MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

É sempre engraçado, se não fosse trágico, observar a reação das pessoas que se opõem a atual governo. Buscam desmerecer, inclusive, até mesmo aqueles que trabalharam juntos, que estudaram juntos, que foram amigos e agora por uma opção política passaram a ser vistos como inimigos ferrenhos. Como se as pessoas não tivessem vontades próprias ou como se elas são importantes apenas quando atendem nossos anseios.

Recentemente, Roberto Carlos registrou num show a presença do Ministro Sérgio Moro e bastou isso para no dia seguinte, um repórter Marcelo Bortolotti, da revista Época, do grupo Globo, publicasse uma matéria dizendo que Roberto tinha relações com a ditadura e que havia, inclusive, sido premiado com a concessão de uma rádio. Achei, simplesmente, incrível. Roberto Carlos é contratado pela Rede Globo, ganhava uma grana por mês para ter exclusividade com Rede Globo e o Bortolotti vem com essa. A Rede Globo conseguiu a concessão dela pelas boas relações com o Vaticano?

Roberto Marinho foi um árduo defensor do Regime Militar e visitava, digamos assim, a “cozinha do poder”. Paulo Francis, no Pasquim, escreveu em 1971 um artigo cujo título era Um homem chamado porcaria se referindo a Roberto Marinho. O auditor Romero Machado, publicou em 1988 um livro chamado Afundação Roberto Marinho, no qual relata as proezas da Rede Globo, do então VPO – Vice Presidente Operacional, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, e fica nítida a forma de crescimento do grupo mediante relações escusas com o poder.

Chico Anysio se apresentou, no Palácio do Planalto (eu disse no Palácio do Planalto), para o presidente João Figueiredo, exatamente aquele do “senão eu prendo e arrebento”.

Isso desmereceu a careira ou a crítica ácida que ele fazia aos governos? Isso fez dele um cretino? Não me recordo na época, 1979, de nenhum protesto de artistas ou de boicote a Chico por esse show. Ninguém do Grupo Globo emitiu uma nota de repúdio, sequer. Nem Jô Soares que sempre foi muito crítico ao regime militar.

Por conta do apoio da Rede Globo ao regime militar, Chico Buarque tinha restrições ao canal embora Marieta Severo, então sua esposa, fosse uma atriz de destaque nas novelas globais. Em 1986, ele aceitou apresentar um programa, Chico e Caetano, uma vez por mês, entre abril e dezembro daquele ano. A simbiose entre Globo e regime militar era de “unha e carne”, mas o que surpreende é profissionais da Rede Globo que denunciaram torturas, como Miriam Leitão, e outros que trabalharam lá como Franklin Martins, envolvido no seqüestro do embaixador americano que libertou da cadeia, dentre outros, José Dirceu, fingir que não sabiam a posição da Rede Globo, ou seja, estas pessoas perseguidas profissionais de uma empresa que apoiou seus perseguidores. Nunca vi Miriam Leitão criticar isso, pelo contrário vi a entrevista que ela fez a Bolsonaro e vi apenas uma repetidora de informações que chegavam pelo ponto eletrônico.

Cabe lembrar que nobres artistas colocaram Wilson Simonal no rol dos delatores e me recordo de uma entrevista de Caetano Veloso no programa de Jô Soares, no qual ele sugeriu ter sido entregue por Simonal. Elis Regina foi criticada pela participação nas olimpíadas do exército no governo Médici. De modo igual, nos dias atuais, ninguém pode fazer um comentário elogioso sobre o governo, sobre a política econômica, sem que seja chamado de imbecil, idiota, ou, nas palavras do presidente da OAB, “eleitores de Bolsonaro tem desvio de caráter”. Complicado isso, não?

O fato é que a lei tem sido usada para beneficiar quem é rico. As conversas gravadas entre Alexandre de Moraes e Alexandre Victor do TJ-MG mostram claramente de que lado a bandeira balança. Alexandre de Moraes como secretário de Segurança de São Paulo atuando como advogado, fato proibido, falando com ministros do STF para enterrar um processo contra Alexandre Victor. Simplesmente, nojento.

Em relação a Roberto, o STF errou na decisão da liberação da biografia não autorizada. Alegaram que se tratava de uma pessoa pública e Roberto é popular, não público. Público é quem ocupa cargos públicos, recebendo ou não, remuneração com recursos. Roberto tem todo o direito de não permitir que externem coisas de vida pessoal. Nem isso eles são capazes de entender.

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