CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Grupo Escolar Amaury de Medeiros, a primeira “escola de verdade”

Papagaios falam? Se uma ave pode falar, as crianças também aprendem a se comunicar facilmente através das repetições. “Cadê Cleó? Cadê Cleó?” Por que os papagaios falam? Esta questão faz parte de minha história mais remota.

Alfabetizado por mamãe Ingressei na “Escola de D. Cleomar”, que funcionava numa casa bem próxima à nossa, na Vila dos Remédios, em Afogados. Vale comentar como era o ensino na década de 1940 e suas notáveis peculiaridades.

Éramos apenas cinco alunos, quase todos da mesma idade. Arivaldo era o mais velho, contava sete anos. A sala de visitas era a escola improvisada. Quando todos estavam reunidos na mesa de jantar, a professora se assemelhava, nos dias de hoje, ao chefe de uma reunião. Não havia quadro-negro, mas ela criava modos de salientar as gravuras numa tela de cartolina.

Muitas coisas interessantes guardo numa das gavetas do coração, sobre passagens de vida daqueles momentos, onde tudo tinha os encantos da “primeira vez” e o improviso fazia o ensino naquela escolinha funcionar. Anotei algumas cenas num velho caderno talvez prevendo que serviria para temas das futuras crônicas, quando eu desejasse escrever sobre as coisas do “meu antigamente”.

Todos os dias mamãe me levava e trazia, embora a escolinha fosse perto de nossa casa, defronte à residência de Tia Floriza. Dos apetrechos para as aulas, lembro-me apenas de uma caixinha com lápis de várias cores, o apontador, uma borracha, daquelas que eram enfiadas na cabeça dos lápis. O lanchinho ia embrulhado num guardanapo e junto, ia um copo de alumínio. Tudo acomodado dentro de uma sacolinha de tecido grosso, com alça, que ela fizera com o maior esmero para essa destinação.

Era um orgulho ir para a escola conduzindo aquela sacolinha no ombro. A impressão é que eu estava indo para u’a missão, que compreendia o horário das 8 às 11h. De fato, era. Pois aprender, seria a missão mais importante de todos o tempos de nossas vidas. E aquela incumbência era a base de tudo. O impulso para a gente se projetar na sociedade. A empolgação não era pequena. Sentíamo-nos importantes à medida em que sabíamos ler, escrever e contar. Todos os dias chegávamos em casa com uma novidade aprendida. Uma delas foi a história do papagaio “Zezinho”.

Fiquei boquiaberto quando D. Cleomar me respondeu porque seu papagaio falava: “Cadê Cleó? Cadê Cleó?”, frase que lhe foi ensinada por seu marido, sr. Vinícius. Explicou-me que sendo aves muito inteligentes, os picitacídeos aprendem a repetir os sons de nossas palavras e assim, desde que treinados como o nosso foi, “Zezinho” aprendeu essas repetições e consegue reproduzir nossas frases.

Era muito engraçado. Quando estávamos em aula o bicho começava a falar e repetia v: “Cadê Cleó? Cadê Cleó? E ela carinhosamente respondia: Tô aqui, Zezinho!

Outro episódio interessantíssimo foi quando experimentamos a escrever de fato frases completas. Pelo modelo contido no “Caderno de Caligrafia Vertical”, muito usado na época, aprendíamos aprimorar a letra. “Nicolau vai puxar o carrinho”, era a frase-guia para a gente copiar várias vezes e ir fazendo dos garranchos letras mais aprimoradas. Escrevi muitas vezes esta frase, porque tínhamos que reproduzi-la, escrevendo em cima das linhas retas das pautas impressas no caderno.

Os “Deveres de Casa” consistiam em algumas continhas simples e um ditado, que as mães deveriam ler para a criança copiar.

Maria Ester, nossa coleguinha, recebera aplauso da professora logo nos primeiros dias, porque, na “prova da letra”, existente nos “Deveres de Casa”, tinha que ser escrita numa folha em branco, sem desaprumar a letra, e ela o fez sem perder o prumo da linha.

Certa feita, Arivaldo descobriu o macete. A mãe da menina, D. Malvina, contara a D. Lola, mãe de Vavá, que ajudava a filha, botando uma régua no papel em branco e marcava a folha com a ponta da unha, de forma que a colega escrevia, obedecendo cuidadosamente a linha imaginária. Na verdade era a “linha invisível”. Porque o sulco da unha era a “estrada” para a escrita seguir retilínea.

“Hora do Recreio”, não era possível porque não havia espaço para se correr ou brincar mas era sagrado o momento do lanche e um tempo de repouso para as conversas. geralmente os alunos traziam seus lanches de casa. Lembro-me que eu possuía um copo de alumínio, que se encolhia, para diminuir o espaço na sacolinha, no qual eu tomava o suco com um sanduiche de meio pão francês e queijo.

A professora tinha uma filhinha – Tereza Fernanda, de uns dois anos, que ficava sentada em sua cadeirinha alta utilizada em suas refeições. Ela ficava parte das aulas perto da gente, aproveitando para se distrair com um “cotôco” de lápis e uma folha de papel-de-pão, que riscava por algum tempo.

As aulas tinham “paradas técnicas”. Nos instantes em que era necessário a professora ir à cozinha dar u’a mexida na panela do feijão ou colocar a criança no berço, “pedia tempo”. A gente parava e ficava proseando. Enquanto distraia-se com os alunos, Tereza Fernanda permitia que a mãe passasse uma vassourinha na casa.

A primeira tarefa do dia era uma cópia caligráfica. Depois, havia um ditado, que conferidos um a um, oferecia os primeiros ensinamentos, comentando-se os erros. A aritmética fazia parte da trilogia inicial de qualquer iniciante: ler, escrever e contar. No meu caso fui apenas aprimorar alguns ensinamentos, porque saíra de casa alfabetizado.

Os objetos utilizados para nos mostrar a maneira mais fácil de contar, eram utilizando-se os talheres da casa da professora, aproveitados para facilitar o entendimento visual, porque não havia lousa. Nos dois primeiros meses de aulas, a professora desenhava os números em uma folha de cartolina, escrita a lápis. Para a aula do dia seguinte ela apagava tudo para aproveitar o papel. Um artifício inteligente.

À medida em que o faturamento foi se solidificando, ela adquiriu um tripé e um quadro-negro. Aí foi Hollywood! Para nós se passava uma verdadeira e fascinante fita do cinema.

Não fiquei naquela escolinha muito tempo porque aos sete anos fui matriculado num estabelecimento preparado para o ensino primário: o Grupo Escolar Amauri de Medeiros, para onde seguia com mamãe, que nos primeiros dias teve que ficar comigo, porque me amedrontei com tanta gente num só lugar, um prédio enorme, os sons de um sino que tocava para indicar a hora de começar as aulas, a hora do lanche e o final do turno.

Saí do aconchego de colegas que se conheciam de perto, para u’a multidão escolar, com muito alvoroço. Tudo diferente. Ninguém conhecia ninguém. Amedrontavam-me as cenas daquele cotidiano tão diferente.

Mas foi meu grande salto de modernidade de hábitos. A nova escola tinha tudo que um estabelecimento de ensino precisava, a partir de um prédio imponente, com dois pavimentos, construído com a finalidade específica, situado na Rua São Miguel, perto do Largo da Paz. Havia mesas especiais para cada aluno e um espaço embaixo da banca para a colocação dos nossos pertences. O Quadro-negro era enorme e cada sala contava com cerca de 15 alunos.

A “Hora do Recreio” era uma bagunça que eu jamais experimentara: as crianças gritavam muito, desciam correndo pelas escadas de madeira, fazendo a maior zuadeira. Todas as classes se reuniam no pátio, na maior balbúrdia. Foi um choque observar assustado aquele momento, porque era a minha estreia numa “escola de verdade”, mas onde a organização deixava a desejar. Ninguém podia conter a fúria da meninada enlouquecida.

No primeiro dia de frequência, quando mamãe pediu minhas impressões, eu empertigado declarei:

– Agora estou numa “escola de verdade”, mas muito anarquizada!

Nunca perdi o contato com a família daquela mestra. Quando Tereza Fernanda casou-se, D. Cleomar foi residir com ela, no bairro das graças. Ao saber que completara 90 anos, fui mais uma vez visitá-la com minha família. Uma prosa cheia de boas recordações. Era uma pequena escola, mas ali, na pequenina casa da Rua Gaspar Drumond, 129, aprendi o que eram os primeiros modelos de convivência organizada em sociedade.

Que bom poder reviver essas memórias!

5 pensou em “NOTAS DE ANTIGAMENTE

  1. Excelente crônica, meu amigo Carlos Eduardo.

    Já faz um certo tempo que não comento aqui, mas nunca deixei de ler as suas “Crônicas Cheias de Graça”. E de sempre acompanhar o JBF do nosso querido Luiz Berto!

    Parabéns a ambos !

    • Phillipe irmão,

      Eu não poderia receber a autenticação de suas visitas à coluna sem um mínimo rejeitar, porque você sendo meu amigo é suspeito.

      Mas, o que importa é a dádiva contida em suas amáveis palavras, as quais reportam também ao Jornal e ao caro Editor Luiz Berto.

      Gratíssimo,

      Carlos Eduardo

  2. Li encantada sua crônica, pois lembrou-me os bons tempos na Escola Amaury de Medeiros, onde estudei da primeira a oitava série, iniciando no final da década de 70. E minhas impressões foram semelhantes as suas. Uma escola enorme, pra mim tão pequena, era uma multidão de seres barulhentos. Lembro-me saudosa daquela época.

  3. Cara Rosângela,

    Tenho escrito a auto-biografia disfarçada em crônicas, que tenho guardado e outras que vou publicando no JBF, sempre aos domingos.

    São 85 anos de uma trajetória cujos episódios, em sua maioria, me são caros.
    Sofri pouco e tive vida cheia de sorte e oportunidades. Hoje estou colhendo os principais frutos: a descendência, com um “faturamento” de 12 netos, 11 netos e 4 filhos. E o melhor, juntando netos com bisnetos já exportei 13 “Santos” para os Estados Unidos.

    É natural que os escritos através dos quais pretendo deixar para a família meus enfoques, em cada um deles, estão impressas em seu bojo certas confidências familiares – nem tão secretas assim – mas que pouco interessam ao público, sobremodo por causa do espaço do jornal, que tem limitações.

    Por exemplo, quem me encaminhou para o Amaury de Medeiros foi uma vizinha nossa, D. Beatriz Leite Barbosa, que era sua diretora, e mais adiante, aos 14 anos, ela me apresentou ao City Bank e ali comecei minha carreira profissional, recebida de mão beijada.

    Mas, nesse intervalo, estudei na Escola Dom Bosco, na Rua Imperial, de onde passei para o Colégio Moderno, na Rua da Paz, (na esquina do Beco do Veado), depois fui para a antiga Faculdade de Ciências Econômicas.

    Há um quê de atração por aqueles tempos, sobre os quais mergulho, de vez em quando, para captar aspectos sociológicos, as coisas como aconteciam nos meus tempos.

    Recordar não é querer que o tempo volte; mas comparar os dias de ontem e achar graça no contraste das comparações; isto me foi dito pelo grande escritor Fernando de Castro Lobo, pai do compositor e cantor Edu Lobo.

    Por exemplo, conheci a Estrada dos Remédios quando ainda era de barro e quando eu estudava no Amaury havia na esquina uma grande fábrica: a Cia. de Cigarros Souza Cruz, que dominava o quarteirão até a feira, cujo mercado era do lado direito de quem ia para a Madalena e ainda não havia a ligação rodoviária.

    Lembro-me do Largo da Paz quando havia um abrigo do bonde ao Lado da Padaria Mimi, das Lojas Brasileiras, do Cinema Central.

    Há muita coisa para assanhar suas lembranças. Fico feliz em ter conseguido estimular seus tempos de ontem. Que bom conhecer remotamente uma pessoa que viveu em Afogados (penso eu…). Ô lugarzinho pra não evoluir!…

    Obrigado por sua leitura e o comentário.

    Cordiais Saudações do

    Carlos Eduardo Carvalho dos Santos

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