ADONIS OLIVEIRA - LÍNGUA FERINA

Todo mundo que lê os meus escritos sabe o quanto sou fã daquela frase de Nietzsche, quando ele afirma que “O ser humano é uma corda atada entre o abismo e o infinito”. Para mim, nada mais verdadeiro!

Ao nascermos, não passamos de mais um frágil filhote de macaco. A única coisa que nos diferencia de todos os demais primatas é o fato de sermos totalmente pelados. Em contrapartida a isso, o que vai determinar se aquele filhotinho indefeso se tornará um São Francisco de Assis, ou um Torquemada, será a forma como será criado e como serão desenvolvidas as suas habilidades e sua visão do mundo.

Acredito firmemente que todos os seres humanos, tratados adequadamente desde a sua concepção até a morte, possuem igual potencial para se tornarem excelentes profissionais, bons cidadãos e carinhosos pais de família. Decididamente, “O homem é o que é e suas circunstâncias”, como disse Ortega y Gasset.

Quem convive com animais, especialmente os cães, sabe muito bem o quanto, mesmo essas “feras”, são capazes de expressar sentimentos como raiva, ódio, medo, carinho, saudade, amor, vergonha, tristeza, e toda uma série enorme de nobres sentimentos que os menos avisados julgam serem privilégio dos humanos. Nada mais longe da realidade! Tratados com carinho abundante, junto a insistentes lições os direcionando na senda do bem, até feras violentíssimas, como leões e tigres, evoluem para a condição de verdadeiros “gatinhos de estimação”, o que torna possível toda uma convivência civilizada e pacífica com eles.

Por outro lado, continuando a forma como os seres humanos estão sendo gerados, paridos, nutridos, educados e liderados, a tendência da humanidade está se direcionando aceleradamente para a mais profunda e bestial selvageria, digna de nossos piores pesadelos. No afã de destruir toda a estrutura familiar que nos possibilitou a fantástica evolução da humanidade, juntamente com a relativização e derrocada de todos os princípios morais mais sagrados, verdadeiros “Imperativos absolutos”, nas palavras de Kant, a humanidade está dançando à beira, não do abismo, mas do verdadeiro inferno.

Acredito também que a grande missão de todos os seres humanos é a busca incessante pela sua evolução pessoal! Como ser humano, como pai, como profissional, como cidadão, como amigo, como companheiro e, finalmente, como filho de Deus. Os indianos acreditam que somos projeções do Divino, e que nossa missão primordial é a busca pelo aperfeiçoamento, a fim de nos tornarmos dignos de retornar ao seio do Pai Eterno. Esta visão retrata muito bem aquilo que eu penso.

Uma das observações mais interessantes que fiz ao longo destas muitas décadas que já vivi, foi o fato de que existem alguns marcadores fortíssimos que indicam bem claramente o nível evolutivo alcançado por cada pessoa. Dentre os inúmeros existentes, poderia destacar os seguintes:

1º – O Universo Vocabular – Como definiu Wittgenstein, “O universo vocabular define o tamanho do seu cérebro”. Pobreza vocabular é poderoso indicativo de avassaladora indigência mental. Esconde-se esta indigência mental através do uso repetido “ad nauseam” de velhos e surrados slogans, chavões e “rótulos”.

2º – A Atitude Perante a Hierarquia – Todos os menos desenvolvidos moralmente apresentam a singular característica de serem muito autoritários perante todos aqueles que se encontram em situação de subordinação a si, algo assim como Omar Azis e Renan Calheiros na CPI, enquanto que, ao mesmo tempo, são abjetamente subservientes, puxa-sacos e babões, para com todos aqueles que possuem algum poder sobre eles.

3º – A Atitude Perante o que Desconhecem – Para as pessoas menos desenvolvidas, não existe meio termo: Ou idolatram cegamente o que lhes foi dito, ou ridicularizam e menosprezam, caso não se coadune com suas crenças toscas e bisonhas. Seus combalidos e parcos neurônios, não possuem nem traços daquele saudável ceticismo e curiosidade, que são a base da evolução do conhecimento humano.

4º – Visão Maniqueísta do Mundo – Para estas almas simplórias, o mundo é binário! Não existem nuanças. Ou está comigo, ou está contra mim. É o famoso “Nós contra eles”, daquele famigerado bandido barbudo de 9 dedos, ou patrões contra empregados, do bandido barbudo alemão que viveu no século XIX em Londres.

5º – Estão Sempre Cheios de Certezas – Suas crenças e opiniões são sempre totalmente ABSOLUTAS! Não deixam nunca espaço para que reste qualquer sombra de dúvidas sobre aquilo que tomam como sendo o certo. Qualquer questionamento é tratado como sendo uma traição ao grupo de imbecis.

6º – Necessidade Imperiosa de Fazer Prosélitos – Sofrem de uma compulsão mórbida para convencer todos os que estão à sua volta das suas opiniões. A necessidade de possuir uma trupe de acólitos ao redor de si chega a ser pungente. Para estes, a veracidade de um argumento está sempre e diretamente ligada à quantidade de crentes. Possuem a respeito de si mesmos uma visão messiânica. Consideram-se como sendo detentores de uma “missão”: o convencimento dos demais com relação às suas opiniões imbecis.

7º – Defesa Agressiva de Suas Opiniões – A argumentação de defesa das babaquices em que acreditam se dá sempre de forma agressiva e em altos brados. Quanto mais imbecil for a ideia, mais alto será o nível de decibéis da arenga. Irritam-se profundamente pelo simples fato de serem contestados. Consideram ofensa pessoal.

8º – Atitudes de “Paladinos da Justiça” – Sempre que algum problema se apresenta, em um grupo liderado (ou comandado) por uma dessas criaturas, a atitude dos infantilizados sequazes é sempre de apelar para o “Genial Condutor dos Povos” que se encontrar à mão. Este, por sua vez, adora desempenhar este papel de “Salvador da Pátria”. Saca do bolso da algibeira, de imediato e sem titubear um segundo sequer, uma solução simples, óbvia, rápida, barata, imediata, e TOTALMENTE ERRADA. Alivia os sintomas do problema, no curto prazo, enquanto prepara um verdadeiro desastre no longo prazo. Vejam a decisão de não comprar nenhum equipamento importado, de Lula, e as desastrosas intervenções de Dilma no sistema elétrico nacional.

9º – O Horizonte Temporal – Tal qual as feras, o horizonte temporal destes proto-humanos se limita à preocupação sobre o que deverão comer no jantar, ou, no máximo, sobre a cerveja que tomarão no final de semana assistindo a uma partida de futebol. Nada na sua alma anseia pelo conhecimento sobre este vasto e maravilhoso mundo de meu Deus, nem muito menos sobre a magnífica epopeia humana que nos trouxe até o ponto em que nos encontramos.

Vejam que eu nem mencionei os princípios morais, que são a base de qualquer personalidade minimamente decente. Considero tão óbvia a sua importância, já que é o aspecto mais marcante das criaturas, tanto as mais rasteiras quanto as mais sublimes, que não precisa nem detalhar.

Ao longo dos meus mais de 40 anos trabalhando em grandes corporações e ensinando em universidades, pude fazer algumas observações que considero extremamente interessantes e que gostaria de compartilhar com meus parcos e abnegados leitores. Formam a gênese de toda e qualquer hecatombe de grupos humanos:

Velocidade de ascensão na hierarquia – Existe uma correlação fortíssima entre o nível de imbecilidade dos indivíduos e a sua velocidade de ascensão na escala hierárquica. Quanto mais imbecil um indivíduo se mostra, mais rápida tende a ser a sua evolução profissional. Isto é fruto da “Síndrome do Parecido Comigo”, anomalia psicológica que faz com que imbecis prefiram sempre se ver cercados de outros imbecis.

O impacto das decisões ao longo do tempo – Como diria o Conselheiro Acácio, “As consequências virão depois! E elas sempre vem! Mais cedo ou mais tarde. Só que, como o “Time Spam” dessas decisões são função do nível hierárquico, quanto mais se sobe nas hierarquias, mais alongadas no tempo são as consequências destas decisões. Assim, quando se é um simples operário, uma decisão errada apresenta suas consequências de imediato. Já um supervisor, ou mesmo um engenheiro, pode-se ter que esperar alguns meses pelas consequências de uma decisão errada. No caso de um Presidente da República, a catástrofe provocada por suas imbecilidades se estenderá ao longo de décadas, ou até mesmo séculos.

Quando se juntam os dois princípios acima, temos um quadro perfeito daquilo que Theodore Levitt descreveu brilhantemente em seu artigo na Revista Harvard, em 1960, e que denominou “Marketing Myopia”. Seria a incapacidade de ver as consequências das suas decisões no longo prazo, enxergando-as apenas no curto prazo.

Como liberal e cristão, considero que o direito de ser imbecil deve ser amplo, geral e irrestrito; e que nossa atitude para com essas pobres criaturas de mente e espírito subdesenvolvido, deve ser, prioritariamente, de caridade e de pena. Ocorre apenas que, como tudo mais na vida, a imbecilidade também deve ter limites. Só que, por sua natureza intrínseca, a mesma é infinita. Quando você pensa que o indivíduo atingiu o ápice da imbecilidade, eis que ele se suplanta e consegue atingir píncaros de imbecilidade infinitamente maiores.

O único remédio que antevejo, para que as legiões de imbecis não venham a dominar completamente a humanidade, é restringir-lhes de maneira absoluta o raio de ação.

SEJA IMBECIL O QUANTO QUISER, SÓ NÃO ENCHA O SACO DE QUE ESTIVER EM VOLTA.

Assim, para que eu possa exercer o meu direito a não querer um imbecil me enchendo o saco o tempo todo, a nossa Constituição Federal deveria ter apenas os seguintes artigos:

Art. 1º – SEJA FELIZ! (Da forma que quiser e bem entender. Solte a franga que há em você!)

Art. 2º – NÃO ENCHA O SACO DE QUEM ESTIVER AO SEU REDOR!

Art. 3º – Revoguem-se, de imediato, todos os milhões de disposições em contrário.

10 pensou em “O DIREITO À IMBECILIDADE

  1. Adônis, meu caríssimo colega de Cabaré. Este seu artigo trouxe muita luz a este domingo de trevas chuvosas neste Sul, dito “maravilha”, frio e pouco amigável, principalmente para um pernambucano perdido nestas plagas catarinenses. Texto primoroso, que denuncia a potente formação cultural do autor. Como não se cansa de dizer o nosso comum amigo Luiz Berto, você é um dos desassombrados colaboradores do JBF que enchem nosso cérebro e nosso coração de excelentes argumentos, neste momento de pobreza cultural que vivenciamos em Banânia. Somos privilegiados por ter acesso a esse cabedal de conhecimento que o nosso querido JBF nos proporciona diuturna (e noturnamente, como diria certa anta), por intermédio de pessoas de alto calibre, como tu.Obrigado.

  2. Adônis,
    Quem pergunta quer saber, nunca ficando bem negar luz a cegos, mesmo sem ser de grande serventia…
    “Síndrome do Parecido Comigo”, anomalia psicológica que faz com que imbecis prefiram sempre se ver cercados de outros imbecis.
    Questiono em seu texto apenas se a “Síndrome do Parecido Comigo” poderia ser aplicada de forma inversa, tirando os IMBECIS e colocando uns caras espetaculares, pois no JBF, como ATESTA acima o Hélio Araujo Fontes, temos cabedal de conhecimento que o nosso querido JBF nos proporciona diuturna (e noturnamente, como diria certa anta), por intermédio de pessoas de alto calibre, como tu.

    Luminares do porte de Marcos André, Marcelo Bertoluci, Sancho Pança, Cícero Tavares. Adônis, Mauricio Assuero. Rodrigo de León, Carlos Eduardo Santos, Marcos Mairton, Roque Nunes, JoãoFrancisco, Joaquimfrancisco, Violante Pimentel, Beni Tavares, Arthur Tavares, Luiz Berto, Jesus, Magnovaldo, só para citar alguns poderiam ser partícipes na “Síndrome do Parecido Comigo à moda JBF” vista ao avesso da citada síndrome?

    • Por acreditar que San Cho Coco Loco seja outra persona do Sancho Pança ( o eu profundo e os outros eu ) vou declinar um ditado português: Elogio em boca própria é vitupério!

      • San Cho Coco Loco e Sancho Pança são a mesma pessoa.
        Os que ganham seu tempo acompanhando as colunas sanchianas e dos demais fubânicos, onde não me furto a comentar, o sabem.
        E elogio em boca própria só é vitupério quando não há verdade no talento de quem escreve, o que não é o caso, pois me incluo sempre entre os gigantes desta gazeta. Sancho também é estrela de primeira grandeza e só deixará de brilhar nestas páginas fubânicas quando Berto assim decidir.
        Quando criança peguei a tal modéstia e a servi aos cães que ladraram alegremente e a devoraram.
        “Festejou-se o aniversário de um homem muito modesto. E apenas no final do banquete é que se percebeu que alguém não tinha sido convidado: o festejado.” Anton Tchekhov

        LouisCiffer, a quem muito admiro em suas inserções fubânicas…
        Escrevi: Só para citar alguns que poderiam ser partícipes na “Síndrome do Parecido Comigo à moda JBF”.
        O seu nome e de muitos outros, também não citados, cabem perfeitamente na tal síndrome, pois possuem textos que revelam inteligência, sagacidade e capacidade interpretativa, qualificando-o para compor tal timaço bertiano.
        Elencar a todos que se fazem merecedores englobaria muita gente, o que tornaria muito extenso o meu comentário, mas (benedicto mas), estás, desde sempre, incluso em tal universo…

        • Sancho, preclaro amigo.

          Sinto dizê-lo, porém, mais uma vez você errou: Não sois de “primeira” grandeza, isso é coisa para Luis XIV que se comparou a um astro de 5ª! Sois, sim, de “Primeiríssima” grandeza, sois imortal mesmo sem congraçar na academia (em minúsculas mesmo – no momento é o que merecem), assim como são vários outros que nesse sitio traçam belas linhas (agora minha mão treme e sequer consigo digitar os nomes dos mesmos), e quando consigo trocar o escasso tempo, que o douto Diretor me libera pro banho de sol, pelo uso do teclado, sorvo vorazmente as letras desse pasquim e tento saciar minha milenar sede de cultura e conhecimento. Leve aos outros Fubânicos um pedido meu: Continuem, como em Genesis, e sede fecundos, multiplicai vossos conhecimentos e espalhai a cultura sobre os homens e aspergis vossas idéias em solos mentais, que hão de brotar, e havemos de ver nascer um porvir para a raça, só assim estaremos em sintonia.

    • Caro Sancho, obrigado por me colocar entre aqueles que trazem luz a este espaço.

      Há um anjo caído logo acima deste comentário que não alcança suas palavras e o coloca como um bajulador.

      É, como disse o grande Adônis (e obrigado a este pelo brilhante texto), os imbecis estão crescendo a todo vapor.

      Abraço e boa semana a v. e o nosso Adônis

      • João,
        Seria um erro imperdoável não elencá-lo. E erros imperdoáveis não costumo cometer.
        Note-se que caberiam inúmeros outros fubânicos em meu comentário, inclusive o “anjo caído” que citas, pois é um fubânico que possui talento para a escrita e inteligência condizente com este espaço que ocupamos.

        Se formos elencar a todos, ficaremos horas e horas digitando neste espaço bertiano que nos é cedido graciosamente por Luiz Berto.

        Uma ótima semana ao amigo.

  3. Prezados amigos,

    Invade-me imensa alegria ao ler as generosas palavras dos amigos relativas a este meu opúsculo.

    Realmente, caro Sancho! A síndrome do parecido comigo também funciona para o bem. Considero não ser outra a razão para a união de tantas pessoas brilhantes ao redor do JBF, e em defesa dos poucos farrapos de decência que ainda restam neste nosso país.

    Grande abraço e bom domingo.

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