O DIREITO DE NASCER, UM DRAMALHÃO CUBANO QUE FEZ O BRASIL VIRAR O PAÍS DAS NOVELAS

Há quem diga que o Brasil é o país das novelas por culpa de um cubano. Tudo começou, indiretamente, há 73 anos, em 1946, quando Félix Caignet escreveu a radionovela O DIREITO DE NASCER, um grande sucesso, exibida em vários países e com diversas reedições ao longo das décadas. O especialista em novelas Thell de Castro nos confirma que a primeira versão da história foi transmitida pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro no início dos anos 1950. Mas, a partir de 5 de dezembro de 1964, quando a TV Tupi de São Paulo passou a exibir O Direito de Nascer diariamente às 21h30, o Brasil parou para assistir à telenovela, rotina que se repetiria inúmeras vezes nas décadas seguintes…

Nas longínquas décadas de 50 e 60, o tabu existente de então na sociedade era a separação entre marido e mulher, gravidez fora do casamento e aborto. Três temas que, hoje, são recorrentes nas novelas da Globo. Essas proibições sagradas, naquela época, mexeram com o público. Esse tema proibido, aqui no Brasil, só veio a ser quebrado com a escritora e novelista Janet Clair na década de 80. A novela O Direito de Nascer era baseada em uma história original de Cuba que se passava em 1946. A trama narra a história de Maria Helena de Juncal, filha de um poderoso empresário de Havana, mas que engravida de Alfredo Martins, filho de dom Ramiro Martins, inimigo da família. A única pessoa que fica sabendo da gravidez no início é a empregada Dolores.

Em 1951, foi ao ar pela Rádio Nacional o maior fenômeno de audiência em radionovelas em toda a América Latina: era O Direito de Nascer. Texto original de Félix Caignet, com tradução e adaptação de Eurico Silva. O original possuía 314 capítulos, o que correspondia a quase três anos de irradiação. No elenco estavam Nélio Pinheiro, Paulo Gracindo, Talita de Miranda, Dulce Martins e Iara Sales, entre outros. O Direito de Nascer surpreendeu a todos os críticos e a todas as previsões que afirmavam que o rádio teatro era um gênero em decadência e que o público brasileiro não se interessava por longas tramas. Através do sucesso atingido por esse dramalhão cubando, o sonho de consumo, no Brasil, tornou-se tão avassalador que, pela primeira vez, ainda segundo o site Teledramaturgia, houve uma explosão de consumo devido a um item utilizado por uma personagem. Tratava-se do vestido de chita de Dolores, que virou objeto preferido das donas de casa.

Lembrando aqui, uma das passagens pitorescas de algumas cenas ou capítulos que empolgava a todos os ouvintes ou telespectadores, em certo momento, há um episódio em que, Dom Rafael sofre um acidente grave precisando de transfusão de sangue. Albertinho, já médico formado, ouve a notícia no rádio, se oferece como doador e salva a vida do homem, sem saber que ele é seu avô. Grato, Dom Rafael permite que Albertinho namore sua neta Isabel Cristina, sem desconfiar que ele é, na verdade, o neto que um dia renegou. O enredo era tão apaixonante e fez tanto sucesso que fizeram até uma marchinha para o carnaval de 1966: Ah Dom Rafael/ Eu vi ali na esquina / O Albertinho Limonta / Beijando a Isabel Cristina / Mas mamãe Dolores falou / Albertinho não me faça sofrer / Dom Rafael vai dar a bronca / E vai ser contra o direito de nascer…

A socióloga cearense Marineusa nos faz viajar nos saudosíssimos anos 60/70 quando afirma que nas cidadezinhas do interior o divórcio, o desquite, a separação faziam pouquíssimas vítimas, pois era um arregalar de olhos quando tal fato acontecia. Para a sociedade daquelas décadas passadas, a Lei Áurea era: “O QUE DEUS UNIU O HOMEM NÃO SEPARA”. Na verdade, principalmente no que diz respeito a ala feminina, quantas ocorrências marcantes em âmbito municipal, estadual, nacional e por que não universal? E na nossa vidinha? Na nossa adolescência? Quantas descobertas, quantas alegrias, quantas decepções!!! Qual mocinha daquela época não lembra, por exemplo, da novela “O Direito de Nascer”, quando elas sorriam ou choravam de acordo com as emoções que o capítulo fazia brotar nelas?

Tudo isso faz parte da vida; são os elementos que a compõem. Esta foi a década dos nossos primeiros sonhos com o príncipe encantado ou das gatinhas de anáguas rendadas, dos nossos primeiros bailes e das primeiras decepções amorosas. Foi a década em que, principalmente as meninas, sonhavam ao pé do rádio de pilhas ou de bateria, com os galãs das novelas. Como elas se deleitavam ao ouvir as vozes sensuais e imaginar a beleza dos personagens. Era uma novidade. E o que dizer das benditas revistinhas muitas vezes proibidas por nossas famílias. Quem se debruçou no dia a dia da novela O Direito de Nascer deve se lembra muito bem dos vestidinhos de “Mamãe Dolores” e da música: oh! Dom Rafael, eu vi ali na esquina, o Albertinho Limonta beijando a Isabel Cristina…?

O amor romântico não estava apenas nas novelas e nos romances; ele estava vivo, palpitante nos corações dos jovens das nossas cidadezinhas interioranas. Era lindo o amor e a fidelidade existentes nos casaizinhos de namorados que durante as férias estavam sempre juntos e que no período letivo se mantinham unidos através das cartas perfumadas com talco Gessy, Palmolive ou Eucalol. O amor tinha realmente a conotação certa. Havia entre os namorados afetividade, companheirismo, sensualidade, e, sobretudo, o respeito mútuo. O namoro perdurava anos a fio enquanto cada um dos enamorados cursava o ensino médio, a faculdade e finalmente colavam grau no ensino superior. Só depois de encaminhados profissionalmente constituíam famílias, edificadas no amor verdadeiro.

Certamente, o grande sucesso, que definitivamente marca o hábito do brasileiro de acompanhar a telenovela, acontece com a produção, pela TV Tupi SP, de “O Direito de Nascer”. Durante meses, o público se emocionou com a história de Albertinho Limonta (Amilton Fernandes) e Mamãe Dolores (Isaura Bruno). O sucesso foi tão arrebatador que a telenovela passou a ser o carro-chefe de várias emissoras. Se, em 1964, a TV brasileira exibiu 25 títulos, em 1965 esse número subiu para 48, com produções da Excelsior, Tupi SP, Record, Paulista, Globo e Cultura, conforme aponta a pesquisa de Ramos e Borelli em seu livro do ano de 1991, página 62. Tudo isso turbinado pela propaganda massificada e patrocinada pela Colgate-Palmolive… LEMBRAM-SE?!?!?!

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  1. Eu lembro da marchinha de Carnaval. A gente não tinha rádio nem televisão e minha mãe tinha uma amiga que lhe fazia um relato dos capítulos, diariamente, mas, salvo engano por volta dos anos 1970. Lembro que Carlos Augusto Strazzer era o Albertinho, mas não sei se nessa época havia interesse igual aos tempos da rádio nacional

  2. Realmente, ASSUERO: Posteriormente Carlos Augusto Strazzer fez o papel de Albertinho Limonta, Eva Wilma de Maria Helena e Beth Goulart a personagem de Isabel Cristina.

  3. Presado Altair. Muito bom e detalhado artigo sobre
    esse fenômeno da era do rádio e também dos
    primórdios de televisão.
    Infelizmente nada sei sobre novelas radiofônica como essa e
    outras como A Escrava Isaura, que tornou famosa
    internacionalmente e principalmente na China, a comunista
    Lucélia Santos, que na época peitou a TV Globo e caiu no
    ostracismo total, onde está enterrada até hoje.
    Como nunca tive interesse algum em novelas de rádio ou TV, desconheço
    completamente os acontecimentos relativos ao assunto.
    A única coisa que me lembro sobre essa xaroposa novela, foi que
    numa entrevista com a Dercy Gonçalves, ela teria afirmado
    que foi ela quem trouxe para o Brasil os direitos autorais ,
    adquiridos diretamente do autor Felix Caignet.
    Não posso afirmar se é verdade,mas eu li algo sobre esse assunto.

    .

    • Caríssimo comentarista Dmatt:

      Com exceção das novelas do genial Dias Gomes, que revolucionaram a teledramaturgia no Brasil, e aqui e acola uma ou outra novela que merecesse ser assistida como Pantanal, na antiga TV Manchete, não se perdeu o tempo com besteiras.

      Dias Gomes, o genial criador do personagem Odorico Paraguaçu, tem seu lugar no púlpito da história das teledramaturgias por merecimento.

      Não digo não haver outras novelas merecedoras de aplausos….

      • Concordo com o Amigo, com relação ao grande
        talento do dramaturgo Dias Gomes.

        Confirmo também a minha admiração e aplausos
        ao excelente ator Paulo Gracindo que em toda
        a sua carreira, sempre nos mostrou o que há de
        melhor no ramo interpretativo.
        Tivemos grandes atores de nível internacional,
        que fariam sucesso em qualquer país.
        Cito como exemplo o belo trabalho que está
        realizando o ótimo ator Rodrigo Santoro.

        • Caríssimo irmão do coração Dmitt:

          Relembro outro filme mais do que extraordinário, filmado em locações do Nordeste e na Central do Brasil, sem pirotecnia, sem efeito especiais, sem truques de cortes…”Central do Brasil” do diretor Walter Salles, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro e melhor atriz para Fernanda Montenegro, em interpretação memorável!

          Exite uma cena no filme em que Dora, a personagem principal interpretada por Fernandinha se debate na crise da dor de consciência por ter entregue o adolescente Josué a uma gangue de contrabando de órgãos, que é impagável! Nem a “Vida é Bela” do Roberto Benigni, por sinal um ótimo filme que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro, possui igual!

          Já disse e repito tantas vezes forem necessárias: não tem aversão aos efeitos especiais utilizados nos filmes atualmente; só não me convencem porque tiram a capacidade criativa do diretor.

  4. Nessa época, na minha cidadezinha, um dos poucos receptores de rádio era do meu tio..

    Eu me lembro que a casa dele se enchia de vizinhos, e o rádio era posto a todo volume, pois do lado de fora se juntava muita gente para ouvir a novela.

    O “Direito de Nascer” atraia a atenção de grande parte da população.

    Era o assunto em todos os lugares em que se juntava gente: barbeiros, cabeleireiras, modistas, padarias, lojas, açougues, praça central, escolas (na hora do recreio, entre professoras), bolichos (=mercadinhos) e clubes recreativos.

    Resumindo: tinha gente reunida, o assunto era novela, com discussões, às vezes, acaloradas sobre o destino das personagens ou dos próximos capítulos.

    Até a rádio local tinha um horário especial onde, durante 1/2 hora diárai, resumia os últimos capítulos, com a presença de convidadas e, às vezes, de convidados (que assim, apesar do machismo reinante admitiam, publicamente, a sua “fraqueza”) a debater, a evolução da novela.

    E como os rádios eram raros, e não eram lá essas coisas, muitas vezes, por falha na propagação, na transmissão e/ou na recepção das ondas radiofônicas, o que se ouvia eram chiados sucessivos, atrapalhando a compreensão.

    E, então, eu era chamado, pois como todo guri metido, era acostumado a mexer nos botões de sintonia, que, milimetricamente girados e em seqüência definida, produzia chiados, roncos e assobios, até surgir, lá no fundo, o som da tal emissora.

    E, enquanto eu fazia o que podia e sabia, o “mulherio”, tinham ataques histéricos e explosões de raiva, inclusive me xingando, desesperadas.

    Essas falhas eram comuns, pois as emissoras, por culpa de seus aparelhos de transmissão, nem sempre mantinham a mesma freqüência, e lá se ia o som – e recomeçava os ajustes.

    Por fim, terminado a transmissão do capítulo, era uma peregrinação para descobrir se na casa do fulano, ou do sicrano ou do beltrano se ouviu melhor e o que aconteceu naquele capítulo, quando foi-se o som.

    E a revista semanal “O Cruzeiro” – a maior daquele tempo, quando chegava, era disputada, às vezes, à tapas, pois sempre trazia reportagens sobre a novela, concursos – com bons prêmios em dinheiro, e, até uma pesquisa nacional de como se imaginava as personagens, cujo desenhos apareceriam nos finais da novela.

    Nunca se vendeu tantos exemplares da dita revista, com filas enormes para comprá-las, e guardar como um tesouro.

    Como era uma cidadezinha, é lógico que não veio exemplares suficientes, com brigas generalizadas pela sua posse.

    É claro que – como nas filas atuais de atendimento do INSS, se estabeleceu um comércio por lugares na fila de compras, além de um comércio de vendas de fotocópias, das ditas imagens.

    Os “!vivarachos” de plantão, então, ganharam um bom dinheiro com isso.

    E o Brasil, onde havia receptores de rádio, literalmente, parava, no horário da novela, e a audiência cativa da dita era, no mínimo, igual ou maior do que a dos jogos de futebol, graças ao público feminino.

    Isso não quer dizer que uma boa maioria dos “marmanjos” não deixavam o seu machismo de lado, e ficavam viciados com a novela.

    Por isso, a mídia do Brasil pode ser dividida em antes e depois da novela “O Direito de Nascer”.

  5. Caro Altamir:

    Não resta dúvida de que a novela radiofônica “O Direito de Nascer” marcou época como grande sucesso, que varou o Brasil do Oiapoque ao Chuí, nos anos cinquenta, sessenta…

    Há uma explicação plausível, na minha modesta opinião, para tal proeza, a simplicidade e a qualidade do script.

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