A PALAVRA DO EDITOR

Vitor Belafonte, Belafonte ou simplesmente Bel sempre foi considerado um gajo simpático e conquistador. Trabalhava no Ministério da Fazenda, em Goiânia, quando conheceu Letícia, sua futura esposa.

Ele com 45 anos e ela com 38. Letícia possuía espírito empreendedor e o canalizou para uma empresa de roupas infantis. Ela nunca descuidou do corpo escultural, tanto é que na juventude foi selecionada como a segunda colocada num dos concursos de Miss Goiás, representando a sua cidade natal.

Estavam casados há dez anos quando Letícia propôs a Belafonte largar o emprego para tocarem, juntos, um negócio familiar. Ao aceitar o convite, Belafonte provou confiar no trabalho da esposa e isso reforçou os laços afetivos entre ambos.

Beirando os 55 anos e sem filhos, Belafonte ainda mantinha o físico sarado compatível com a idade, altura e peso. Cabelos pretos com entradas brancas nas têmporas destacavam o charme que ele sabia explorar com competência invejável.

Para largar o emprego impôs uma única condição à esposa: dispor de uma noite por semana para jogar sinuca com os amigos. Mesmo relutando, Letícia fixou as quintas-feiras.

Vestindo calça jeans, camisa polo, alpercatas, boina francesa e, lógico, um primoroso taco, Belafonte saía de casa quinze para as oito e retornava por volta de uma da madrugada. Religiosamente. Letícia no começo estranhou ficar sozinha no apartamento, mas com o tempo se acostumou.

Acontece que o jogo era o pretexto dele para curtir a noite movimentada da capital. No Goiânia Atlético Clube dispunha de armário onde guardava blazers, calças, camisas finas e mocassins, segundo ele, o “kit sedução”. Jogava uma ou duas partidas de sinuca e partia para o furor da boate Amor Bandido.

De tão popular no recinto, os frequentadores o apelidaram de Bel, o Traquinas. Mão aberta, educado, engraçado e sedutor era o queridinho de solteiras, separadas, casadas espevitadas e viúvas. Elas o adoravam e ele a todas cedia, de bom grado, as intimidades que as sedentas por carinho procuravam.

O sucesso de Bel naquela casa noturna chegou à outra boate da cidade, a não menos famosa Média Luz. Ali reinava outro mito: uma mulher elegante e reservada conhecida por Cinderela, porque desaparecia do ambiente pontualmente à meia-noite.

Ao sair ela deixava de lembrança para seu acompanhante um chaveiro contendo miniatura, em acrílico, de um sapato de cristal. Todos que a viram garantiam se tratar de mulher bastante atraente. De tanto ouvir falar de Bel a curiosidade tomou conta de Cinderela.

Com a aquiescência das duas boates ela organizou um evento o qual denominou de Quinta Maior, onde frequentadores de ambas as casas confraternizariam, cabendo às mulheres dar o clima de mistério ao encontro usando máscaras.

Compareceu à festa a fina flor das duas boates, cabendo a Bel a representação da boate Amor Bandido. Cinderela então conheceu Bel, o Traquinas. Ela de máscara; ele quase embriagado. Com o ardente desejo satisfeito, Cinderela saiu da festa no horário habitual sem se curtirem. Mesmo assim, Bel cobrou e ganhou um chaveiro de consolação.

Dias depois, forte enxaqueca acometeu Letícia, e Belafonte assumiu a tarefa caseira de ir às compras. Com o seu carro em revisão, ele utilizou o da mulher. Ao acomodar os pacotes no porta-malas achou uma caixa escondida sob os tapetes. Abriu-a e nela encontrou máscaras e chaveiros com miniaturas de sapatos, em acrílico.

Bel nunca comentou a descoberta no carro de Letícia, nem ela disse que o reconhecera no evento da Quinta Maior. Ele deixou de jogar sinuca, e ela de distribuir chaveiros. Prevaleceu o bom-senso, e eles continuam juntos e felizes.

Alguém tem dúvida de que amor é lindo?

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