr. Murray, a minha situação financeira está insustentável e falta pouco para minha recém constituída família passar necessidades. Minha esposa começa a sugerir que sou um fracasso. Tenho dedicado todas as minhas forças e diligência à Empresa, isso é reconhecido. Preciso urgente de um aumento de 10%.

Mr. Murray não se fez de rogado em atendê-lo, mas não dava sinais de amolecimento coronário. Usou a tática, comum entre os chefes, de encher-lhe o loló de cisco. Falou da virtude espiritual em perseverar sempre e se aprimorar no trabalho, nunca se entregar às lamúrias, encarar a vida de frente e ter absoluta confiança no futuro, principalmente sendo uma pessoa tão jovem e competente.

Isso, evidentemente, não resolvia o problema. Nosso colega voltou a insistir no aumento.

Mr. Murray então pôs a mão no ombro de nosso jovem Engenheiro e, levando-o à imensa janela envidraçada, mostrou-lhe a bela paisagem que se descortinava aos olhos. Suas sábias palavras foram:

– Veja, meu filho, como a natureza é bela e como a obra do Criador e de sua criatura, o homem, é admirável. Trabalhando aqui você tem o privilégio de estar cercado por um dos mais agradáveis lugares para exercer sua nobre profissão de Engenheiro, totalmente diferente de estar suando em um ambiente sujo de uma fundição em Osasco, por exemplo. Você é um abençoado! Essa vista vale mais de 5% no seu salário. Tome-a, ela é toda sua!

Fábrica da GM em São José dos Campos

Nosso colega agradeceu, mas ponderou sabiamente que a visão do lindo panorama não poderia ser adicionada mensalmente ao saldo de sua conta bancária.

Mr. Murray cofiou o bigode, chamou a flamejante Gláucia e pediu que lhes servisse um cafezinho.

E lá veio, flutuando 2 polegadas acima do chão, a esvoaçante Gláucia com uma bandeja e duas xícaras de café. Deixou as duas xícaras na mesa, adoçou-as com açúcar e um sorriso mais doce ainda e saiu da sala deixando nos olhos do jovem Engenheiro aquela indelével imagem das curvas perfeitas de seu “derriére” (meu irmão, entendido dessas coisas, diz que bunda de mulher tem vida própria), e no ar aquele sutil perfume de uma fêmea desenhada pessoalmente pela mão do Criador.

Mr. Murray então, percebendo o derretimento do espírito combativo de nosso colega, disparou o torpedo final:

– Faça as contas, meu filho. A visão da Gláucia merece muito mais que 5% de seu salário e essa parte também não será tributada pelo Imposto de Renda. Agora você pode voltar ao seu trabalho, já que ganhou mais de 10% de seu pretendido aumento. Ah, e mais uma coisinha, não se esqueça de comemorar seu novo salário com sua adorável família.

Não foi dessa vez que nosso colega conseguiu botar suas contas em dia.

Deixe uma resposta