CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

Para a colunista do JBF, Violante Pimentel

Início dos anos oitenta.

A temporada de circo popular já estava começando a decair, vertiginosamente, por todo o interior da Zona da Mata do Estado de Pernambuco e outras Regiões por causa da chegada do rádio e da televisão, que invadiram os lares sem pedir licença! O progresso é uma religião cujo deus é o capitalismo!

Nessa época chegou aos arredores do “Sítio São Francisco” de propriedade dos meus pais, um circo sem nome que a gente logo o alcunhou, sarcasticamente, de “Deus tomara que não chova”.

Composto de um palhaço, desmilinguido, pau para toda obra, dois cachorros vira latas, uma macaquinha, um papagaio desbocado e quatro adolescentes filhos do palhaço, buchos cheios de ascaris lumbricoides, que minha mãe ajudou a tratar com ervas do mato e muito leite da jumenta Mimosa, muito aliciada pelos moleques.

Antes da primeira apresentação, o palhaço saiu de sítio em sítio durante o dia numa bicicleta toda “esculhambada”, convidando a população aos berros no megafone que ia haver espetáculo à noite e que começava às oito horas. Aproveitando o ensejo, já que era um circo paupérrimo, pedia alimentos para suster a família aos proprietários dos sítios que visitava. Papai sempre dava mais do que o necessário!

“Fome dá dor de cabeça” – dizia ele!

No dia da primeira apresentação chegou do Recife uma cunhada que a gente chamava de “Cumade Salvina”. Balzaquiana cheia de vida, morenaço alegre, descontraída, desbocada, espevitada, histérica. Cochas grossas, bunda enorme, tarada por homem. Ria de tudo e de todos, “encabulava até a mãe de calor de figo” com suas gargalhadas histéricas e escandalosas”, no dizer de mamãe.

A gente a adorava. Ríamo-nos de se mijarmo-nos!

Sete da noite, taca a gente para o circo assistir ao tão aguardado espetáculo, principalmente a apresentação do palhaço e do malabarista num homem só.
Ao chegarmos ao “circo”, a arquibancada velha e cai mais não cai, já estava toda ocupada de marmanjos e marmanjas da redondeza, cheios de expectativa pela estreia.

Ocupamos mais de oito assentos nas arquibancadas que davam de frente para o picadeiro. Estrategicamente deixamos Cumade Salvina sentada no meio da trupe, fronte a frente com o palhaço.

Antes de sair de casa mamãe recomendou a Cumade Salvina para se comportar com o juízo, “pois suas risadas escandalosas poderiam tirar a concentração do palhaço e malabarista e esse poderia perder a compostura, ficar aborrecido e querer tirar satisfação com ela.”

Mais ou menos às sete e meia da noite entra um adolescente com o rosto todo melado de cal, sobe no picadeiro e, com voz de falsete, anuncia o primeiro número da noite:

– Atenção, minha gente! Vamos receber agora o maior equilibrista da redondeza. Ele consegue movimentar seis troncos de mulungu sem deixar nenhum cair no chão por mais de meia hora!

Fica em cima de uma tábua equilibrada numa bola sem cair no chão por mais tempo e ainda equilibra a bola na cabeça por mais de uma hora sem ela cair no chão!

É fantástico!

Quando o palhaço entra no picadeiro todo lambuzado de tinta amarela, calças e camisa remendada, e começa a movimentar os paus lisos, um espírito zambeteiro baixa em Cumade Salvina que, não contendo o riso, começa a gargalhar sem parar: Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá!…, com o povo ao lado da arquibancada se sirrindo-se de se mijar-se também!

Nesse momento, o palhaço joga os paus para cima e, meio desequilibrado, deixa dois caírem no picadeiro. Desequilibra-se da tábua e cai no chão esparramado também, ficando todo melado de lama, pois havia chovido horas antes e o circo não tinha lona para cobrir todo o teto e o lamaçal fez a festa. Vendo a cena bizarra, hilária, Cumade Salvina não se contém e desaba numa risadagem histérica sem fim, que chama a atenção até do povoado circunvizinho ao circo.

– Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá!… Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá!…

Encabulado e todo melado de lama, o palhaço pega a tábua e as bolas, se dirige à Cumade Salvina e pede “pelo amor de Deus”:

– Moça, por favor! Deixe das suas risadagens porque quem já está ficando destreinado sou eu! A continuar desse jeito com a senhora com essas risadas altas eu não consigo me concentrar! O espetáculo vai por água abaixo e eu fico sem meu ganha pão!

Mal o palhaço deixou de falar Cumade Salvina desabou noutra risadagem histérica tão da molesta do cachorro que nós achamos por bem pegar o Bonde do Tigrão e partir para casa antes que o palhaço perdesse as estribeiras e tacasse o cacete em toda trupe!

Cumade Salvina tirava qualquer um do sério, até palhaço de circo! Quá! Quá! Quá!

P:S: Hoje, mesmo já beirando os oitenta e cinco, Cumade Salvina continua uma morenaça, sex appeal, fogosa, doida por homem e reclamando da viadagem que empesta o mundo! Quá! Quá! Quá!

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