A PALAVRA DO EDITOR

As obras que inauguraram o faroeste à brasileira, surgido na primeira década deste século, patentearam uma fórmula mais audaciosa que qualquer ousadia do Cinema Novo. Os roteiros viram pelo avesso os similares norte-americanos. É o bandido que persegue o mocinho, é o vilão que vive tentando prender o xerife, as mulheres bonitas são cúmplices dos delinquentes e o final é infeliz para gente honesta: os fora da lei acabam se livrando da cadeia. Foi assim, por exemplo, em O Mensalão Não Existiu, um clássico do gênero. Alguns figurantes foram transferidos do semianonimato para a gaiola. Mas os oficiais graduados do exército de gatunos nem esquentaram o merecidíssimo catre. Logo devolvidos à liberdade, seguiram berrando que a roubalheira foi uma invencionice de inimigos dispostos a tudo para minar a popularidade do chefão que dormia sonhando com a erradicação da pobreza e acordava planejando o sumiço da miséria absoluta.

Essas manifestações de cafajestagem farisaica, elevadas à categoria de arte nos oito anos de governo Lula, parecem coisa de principiante se confrontadas com a safra mais recente de faroestes à brasileira. Agora, os bandidos perseguem o mocinho e os vilões buscam prender o xerife com a ajuda de integrantes do grupo formado por 11 juízes que podem julgar qualquer coisa ou decidir o destino de qualquer vivente e não podem ser julgados por ninguém. São nove homens e duas mulheres, que se reúnem no Supremo Tribunal Federal. Todos cobrem com togas negras o terno escuro-Brasília ou o vestido missa das 10 no interior. Entram no plenário em fila indiana, para a abertura da sessão ou para recomeçá-la, com o semblante severo de quem chegou ao velório no momento do fechamento do caixão. Falam um dialeto inacessível a quem só fala língua de gente. Referem-se uns aos outros como “eminente ministro” (ou “eminente ministra”). Alternam o latinório com citações de juristas alemães ou italianos. O mais antigo da turma é chamado de “decano”.

Bonito é pouco para qualificar o buquê de pompas e fitas. Feio é pouquíssimo para definir o papelão que anda fazendo a maioria dos doutores em tudo. Neste fevereiro sem Carnaval, o elenco se divide entre os discípulos de Gilmar Mendes e os outros. Já faz tempo que Ricardo Lewandowski, Dias Toffolli e Alexandre de Moraes se orientam pela palavra do Mestre, que anda se gabando de ter transformado o trio em quarteto com a anexação de Cármen Lúcia. Se não estiver mentindo, e contando com o líder da bancada, já são cinco. Único indicado por Jair Bolsonaro, Kássio Marques ainda engatinha no Pretório Excelso. Mas o bloco se tornará majoritário caso o caçula continue percorrendo caminhos que levam ao colo de Gilmar Mendes. Se tal desastre for consumado, tirem as crianças da sala quando os seis derem as caras na TV Justiça. E preparem o estômago, reiterou nesta semana o desempenho de Gilmar, Cármen Lúcia, Lewandowski e Marques na sessão da Segunda Turma que fez o diabo para transformar um corrupto juramentado em vítima de medonhas injustiças, Sergio Moro e os procuradores da Lava Jato em algozes desalmados e a mais produtiva operação anticorrupção de todos os tempos numa tentativa de assassinato do direito de ampla defesa e do devido processo legal. Haja cinismo.

Em tese, os ministros estavam numa sala do STF para decidir se Lula deveria ou não ter acesso a mensagens supostamente trocadas por profissionais engajados na Lava Jato e furtadas por hackers. Quem vê as coisas como as coisas são enxergou nitidamente o último ensaio dos canastrões empenhados em anular a condenação de Lula pelas maracutaias que envolveram o tríplex no Guarujá. Até as cadeiras do Supremo sabem que promotores de Justiça e magistrados costumam conversar sobre processos e investigações em andamento. Sabem que o conjunto de mensagens apenas reitera que Moro e os procuradores trabalharam unidos para desmontar o maior esquema corrupto da história. Sabem que nenhum inocente foi preso. Sabem que a condenação imposta por Moro foi ratificada pelo Tribunal Regional Federal. Mas a trupe de Gilmar faz de conta que o ex-presidente foi alvo de um complô de dimensões siderais arquitetado por gente que só pensa em prender gente que presta. O líder da bancada, claro, foi o protagonista do teatrão de quinta categoria.

(Alguns leitores hão de lembrar do velho Victor Mature em Sansão e Dalila. A força de Sansão estava nos cabelos. Mas o intérprete se concentrava nas sobrancelhas. Obedientes ao script, e orientados pelos sentimentos a traduzir – paixão, fúria, angústia, altivez -, os tufos de pelos subiam e desciam, moviam-se para os lados, juntavam-se no centro da testa ou estacionavam em perfeita simetria. Se quisesse, Mature poderia ficar mudo do início ao fim do filme. Falariam por ele as sobrancelhas. O ator Gilmar Mendes não consegue dispensar a voz, o olhar e o suporte gestual quando se exibe no palco do Supremo. Mas a performance não teria nada de mais se não fosse o beiço. O estranho fruto produzido pelo abraço dos lábios é para o superministro o que foram as sobrancelhas para Victor Mature.)

O beiço fez o possível para convencer a plateia de que Gilmar nunca vira nada tão revoltante quanto o comportamento dos responsáveis pela devassa do escândalo do Petrolão. Projetou-se como o braço do pugilista que desfere um direto de direita, por exemplo, quando o orador despejou o palavrório decorado dias antes: “Em algum lugar mais sensível e talvez mais ortodoxo em matéria de Direito, é de se dizer: essa gente estava se permitindo torturar pessoas”. O ministro não identificou os torturados, nem esclareceu se Lula está entre eles. O beiço garantia que Gilmar estava dominado pela perplexidade. A folha corrida informa que ele só fica perplexo com sentenças condenatórias. Como demonstrou Ana Paula Henkel num artigo publicado na revista Oeste, nenhuma absolvição é capaz de deixá-lo assombrado.

Entre outras obscenidades, o ministro livrou da cadeia o doutor em estupro Roger Abdelmassih, o vendedor de nuvens Eike Batista, oficiais graduados do bando de Sérgio Cabral, o irrecuperável Anthony Garotinho, o amigo José Riva (recordista de bandalheiras em Mato Grosso), o parceiro Silval Barbosa (ex-governador do Estado em que Gilmar nasceu e ladrão compulsivo) e o compadre Jacob Barata (chefão da máfia dos transportes no Rio). A fábrica de habeas corpus que administra nos porões do Supremo funciona também em fins de semana e feriados. Gilmar não se espanta com nada. O Brasil decente é que não para de espantar-se com a desfaçatez do ministro que na metade deste ano se tornará o decano do Supremo. Ele sempre sonhou com o posto que fez de Celso de Mello o Pavão de Tatuí. Antes mesmo de chegar lá, o padroeiro dos culpados capricha na pose de Maritaca de Diamantino.

7 pensou em “O ASTRO DO FAROESTE À BRASILEIRA

  1. Pois é …..

    Augusto Nunes errou ao dizer ……..

    “…………integrantes do grupo formado por 11 juízes que podem julgar qualquer coisa ou decidir o destino de qualquer vivente e não podem ser julgados por ninguém………”

    Claro que podem e existe gente, de acordo com a CF, que tem o poder para julgar esta cafajestada do STF

    Quem ?? Quem /?? Quem ?? ……. Os Senadores …… simples assim

    Tem 3 (três) elementos do STF que são essenciais.

    Devem ser julgados, condenados, sentenciados, presos e depois com a aprovação da pena de morte pelo Congresso Federal, guilhotinados …. mais simples ainda…..

    Como está difícil escolher poderia ser colocado para votação quais seriam os tres ……….

    Beiçola,
    Franguito de SBC
    Elemento do PCC

    Os pedidos estão lá …… basta ter coragem e assim justificar seus salários e privilégios imorais

    Se não der, em 2022 teremos chance de renovar 27 senadores da República que não tenham rabo preso e um pouco de bom senso para tomar esta decisão …….

    Eles acham que vamos esquecer …………..

  2. politica.estadao.com.br
    Após Gilmar comparar Lava Jato a ‘esquadrão da morte’, procuradores saem em defesa da força-tarefa
    Fausto Macedo

    Após o ministro Gilmar Mendes defender correções em relação à Lava Jato e comparar a força-tarefa a um ‘esquadrão da morte’, a Associação Nacional de Procuradores da República (ANPR) saiu em defesa dos integrantes da operação. Em nota pública divulgada na noite desta sexta, 12, a entidade afirma que o ministro desrespeitou a Lei Orgânica da Magistratura Nacional e agiu ‘como se estivesse acima da legislação’.

    A declaração de Gilmar foi dada ao portal UOL. Ao ser questionado sobre as informações reveladas nas conversas hackeadas da Operação Spoofing, o ministro afirmou que considera tudo ‘lamentável’.

    “Todos nós de alguma forma sofremos uma manipulação disso que operava em Curitiba. Acho que temos que fazer a correções devidas, tenho dito e enfatizado que Lula é digno de um julgamento justo”, afirmou. “Independentemente disso, temos que fazer consertos, reparos, para que isso não mais se repita, não se monte mais esse tipo de esquadrão da morte. Porque o que se instalou em Curitiba era um grupo de esquadrão da morte, totalmente fora dos parâmetros legais”.

    Para a ANPR, Gilmar infringiu a Lei Orgânica da Magistratura Nacional ‘como se estivesse acima da legislação’. “Ironicamente, o mesmo ministro acusa membros do Ministério Público Federal (MPF) de agirem à margem da lei, sob denominação de ‘esquadrão da morte’”, aponta a entidade.

    Segundo a associação, a comparação do ministro ofendeu procuradores envolvidos na operação, os demais colegas de Corte e magistrados de diversas instâncias do País que validaram dezenas de ações penais derivadas da Lava Jato.

    “Como integrante da mais alta Corte do país, o Ministro Gilmar Mendes deveria se portar em respeito às normas, à Constituição e visando preservar a imagem do Supremo Tribunal Federal, buscando o fortalecimento e não o enfraquecimento das instituições, essas sim, essenciais ao país”, frisou a ANPR.

    O ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes. Foto: Gabriela Biló / Estadão

    As declarações de Gilmar ocorrem dias após a Segunda Turma do Supremo, a qual faz parte, validar por quatro votos a um a liminar do ministro Ricardo Lewandowski que concedeu à defesa do ex-presidente Lula acesso às mensagens hackeadas do ex-coordenador da Lava Jato Deltan Dallagnol, do ex-juiz Sérgio Moro e dos demais integrantes da força-tarefa.

    O julgamento foi marcado por duras críticas de Gilmar e Lewandowski, que formam a ala crítica à Lava Jato na Segunda Turma. Nos bastidores do Supremo, a sessão foi vista como uma espécie de ‘prévia’ do julgamento da suspeição de Moro, que deve ocorrer ainda neste semestre.

    “Já é possível depreender o funcionamento de uma certa combinação institucionalizada e permanente, a serem verdadeiras as mensagens, entre o juiz e os ex-membros da força tarefa da Operação Lava Jato. Isso tudo ressai dessas mensagens. Os fatos são tão graves que estão repercutindo mundo afora”, criticou Gilmar Mendes.

    LEIA ABAIXO A ÍNTEGRA DA NOTA DA ANPR CONTRA AS DECLARAÇÕES DE GILMAR MENDES:

    Em relação às declarações do ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, nesta sexta-feira (12), a respeito da atuação da Operação Lava-Jato, a Associação Nacional dos Procuradores (ANPR) lamenta que, novamente, o magistrado desrespeite as regras impostas pela Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman).

    Como se estivesse acima da legislação, Gilmar Mendes, mais uma vez, manifesta opinião sobre processo pendente de julgamento, o que é expressamente vedado pela Loman.

    Ironicamente, o mesmo ministro acusa membros do Ministério Público Federal (MPF) de agirem à margem da lei, sob a denominação de “esquadrão da morte”.

    A comparação feita pelo magistrado ofende, além dos procuradores e procuradoras envolvidos na operação, os próprios colegas de Corte, além de magistrados de todas as instâncias do Judiciário brasileiro que, em diversos julgamentos ocorridos, validaram dezenas de ações penais promovidas.

    Ainda, com o intuito de enfraquecer o Ministério Público brasileiro, instituição independente e essencial ao país, o Ministro reclama a aprovação de mecanismos de controle contra seus membros, fingindo desconhecer que, já há mais de 15 anos, foram criados os órgãos de controle externo do Ministério Público e do Poder Judiciário, que atuam com transparência e a partir de julgamentos públicos que podem ser acompanhados por todos.

    Como integrante da mais alta Corte do país, o Ministro Gilmar Mendes deveria se portar em respeito às normas, à Constituição e visando preservar a imagem do Supremo Tribunal Federal, buscando o fortalecimento e não o enfraquecimento das instituições, essas sim, essenciais ao país.

    Diretoria da Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR)

    • Pois é ….

      E daí ???!!!! ……

      Vão fazer uma representação junto ao Senado Federal ???

      Falar e criticar eu também faço, e, pra (b)aralho ….!!!!

      A instituição atacada foram vocês, promotoria…… E daí ????

      O que importa é o que vão fazer de prático contra este meliante ??

      Vocês também são covardes/rabo preso, portanto é melhor não se arriscar ????

  3. Se o Gilmar Mendes e o bandido do faroeste brasileiro gente como o Goiâno e o Kakay e o cocô do cavalo do bandido. Paisinho de juízes e advogados de merda já dizia Saulo Ramos

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