ARISTEU BEZERRA - CULTURA POPULAR

Todo voto vinculado
Eu comparo com aquela,
Que o sujeito se casa
Com uma linda donzela,
Mas tem que morar na marra
Com toda família dela.

Oliveira de Panelas

Fico feliz quando canto
Meus versos de improviso
Os dedos chutando as cordas
Os lábios com ar de riso
Sopra o vento de repente
Raspando o chão do juízo.

Onésimo Maia (1951- 2001)

Aonde, eu chego não vi
Mal que não desapareça
Raposa que não se esconda
Bravo que não me obedeça
Letrado que não me escute
Cantor que não endoideça.

Pinto do Monteiro (1895- 1990)

Eu tenho setenta anos,
Nessa vida nua e crua.
A noite eu passo em casa,
O dia eu passo na rua.
E a morte me convidando
Pra nós dois morar na lua..

Olegário Fernandes

Hoje eu estou fervendo
Pior que fogo amarelo
Prego duro eu entorto
Ou arranco de martelo
Cantor ruim sai da frente
Se não eu te atropelo…

Melão Repentista

7 pensou em “O BOM HUMOR NOS VERSOS DOS REPENTISTAS

  1. Excelente a seleção de estrofes bem-humoradas. Se fosse eleger a melhor, teria dificuldades; entretanto os versos de Pinto do Monteiro me impressionaram pela sabedoria e beleza: Aonde, eu chego não vi/Mal que não desapareça/Raposa que não se esconda/Bravo que não me obedeça/Letrado que não me escute/Cantor que não endoideça.

    • Pinto do Monteiro (1895- 1990) tinha a naturalidade e rapidez de improvisar na construção dos versos, e essas eram características marcantes em sua cantoria. Apelidado “A Cascavel do Repente”, o repentista era ágil, certeiro, veloz, e também venenoso e mortífero, se provocado não tinha papas na língua nem conveniências. E o contendor era obrigado a recuar porque, com sua peculiar fertilidade de versejar, era capaz de fazer uma segunda sextilha antes que o outro se refizesse do choque da primeira resposta.
      Aproveito a ocasião para compartilhar uma estrofe do genial Pinto do Monteiro com o prezado amigo:

      Eu não posso confiar
      Em cabra que tem verruga
      Cachorro de boca preta
      Terreno que pouco enxuga
      Comida que doido enjeita
      Casa que cigano aluga.

      Pinto do Monteiro (1895 – 1990)

  2. A minha segunda-feira ficou mais alegre ao ler os versos bem-humorados dos repentistas. O humor é um estado de espírito, muitas vezes utilizado a favor da vida e das relações. O humor funciona também para expressar aquilo que não conseguiria ser dito de outra forma. Pode aparecer em uma crítica mais delicada ou no modo de apontar um erro em alguém.
    Fiquei impressionado com a sextilha de Melão Repentista, e se fosse uma votação daria meu voto a sua bela estrofe: Hoje eu estou fervendo/Pior que fogo amarelo/Prego duro eu entorto/Ou arranco de martelo/Cantor ruim sai da frente/Se não eu te atropelo…

  3. Messias,

    Grato por seu ótimo comentário. Concordo plenamente com suas observações a respeito do humor. Uma função importante dele é ser facilitador das relações sociais, sendo o primeiro passo para a aproximação dos indivíduos, aumentando o nível de aceitação e confiança entre duas ou mais pessoas ou nas situações de grupo. Aproveito esse espaço democrático do Jornal da Besta Fubana para compartilhar uma estrofe de Melão Repentista:

    Se hoje eu sou ruim
    Pra aquele que me detesta
    Deixo falar o que queira
    Dizer isso é que me resta
    Nós nunca seremos bons
    Na boca de quem não presta.

    Melão Repentista

    Saudações fraternas,

    Aristeu

  4. Parabéns, prezado Aristeu, pela excelente postagem, “O BOM HUMOR NOS VERSOS DOS REPENTISTAS”.
    Você alegrou o começo da semana dos leitores, com essa preciosidade.

    Da sua seleção de versos bem-humorados, destaco

    “Fico feliz quando canto
    Meus versos de improviso
    Os dedos chutando as cordas
    Os lábios com ar de riso
    Sopra o vento de repente
    Raspando o chão do juízo.

    Onésimo Maia (1951- 2001)”

    Uma ótima semana, com muita saúde e Paz!

    Violante Pimentel Natal-RN)

  5. Violante,

    Grato por seu notável comentário. A respeito do repentista Onésimo Maia (1951 – 2001) destaco que, a rapidez ao pronunciar suas rimas e o pleno domínio da contação acompanharam esse talentoso poeta e cantador de viola ao longo de seus 30 anos de carreira. Por décadas, o repentista expôs sua arte para plateias em cidades de todo o país. Como violeiro, participou de vários festivais de repentistas do Nordeste e ainda levou o nome do interior potiguar a Portugal, dividiu o palco com os artistas Antônio Lisboa e Elino Julião. Aproveito a oportunidade para contar um episódio desse mestre do admirável universo do repente para a prezada amiga.

    Antigamente havia a cantoria de elogio. Ou seja, o cantador falava os nomes dos ouvintes e estes iam colaborando, colocando o pagamento numa bandeja.
    O repentista Onésimo Maia fazia uma cantoria desse tipo em Natal (RN), quando Aloísio Alves – na época governador naquele estado – ao invés de colocar o dinheiro na bandeja botou no bolso do poeta, que imediatamente fez essa estrofe:

    Dr. Aloísio Alves
    agora compareceu
    Botou dinheiro no meu bolso
    Vou ver quanto ele me deu
    Do jeito que ele é sabido,
    Pode ter levado o meu.

    Desejo uma semana plena de paz, saúde e alegria

    Aristeu

  6. Essa eu não conhecia…kkkk. Obrigada, Aristeu, por compartilhar comigo essas informações e os versos com Aluízio Alves…Adorei!!!

    Uma semana plena de paz, saúde e alegria para você também!

    Violante

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