A PALAVRA DO EDITOR

Não discorro sobre o apanhado de cabelo enrolado que se fixa no alto da cabeça; tampouco sobre o combustível obtido do derivado de carvão vegetal. O coque, digo, o croque aqui referido consiste naquele golpe desferido no platô da cabeça com os nós dos dedos, também conhecido como carolo, castanha, cascudo e cocorote. O croque, no meu entendimento, é o castigo mais cruel e covarde aplicado numa criança.

Quem já foi vítima de um cocorote daqueles entende minha revolta. Existe toda uma técnica desde a preparação até a finalização do croque. Primeiro, a mão deve se posicionar como a ponta de um aríete. Fechada, com quatro dedos bem seguros pelo polegar, de tal forma que o nó do dedo médio se sobressaia dos demais. O golpe para ser perfeito deve atingir o centro do cocuruto do fedelho. O meio da moleira. Aí é tiro e queda.

Via de regra, o algoz que aplica o golpe é um adulto e, as vítimas, crianças. Vem sempre de cima para baixo. O efeito deletério do croque, de tão intenso, não se traduz apenas com palavras. Trata-se de uma dor forte, intensa e momentânea, embora o machucado permaneça por horas ou dias.

A pancada ao atingir determinada extremidade nervosa aciona um circuito elétrico que, em milésimos de segundo, percorre toda a extremidade do corpo da cabeça à ponta do pé. Dependendo da violência, desconecta o controle da bexiga ou antecipa a programação biológica da evacuação. Acredito que o croque una a raça humana em torno do quesito coisa mais detestável.

Dias atrás presenciei, num logradouro da cidade, um pai que na ânsia de calar o filho chorão, lhe desferiu tamanho cascudo que fez o fedelho se acocorar de dor. Lembrei-me, então, de todos os cascudos de minha vida. Nunca apliquei um único cocorote nos meus filhos. Nem cocorote, nem peteleco ou piparote – outra pancada dolorosa para punir crianças rebeldes.

Para quem não sabe, peteleco é o golpe infame desferido nas costas da orelha do indivíduo, decorrente da liberação da tensão imposta ao dedo médio pelo polegar. O dedo escapa como uma catapulta. Dói menos que o cocorote, porém, em compensação, deixa um ardor desgraçado na orelha.

De todos os cascudos dos quais fui vítima, um em especial o quengo nunca esqueceu. O cenário era a cidade de Natal, em 1956. Eu estudava no Colégio São Luís, de padre Eymard, na Rua José de Alencar. Era o mais franzino da turma e alvo contumaz das gozações dos colegas.

Reinava absoluto no colégio um estudante de compleição avantajada, temido por todos. Quem ele escolheu para servir de escada para as suas gaiatices? Eu, claro! Escrevia não lia, o cocorote comia. De minha mãe a recomendação era a seguinte: “Se apanhar no colégio, apanha aqui, também!”. Sabendo-me incapaz de enfrentar o brutamonte, de igual para igual, eu vivia meu dilema atroz: falar ou não em casa acerca das agressões sofridas? Optei por dar um basta à incômoda situação.

A desforra aconteceu quando padre Eymard recebeu de doação alguns caminhões de paralelepípedos para pavimentar a quadra de esportes. Por economia, ele estabeleceu como aula de educação física o transporte das pedras, da rua para dentro do colégio. A tarefa sobrou para a molecada masculina.

Eu, magricela, de calção e sapatos fui, mais uma vez, ridicularizado pelo grandalhão. Humilhado, postei-me atrás do meu algoz, acompanhei-o na demonstração de sua força carregando dois paralelepípedos de uma só vez e, juntos, soltamos nossas pedras. Ele, na pilha formada no pátio do colégio; eu, no seu pé direito, “acidentalmente”.

Resultado: retiraram-me do colégio sem contestação de minha parte. Nunca mais apanhei, porque nunca procurei briga. Elegi a paz e o amor à vida.

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