JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

O campanário da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, último vestígio visível da antiga cidade de São Rafael, desmoronou num domingo, dia 12 de dezembro de 2010.

A cidade original de São Rafael, no Rio Grande do Norte, situada no Vale do Açú, começou a ser inundada em fevereiro de 1983, pelas águas da atual Barragem Armando Ribeiro Gonçalves, com capacidade de armazenamento de 2,4 bilhões de metros cúbicos.

São Rafael resultou de um conglomerado indígena denominado Caiçara, isso em meados do século XVIII. Consta que a denominação da cidade emanou de um capuchinho, Frei Serafim de Catânia, que atuou como missionário na região entre 1840 e 1880. Em 1938, o pólo habitacional passou à condição de distrito de Santana do Matos, conquistando sua emancipação política dez anos depois.

Ao sacrificarem a velha São Rafael, os que ali moravam – cerca de 730 famílias na zona urbana e outras 1 852 na zona rural -, foram transferidos para uma nova São Rafael construída à margem da barragem, aparelhada para sediar o município.

Não foi fácil incutir na população a necessidade da mudança. Várias exigências foram postas à mesa de negociações, dentre elas, a de transferir os corpos que repousavam no cemitério a ser inundado, para o campo santo da nova cidade.

Porém, a mais significativa das cobranças processou-se em razão da devoção dos habitantes da cidade por Nossa Senhora da Conceição. Para concordarem com a transferência eles exigiram a construção de uma réplica da igreja da santa padroeira da comunidade, em ponto estratégico da nova cidade. Assim foi erguido um modelo fiel do antigo templo cristão ao agrado dos munícipes.

O aumento ou a diminuição do nível da barragem, decorrente de bons ou maus invernos, escondia ou descobria a torre da velha igreja, criando permanente expectativa nos moradores da recém criada São Rafael ansiosos por visualizarem a cruz preservada no topo do campanário.

Terminado o inverno, com o nível de água da barragem retrocedendo, a torre da igreja ia aos poucos aparecendo, e se mantinha visível durante o período da estiagem, oferecendo ao espectador uma visão surrealista de um campanário solitário e altaneiro no meio da imensidão líquida do açude. Então se destacava a cruz, símbolo da fé e da devoção do povo de São Rafael à sua padroeira Nossa Senhora da Conceição.

Pois bem, essa paisagem desapareceu abrupta e definitivamente do olhar atento dos remanescentes moradores da velha cidade. Agora está gravada apenas na lembrança dos são-rafaelenses e nos escritos de abnegados memorialistas, dentre os quais eu me incluo, quando da publicação do romance “O Segredo da Matriz”, vivenciado na antiga e querida cidade desaparecida.

Ruir seria a tendência natural do que restou da torre da matriz. A falta de base consistente, solapada pelo movimento das águas, aliada às agressões sistemáticas perpetradas por vândalos aos escombros do templo, aceleraram o processo de instabilidade da construção levando ao consequente desmoronamento.

Reconstruí-la é o desejo de todos. Em termos estruturais não é impossível; economicamente, nada módico. O velho campanário foi o símbolo da fé de um povo em Nossa Senhora da Conceição, e ponto turístico do município enquanto esteve de pé.

3 pensou em “O CAMPANÁRIO RUIU

  1. Uma pena. Aqui em Recife um prefeito derrubou um igreja do século XVIII para construir uma avenida ligando nada a coisa nenhuma

  2. Sim, é tristeza. Revoltam-me procecedimentos contra a memória do povo brasileiro. Obrigado, Assuero, pela manifestação.

  3. Assuero e Narcelio,
    “Ligar nada a coisa nenhuma” parece ser o “esporte preferido” de prefeitos e governadores de alguns cantos e recantos do Brasil.

    Rabo de gato, bigode de gato, pelo de gato, unhas de gato… gatunagem que tem assaltado estados e municípios em governos tantos.

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