MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

Em 1964 tínhamos na Faculdade um professor de Estatística (a matéria que se ocupa da medida matemática da ignorância humana) que era o perfeito exemplo de um abilolado mestre: camisa por fora das calças, cabelo despenteado, um sapato marrom e o outro preto de vez em quando, totalmente desligado da realidade. Fumava adoidado, inclusive na sala de aula, e de vez em quando chupava o giz e tentava escrever na lousa com o cigarro. Vivia em algum ponto do cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter.

Pois bem, tal professor (chamá-lo-emos – êta língua a nossa – Prof. Armando) era proprietário de um DKW Vemag, parecido com o da foto abaixo (a porta dianteira abria pra frente, e era chamada de “porta suicida”).

DKW Vemag

O Prof. Armando nunca se preocupou em travar as portas nem em tirar a chave do carro. Os ladrões nessa época não tinham a proteção do STF e, portanto, não pegavam tão pesado, além do que um DKW Vemag não era um artigo cobiçado. Foi aí que a molecagem, que sempre fez parte do espírito estudantil, juntou-se ao capiroto para fazer cócegas nos intestinos que comumente ocupavam o cérebro de alguns colegas.

Pegaram o carrinho, mudaram a preciosidade para o outro lado do prédio e ficaram todos amoitados para ver o professor sair ao final das aulas. Ele foi direto ao ponto onde estacionava, viu a vaga vazia e não entendeu nada. Coçou a cabeça, olhou de um lado para outro, pigarreou, fumou um cigarro e pediu para a secretaria da escola chamar a polícia. Havia sempre uma viatura da Polícia Civil de plantão na Cidade Universitária e ela logo atendeu ao chamado. O Prof. Armando fez sua reclamação, pediu um táxi e foi embora.

Bem, com a Polícia envolvida, bateu o cagaço nos autores da brincadeira. Eriçaram-se lhes os pelos do rabo e à noite foram lá e repuseram o carrinho do professor na vaga que lhe era assinalada.

No dia seguinte, eis o nosso querido Prof. Armando chegando para sua jornada ensinatória. Assim que desceu do carro de outro professor que lhe havia dado carona, a alegria se estampou na sua face. Correu para seu amado veículo e viu que tudo estava lá, inclusive a chave no contato. Não conteve o entusiasmo: deu a partida e foi dar uma volta pelas redondezas para se certificar que tudo estava em ordem. O carrinho estava em ordem, mas…

Deu merda.

A Polícia o grampeou:

– Senhor, esse carro é roubado. O senhor está preso!

– Mas o carro é meu.

– Todos os ladrões de carro falam a mesma coisa. Vamos até a delegacia e lá o senhor explica pro Delegado.

E lá se foi o Prof. Armando, barba mal feita e camisa por fora da calça, no banco traseiro de um fusca preto e branco da Polícia Civil, devidamente imobilizado pelos agentes da Lei.

Não sei se esse incidente teve alguma influência, mas a prova mensal de Estatística do mês foi a mais difícil do ano.

11 pensou em “O CARRINHO DO PROFESSOR

  1. Mag magnífico….bota esses causos num livro…..eu tive um professor de física (física 2) que dava aula olhando pra janela. Ficava num plano perpendicular ao dos alunos…..

    • Grande Maurício Assuero:
      Em verdade estou preparando tal opúsculo (quem sou eu para dizer que vou fazer um livro quando vejo uma fera como o Berto?), que deixarei como lembrança aos meus filhos e netos quando me encantar.
      Tenha um bom final de semana.

    • Grato pelo comentário.
      Gostaria que um de nossos literatos da Besta Fubana (há muitos, todos brilhantes, começando com o Berto) fizesse um apanhado de doidices com não somente os professores doidões, mas com os políticos de tal categoria (tipos como a Dilma, Tenório Cavalcanti, etc.).
      Tenha um bom final de semana.

    • eu tive vários. Teve um que chegou na sala com dois pregos, um martelo, um pedaço de cordão. Enfiou os pregos no quadro a um dada distância, amarrou o giz o cordão, amarrou num dos pregos pra mostrar como se fazia uma elipse *os pregos eram os focos). Teve outro que entrou no banheiro das mulheres e quando estava saindo uma aluna ia entrando. O cara chamou a menina de tarada. Teve outro que estava dando aula e ouviu um baralho na sala. Ele se voltou e barulho parou. isso se repetiu umas 4 vezes e puto da vida o cara disse que não dava aula com a turma fazendo barulho. O barulho eram os passarinho na lâmpada florescente. Teve outro, a mulher grávida de 9 meses, ele saiu da aula, numa sexta feira, e foi para um bar tomar cerveja com outro professor que era da UFAL. Resultado: entrou no carro do cara e foi para Maceió com ele. Não havia celular, a mulher do cara quase dando a luz e o cara sumiu. Deram parte e Caetano foi o último a vê-lo no bar, disse que ele estava com “fulano”. Ligaram para o cara e David está em Maceió. Com a mesma roupa da sexta feira…. enfim, o departamento de matemática e física era uma festa.

      • E não só de doidices alegres vivem os mestres de Matemática.
        Lembro-me do ilustre e internacionalmente renomado Cientista e Professor Abrahão de Morais, que além de professor de Cálculo era o Diretor do Instituto Astronômico e Geofísico da USP. Tive a grande honra de tê-lo tido como professor de Cálculo na Escola Politécnica em 1963. Era simplesmente um cientista excepcional. Morreu atropelado em 1970 quando atravessava a Avenida Jabaquara perto da Igreja de Santa Cruz, com a cabeça nas nuvens. A Av. Jabaquara desde então passou a chamar-se Avenida Abrahão de Morais em sua homenagem.

    • Sancho, você é inimitável. Nossa língua também.
      Cada vez que vejo sua coluna me dá canseira nos Risórios de Santorini de tanto rir.
      Um grande abraço.

      • Quem tem covinhas tem risórios-de-santorini, quem não tem covinhas poderá ter ou não. […] estamos a falar de um músculo dedicado ao riso, marca comum estampada nos rostos dos fubânicos, ao lerem os magnovilhosos cronistas fubânicos…

    • Verdade, esqueci-me disso. Mas me lembro dos primeiros fusquinhas com teto solar: “cornowagen”.
      Tenha um bom final de semana.

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