NUKUCHU, O HOMEM TRABALHO

Modelo de caminhão da época do capotamento

Nukuchu era um imigrante japonês baixinho, perna fina, cabelo preto, mão de vaca, desse que dá um peido e cheira a catinga toda. Veio morar no distrito de Lagoa do Carro (PE) no início do Século XX, fugindo do horror nazista.

Sem eira nem beira, procurou guarida no sítio de Zuzuku, parente distante também fugido do nazismo, que logo lhe providenciou “umas terras” para cultivar e o enganchou com a sobrinha de sua esposa, Maria Peitão, apelidada pelos peões de Zacumida, por ser completamente despudorada.

Nos primeiros dias de contato com a terra, Nukuchu já provara a que veio. Procurou saber das necessidades do povo de Lagoa do Carro, comprou todo tipo de bugigangas e começou a vender de sítio em sítio.

Apôs vender suas mercadorias a prestação na vizinhança, Nukuchu voltava para cultivar o sítio dele, plantando tomate, melancia, pepino, coentro, alfaces, cenoura, cebola, para vender a grosso e vareja nas feiras de Carpina e Lagoa do Carro, no sábado.

Logo Nukuchu foi ficando endinheirado. Comprou à vista as terras cedidas por Zuzuku e cresceu os olhos em outras de proprietários que não queriam plantar, preferindo migrarem para o Sul em busca de trabalho na construção.

Nukuchu comprou mais terras e os compromissos foram aumentando ao ponto de não ter tempo para ele nem para Zacumida. Aliás, diziam os peões de Zuzuku que ele não tinha tempo para “visitar” a patroa, pois esta vivia se queixando, dizendo que ele “só pensava em dinheiro, deixando-a seca.”

Quando comprou o terceiro sítio para cultivar produtos variados, Nukuchu pediu a mulher, Zacumida, que contratasse dois peões para trabalhar a lavoura, deixando bem claro que só pagaria a metade do salário mínimo e que tudo que o empregado consumisse do sítio seria descontado.

Zacumida contratou um primo distante, malandro, que há muito tinha os olhos nele, para trabalhar com ela. Comprou um caminhão Mercedes Benz L 312 – 1957 para carregar os mangalhos para a feira dia de sábado. Nukuchu se encarregava ele mesmo de por os produtos no caminhão. Anotava tudo numa caderneta e despachava a mulher e Adamastor, o malandro, levar para as feiras os produtos e entregá-los aos feirantes já contratados.

Trabalhando muito e se alimentado pouco, Nukuchu teve um piripaque no meio do canavial e, dias depois, bateu as botas, deixando os três sítios prontos para Zacumida e o malandro Adamastor usufruírem das benesses.

Como não teve filhos, toda a fortuna deixada por Nukuchu ficou para Zacumida, cuja alegria era-lhe visível no brilho dos olhos. Enfim só, para alguém acender a boca do fogão que o de cujus nunca riscou o fósforo.

Mas, a alegria de Adamastor e Zacumida durou pouco. Um dia, após o fim de uma feira de sábado, depois de entregar todas as mercadorias e vender o resto no banco de feira, encheu o caminhão de mantimentos para os animais dos sítios, chamou os feirantes de Lagoa do Carro que negociavam na feira de Carpina para ir no caminhão, e partiram em desabalada carreira. 80 km por horas. Quando chegou na ladeira do Juá, marco divisório entre Carpina e Lagoa do Carro, o caminhão faltou freio e, na curva da morte, capotou por três vezes, vindo a falecerem todos, acabando o sonho de Adamastor e Zacumida de desfrutarem da riqueza deixada pelo de cujus.

Triste fim que pôs fim a um sonho que se acabou antes de começar. A vida tem dessas coisas que não se explica.

15 pensou em “NUKUCHU, O HOMEM TRABALHO

  1. Caro Cícero: Vou fazer uma pergunta necessária: Quando vai sair seu livro de contos fantásticos?. Não me refiro à literatura fantástica, que foi moda século passado. Refiro-me as boas histórias que você conta com maestria.

    • Caríssimo memorialista do JBF Brito:

      Desculpe-me não ter respondido antes. É que peguei uma puta de uma dengue que me afetou mais ainda as artroses e artrites.

      Já estou amadurecendo a ideia, como o fez a extraordinária colunista Violante Pimentel com seu excelente “CENAS DO CAMINHO.”

      Primorosíssimo!

      Obrigado amigo do coração pela visita e comentário!

  2. Cícero, não se explica mesmo! Amo passado, ano passado foi anunciado que uma terapia nova curará o câncer de um cidadão mineiro. Em outubro, salvo engano, após 2 meses da cura, ele faleceu em decorrência de um acidente doméstico.

    • Maurício: Aqui mesmo na RMR aconteceu a tragédia das lâminas que se soltaram do caminhão e arrancaram as cabeças das pessoas que vinham dentro do ônibus, lembras?

      Interessante que um dos passageiros que saiu ileso, pôs as mãos na cabeça e saiu gritando: “Obrigado, meu Deus por esse milagre!” “Obrigado, meu Deus!.”

      Um ano depois da fatídica tragédia que não atingiu o “evangélico”, este morreu atropelado por um caminhão no bairro de Paulista, quando atravessando a PE 22 (?)!!!

      Há uma explicação lógica para esse caso?

      • Não lembro do caso, mas é isso. Quando o cara não vai numa, pega a outra. Parece a história do cara cabeludo que a morte prometeu levar e ele pra escapar raspou a cabeça. Ela disse: “como não achei o cabeludo, levo esse careca mesmo”.

        • Essa história do cabeludo careca é fantástica, Maurício!

          Como não seria o mundo se não houvesse o humor para salvá-lo ante as loucuras dos psicopatas? Kkkkkkkkkkkkk!

  3. Brito!!! Só o estoque de nomes estrambólicos e excêntricos que TAVARES tem na cachola daria para encher as páginas de uma dezena de livros…

    • Caríssimo cinéfilo Altamir Pinheiros:

      Assim feito eu, o nobre colunista de Segunda Sem Lei – pense num título de coluna máximo – aprendemos tudo na tora, queimando as pestanas, porque o ensino primário sempre foi uma “merda” nos colégios estaduais e não nos formava em nada! Os professores fingiam que ensinavam e a gente fingia que aprendia!

      Obrigado Grande cinéfilo de filme de faroeste! No ESCURINHO DO CINEMA promete!

      É um LIVRO DA PORRA já nos trailers!

    • Zé Ramos, irmão do coração:

      Impressionante como as feiras livres na nossa época de adolescente se confundiam coma cidade.

      Papai sempre nos acordava às quatro da matina e dizia: “Se levantem, e vamo simbora, porque precisamo arrumar o banco!”

      Eita tempo de liberdade da PORRA!

    • Obrigado, Grande Adônis Oliveira, pelo mérito que me cabe!

      Um pedido: viaje, viaje, viaje, mas nunca nos deixe sem as suas colunas inteligentes e bem articuladas.

      Como muitas galegas das Zoropas!

  4. Prezado mestre cicero. Sim mestre na arte de contar histórias
    que certamente ele as encontra nos fundos dos poços
    em que cava com a sua genialidade de prosador.
    Também vou cobrar aqui o seu livro de Contos Fantásticos, citado pelo Brito.
    Só pelo título e pela confiança na sua prosa, fico aguardando
    com muita expectativa.

    Grande abraço.

    • Prezadíssimo comentarista Dmatt:

      Desculpe-me o atraso no comentário, Mestre de Camboriú. Um puta dum Aedes Aegypti me ferrou e as consequências da Dengue são terríveis! Mas estou melhor, com artrose e artrite tudo!

      Primeiro, gostaria de saber como está a saúde do admirável amigo do coração. O cinéfilo responsável pelo PREFACIO do livro do Mestre Altamir Pinheiro, NO ESCURINHO DO CINEMA, livro este que já nasce clássico pelo ineditivo do tema abordado.

      Quanto ao que o Grande Mestre mencionou, a nossa vivência e convivência com a vida e “os macacos pelados”, como se refere ao homem uma professora de Biologia da Universidade Católica de Pernambuco, tudo é aprendizado.

      Obrigado, Grande Comentarista pelo elogio e comentário!

      • Caríssimo Tavares.

        Desejo sinceramente a sua pronta recuperação, pois esta gazeta escrota não pode prescindir da sua relevante colaboração semanal.

        A minha saúde está bem melhor, pois estou evitando ver, ler,
        e entender as besteiras , ditas, pensadas e cagadas pela esquerda
        nativa. Estou proibido pelo médico.

        Quanto ao Balneário Camboriú, eu já disse para o
        Altamir Pinheiro, que aqui é uma cidade limpa, bem administrada e o mais importante, não tem petistas ou lulistas de profissão.
        Saí do Rio há mais de quarenta anos ( desde o desgoverno Brizzola ) ,
        passei pelo Paraná e me transferi para SC há aprox. 20 anos.
        O anti lulismo aqui é prioridade , não só das autoridades como
        do povo civilizado e bastante atuante, Para lembrar ao amigo, informo
        que aquela famosa faixa aérea LULA CACHACEIRO DEVOLVE O MEU DINHEIRO, é posta no ar pelo dono da Havan. em uma de nossas praias. Já vi várias que são sempre muito aplaudidas pelos
        banhistas e turistas.

        Quanto ao prefácio do livro “NO ESCURINHO DO CINEMA ” já
        está pronto e já foi enviado para o escritor do livro, o nosso
        sapientíssimo, escritor mestre em cinema Altamir Pinheiro.

        Esse livro com certeza será um grande sucesso, pois o que ele
        traz em informação, didatismo cinematográfico e fatos
        inéditos sobre cinema , será muitíssimo apreciado.

        Agora só nos resta aguardar. certamente gostaríamos que todos
        pudessem lê-lo imediatamente.
        Abraços e estimo melhoras.

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