JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

“Um dia, todos seremos estrelas no firmamento divino”

A selva que se inicia em cada um de nós

Ontem no exato momento que caía uma forte e contínua chuva, sem perceber que os anos se passaram e que envelheci, parei de ler, fechei o livro, e me pus a observar o direito aparentemente sagrado do ir e vir das estrelas, durante a noite.

Um desenho animado e multicolorido nos céus. Parecendo uma chuva de meteoros.

Aflito, resolvi fazer à mim mesmo uma pergunta:

– Por que os nossos direitos de ir e vir, não são assim, como o das estrelas?

Ninguém me respondeu. Não obtive resposta alguma. Nem mesmo de mim mesmo, à quem perguntei. Fiquei calado, pois não tinha mesmo o que responder.
Aliás, não sabia o que responder.

– Por que as estrelas, tão brilhantes e cintilantes, podem passear, ir e vir, e nós humanos, não?

Eis que uma voz distante, que provavelmente somente eu ouvia, respondeu trombeteando:

– Pois, transforme-se numa estrela, ora!

Me bastou a resposta da minha imaginação. Me bastou o campo ocupado do meu tempo – e assim, tudo me bastou.

Reabri o livro. Voltei à leitura.

Mas, ainda com o pensamento viajando – sempre para o passado efervescente da juventude – voltei a fechar o livro. Agora, deixando-o cair no chão de forma proposital.

Voltei o pensamento para a primeira namorada. Corpo bonito. Limpo de muitas coisas ou quaisquer outros problemas. Corpo jovem, viçoso, enfim. Seios rijos, dentes alvos e limpos, boca bonita protegida por um buço que, de tão real, precisava olhar com a lupa para ser percebido.

A beleza da terra e da noite de lua

Por que envelhecemos?

Que razão há para isso?

Por que, não permanecemos eternamente jovens?

Eis que, distante dali, aquela mesma voz que interferira noutro momento, mas ainda longe, e agora em tom mais suave, voltou a sugerir:

– Pois, transforme-se numa estrela!

20 pensou em “O ENCANTAMENTO EM CADA UM DE NÓS

  1. Como diz Dedé Monteiro

    O tempo passa veloz
    Deixando tudo em desgraça
    Nós não pensamos em nós
    Tão veloz o tempo passa
    Eu mesmo em mim só pensei
    Depois que velho fiquei
    Depois de mil desenganos
    Já não represento nada
    Tendo a cabeça pintada
    Com a tinta branca dos anos

    • Assuero, se é que é possível, todos teremos mais de cinquenta tons de branco para pintar os cabelos. É branco que jamais acabará!

  2. Magnífica crônica, meu estimado colunista José Ramos!

    Lê algo assim numa manhã reluzente de domingo é ter mais esperança na vida!

    Valeu, meu jovem irmão do coração!

    • Cícero, senti falta de você. Tenho certeza que você não estava na greve dos caminhoneiros, nem na fila da provação do leite Moça! Seria mais fácil te encontrar entre os jovens do Projeto Rondon! Kkkkkkkkk

    • Marcos, das letras fortes e definitivas nenhum humano jamais ficará livre. Só Deus tem o direito e o poder da ressurreição.

  3. Um texto lindo, onde o lirismo transborda e nos encanta.
    Parabéns, querido escritor José Ramos!
    A ideia de que algum dia todos seremos estrelas é um consolo, diante da triste certeza da finitude da vida.

    Para você, uma poesia do inesquecível Vinícius de Moraes:

    Soneto de Fidelidade

    De tudo, ao meu amor serei atento
    Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
    Que mesmo em face do maior encanto
    Dele se encante mais meu pensamento.

    Quero vivê-lo em cada vão momento
    E em louvor hei de espalhar meu canto
    E rir meu riso e derramar meu pranto
    Ao seu pesar ou seu contentamento.

    E assim, quando mais tarde me procure
    Quem sabe a morte, angústia de quem vive
    Quem sabe a solidão, fim de quem ama

    Eu possa me dizer do amor (que tive):
    Que não seja imortal, posto que é chama
    Mas que seja infinito enquanto dure…

    Vinícius de Moraes – Obra Poética. Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1968. p. 293.

    Grande abraço e um excelente domingo!

    Violante Pimentel Natal (RN)

  4. Dom Zé Ramos:

    Já que tu re-remexeste com o pensar dos fubânicos, o complemento com algumas “tiradas” do meu conterrâneo – o poeta (ou será o filósofo-poeta???) Mário Quintana:

    [1] Sobre o amor:

    “O amor só é lindo, quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser.”

    “Nunca digas te amo se não te interessas.
    Nunca fales sobre sentimentos se estes não existem.
    Nunca toques numa vida se não pretendes romper um coração.
    Nunca olhes nos olhos de alguém se não quiseres vê-lo se derramar em lágrimas por causa de ti.
    A coisa mais cruel que alguém pode fazer é permitir que alguém se apaixone por ti quando tu não pretendes fazer o mesmo.”

    “BILHETE

    Se tu me amas, ama-me baixinho
    Não o grites de cima dos telhados
    Deixa em paz os passarinhos
    Deixa em paz a mim!
    Se me queres,
    enfim,
    tem de ser bem devagarinho, Amada,
    que a vida é breve, e o amor mais breve ainda…”

    “DO AMOROSO ESQUECIMENTO

    Eu, agora – que desfecho!
    Já nem penso mais em ti…
    Mas será que nunca deixo
    De lembrar que te esqueci?”

    [2] Sobre a rejeição dele (pela 3ª vez) pela Academia Brasileira de Letras:

    “Todos esses que aí estão
    Atravancando meu caminho,
    Eles passarão… Eu passarinho!”

    [3] Sobre a crescente falência do uso dos “miolos” pelos “intiliquituais modernosos da canhota” – que já proliferavam na sua época – e que o acusavam de “ser um sentimental e não se preocupar com o social”:

    “Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação.”

    “O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado:
    é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro.”

    Um ótimo domingo e uma excelente semana,

    Adail.

  5. Por que envelhecemos? Meu caro Zé Ramos, na minha humilde lógica, a gente envelhece para reconhecer e corrigir nossos erros. Talvez, assim, a gente enxergue, de longe, a perfeição. Parabens pelo belo texto.

    • Beni, tem lógica, sim. Pena que, muitas das vezes não tenhamos mais a chance de corrigir. Tudo, entretanto acontece porque estava programado para acontecer assim. Há quem afirme que, envelhecer é recomeçar o caminho de volta. Voltar ao barro, por exemplo.

  6. Hoje misturei muita vodka no leite condensado, gerando uma bebida por aqui chamada “pau na coxa” e tô borracho. Amanhã vou ler com atenção seu texto para checar se a maestria do maestro Zé ainda gera sinfonia literária da melhor qualidade.
    Inté, Zé!!!!

    • Eita Sancho, tu tá bebim, é?! Arre égua! Tu bebeu vodka com leite ou ainda tá tentando fazer o que Bolsonaro mandou a “imprensa” fazer com o leite? Kkkkkkkkk

      • Já passou o porre e estou na ativa novamente… kkkkkk

        Quanto ao negócio da imprensa, Sancho não tá tentando fazer nada disso, caro Zé. Sancho tá indo agorinha ao cabaré trocar o óleo. E tô levando uma lata de leite condensado para adocicar carne mijada… kkkkkkk

        • Assim tá certo. Essa carne aí, adoçada (além de mijada) é muito boa. Já fui bom nisso!….. hoje, só “lambo” o leite condensado!

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